segunda-feira, 5 de dezembro de 2016




DOMINGO DE CHAPECOENSE CAMPEÃ E DE POVO BRASILEIRO CONTRA A CORRUPÇÃO



Pensar no futebol como sendo um meio transformador, que ultrapasse os limites do campo de futebol para mudar as pessoas, é algo que nos parece utópico e distante demais.

As transformações decorrem da cultura, da educação e até das manifestações do povo nas ruas, afirmam os especialistas.

No entanto, o triste acidente aéreo com a Chapecoense e a perda irreparável de praticamente todo o time, dirigentes, jornalistas; a acolhida comovente de nossos irmãos colombianos aos que partiram; as manifestações de carinho aos brasileiros, vindas de todas as partes do mundo; as homenagens nos campos de futebol reverenciando os jogadores da Chape; a iniciativa do Atlético Nacional de entregar o título de Campeão Sul-Americano à Chapecoense, é o testemunho de que o esporte pode ser um agente transformador e catalisador de amor e união. "Él fútbol no tiene fronteras", dizia a faixa estendida no Estádio Atanasio Giradort. Na verdade, aprendemos que a solidariedade não tem fronteiras.

Num momento tão difícil como o que o Brasil vive hoje, com o total descrédito na classe política e o espírito exacerbado de boa parte da população, às vezes até de ódio incontido, essa corrente de amor que se formou em torno da tragédia, paradoxalmente, foi um alento para os brasileiros. De repente, percebemos que não estamos sós e que a descrença pode dar passagem para a esperança, a dor pode se sentir agasalhada pelo amor e o luto pode ser amparado pelo manto da comunhão.

Até recentemente seria impensável imaginar o encontro das quatro maiores torcidas organizadas de São Paulo em frente ao Estádio do Pacaembu sem se digladiarem, xingarem, cuspirem, estapearem, desdenharem... pois ontem, isso foi possível. Lá estavam elas reunidas, confraternizando no mesmo espaço, para homenagear as vítimas do acidente: São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos.

Quando o país luta para ser ouvido e deposita seu último alento e resto de confiança na Operação Lava Jato, conduzida pelo juiz Sergio Moro e sua Força Tarefa e se depara com o descaso e escárnio dos políticos, a tragédia inesperada com o voo da LaMia nos faz meditar em silêncio sobre a nossa finitude e o legado que queremos deixar para as gerações futuras. Isso nos coloca diante de uma nova perspectiva, mais ampla e transformadora.

Neste domingo, mais uma vez, os brasileiros foram às ruas em repúdio às alterações feitas pela Câmara dos Deputados ao projeto de lei das Dez Medidas Contra a Corrupção que contava com a assinatura de 2,4 milhões de pessoas. Um sentimento de indignação e traição se espalhou por todo o país, resultado da indiferença e do descaso de deputados e senadores para com o povo. Contrapondo-se a isso,  nos deparamos com a “não indiferença” e demonstrações de afeto do mundo aos brasileiros diante do acidente aéreo. Um bálsamo que aquietou e aqueceu os corações indignados. Essas mensagens de solidariedade tiveram o efeito de amenizar a dor pela perda e de nos fortalecer na luta pelo reconhecimento.

Reconhecimento que buscamos no dia a dia, pois na vida somos muito mais Chape do que Flamengo, São Paulo, Barça, Arsenal... Vivemos de sonhos. Estabelecemos metas para alcançar vitórias que ainda não temos, e que muitas vezes parecem ser muito maiores que nós. Lutamos pela vida como a Chapecoense lutava pelo seu primeiro título internacional. Buscamos ser valorizados. Diante de qualquer pequena conquista festejamos e saímos para comemorar com os amigos, como se fosse a maior conquista do mundo... É... Chape somos nós... Talvez por isso as mensagens de carinho vindas de todos os lugares tenham sido tão emblemáticas e reconfortantes. É como se o mundo nos dissesse: - Vocês são campeões!!! - Vamos vamos Chape...

É possível que esse seja o efeito dominó de que tanto se fala: uma peça cai tocando a outra, que cai tocando a outra,... até que ao final todas juntas acabam formando um único desenho.

A verdade é que o amor e a solidariedade de cada pessoa tem o dom transformador sobre a outra.


Foi esse o sentimento quando o Atlético Nacional abriu mão do título para entregá-lo à Chapecoense. Um gesto nobre, ético, que nos faz lembrar o que é o espírito esportivo. Eles não se importaram em ter mais um título em sua bem sucedida história de conquistas ou no substancioso prêmio que é dado em dinheiro ao clube campeão. Tiveram fair play, honraram a camisa do time e o seu país, e com isso valorizaram todas as vitórias que tiveram até aqui. Mostraram ao mundo que glória e triunfo podem transcender aos campos de futebol. Isso é transformador.

No momento em que a torcida do Atlético Nacional da Colômbia, vestida de branco, lotou o Estádio Atanásio Girardot para homenagear a Chapecoense no horário marcado para o jogo, e que outras milhares de pessoas estavam nas ruas em tributo e respeito pelos que se foram, isso nos comoveu e choramos junto.

O esforço do povo colombiano para partilhar a perda e confortar as famílias, amigos e todo um país, nos irmanou para sempre. Sim, fazemos parte de um todo, o que acontece aqui, repercute no universo. Nosso viver é descobrir que não estamos sós, estamos todos irmanados, e que carregamos em nós o ontem, o hoje e o amanhã. O acolhimento do povo colombiano aos nossos campeões até a volta pra casa calou fundo em todos nós, nós que andávamos tão descrentes diante da corrupção, do desemprego, da recessão, da falta de perspectiva que assolou o país nos últimos tempos.

Sábado, 03/12/2016, foi o dia da volta pra casa... Não era como esperavam voltar, mas a chegada foi emblemática e dificilmente será esquecida. Uma chuva densa e incessante os recebeu. A cidade de Chapecó, ainda incrédula, ocupou as ruas e avenidas para num último abraço, se despedir daqueles jovens vitoriosos cheios de sonhos. Dizem que a água simboliza uma nova vida. Talvez, a chuva tenha sido a forma que Deus encontrou de nos dizer que eles estão bem, iniciando uma nova jornada logo ali, no outro lado do caminho.

Alguns deles foram enterrados neste domingo, ao tempo em que as manifestações contra a corrupção se espalhavam pelo país....

A dor, a perda, o luto, fazem parte da vida; assim como a luta, o inconformismo, as escolhas fazem parte das mudanças. Seguir em frente é preciso....

Carlos Drummond de Andrade, escreveu:

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo, é renovar as esperanças na vida e o mais importante, acreditar em você de novo... Porque somos do tamanho daquilo que vemos, e não do tamanho da nossa altura...”.
O sonho da Chape era conquistar a América, acabou conquistando o mundo. Que o Deus misericordioso ampare as famílias e amigos. E que em breve a história continue a ser contada... pois tudo é renovação nesta vida.

O sonho dos brasileiros é acabar com a corrupção e ver seu país crescer, seu desejo foi levado às ruas.

Ao final, todos sabemos que nada mais será como antes amanhã ou depois de amanhã....





Shadow/Mariasun Montañés



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sábado, 3 de dezembro de 2016




SOMOS TODOS CHAPE





Por aqui os dias têm sido tristes. Um silêncio profundo parece haver tomado conta das ruas do país.

Brasileiro é um povo alegre, de riso fácil, expansivo, fala alto, gesticula, mas, um comedimento respeitoso se fez presente durante esta semana nos bares, escolas, restaurantes, empresas, escritórios... 

O verde está colorindo cidades inteiras, o verde que simboliza a esperança, mas que hoje simboliza também a fraternidade e a solidariedade, que encontramos na dor da partida.

Na última terça-feira, 29/11/2016, acordei cedo, como sempre faço. Senti o friozinho que uma madrugada fresca deixara aqui em São Paulo. No lento despertar enquanto preparava o café, liguei a televisão. No início não prestei atenção, apenas a voz da jornalista me fazia companhia sem, no entanto eu estar sintonizada ao que ela dizia. Lembro de ter olhado para a tela e ver uma imagem verde, pensei: Deve estar falando do Palmeiras. E continuei concentrada no que fazia, até que ao aumentar o som, gelei: acidente aéreo com o time da Chapecoense!!!

Incrédula, pensei: Caiu o avião??? Como caiu??? No domingo o time estava em campo!!! Aumentei o volume da televisão para ter certeza de que o sono não estava confundindo os meus sentidos.

Parei o que estava fazendo. Devo ter perdido a respiração por alguns minutos ao ver as imagens. Sim, o avião havia caído e seus destroços estavam espalhados na serra próxima ao aeroporto de Medellín. Estava tão perto, por que não conseguiu pousar???

Voltei a respirar ao ouvir a jornalista dizer que havia sobreviventes: 1, 2, 3, 4, 5... Fiquei atenta para ouvir a contagem subir. Meu coração dizia: se alguns se salvaram, outros também podem ter conseguido; apesar da razão dizer: esses que escaparam estão vivos por um milagre, impossível sobreviver a um acidente aéreo como esse... Não tardou para informarem a suspensão do resgate pelas más condições do tempo e dificuldade de acesso. Era a confirmação de que a partir de então a contagem seria da dos que não haviam sobrevivido. Horas mais tarde, ao retomarem as buscas, encontraram o último sobrevivente, milagre define!!! Ao todo, 71  vítimas e 6 sobreviventes.

Nas redes sociais, homenagens, mensagens de todas as partes do mundo, formando uma corrente de amor em meio ao luto e à dor. Nas ruas, no metrô, no supermercado, no trânsito... a tristeza e o nó na garganta no semblante de cada um.

A partir daquele momento, ficamos íntimos da Chapecoense, que carinhosamente passamos a chamar de “Chape”, como se todos fizéssemos parte da torcida desde longa data....
Fiquei durante o dia todo pensando no sentido desse acidente. Será que o destino nos pertence?

Uma antiga lenda chinesa diz que: 

Fios invisíveis conectam os que estão destinados a se conhecerem ou a se encontrarem, inclusive na morte. Independentemente do tempo, lugar ou circunstância. Os fios podem esticar ou emaranhar, mas nunca se romperão, ligando irremediavelmente uns aos outros.

Então comecei a meditar sobre os passos da Chape até entrar naquele avião:

Por noventa intermináveis minutos o time segurou o empate naquele que seria o jogo mais importante e fatal de sua história. No último minuto da semifinal do torneio da Copa Sul-Americana, Danilo - o bravo goleiro - esticou a perna direita como um gigante, para evitar o gol do São Lourenço e assim acabou classificando a Chape para a final do campeonato.
A equipe de jovens talentos enfrentaria o Atlético Nacional de Medellín. Todos comemoraram com euforia a conquista no vestiário. Era um sonho realizado!!! De fato é uma proeza e tanto para um clube de apenas 43 anos, que rapidamente chegou à série A, disputar a final num campeonato internacional.
Fios invisíveis começavam a vibrar naquele momento, selando o destino de todos....
Após jogar sua última partida em São Paulo contra o Palmeiras, e de haver valorizado a conquista do título do adversário, o grupo se preparava com grande expectativa para ir a Medellín, disputar a final da Sul-Americana.
O time embarcaria em um voo fretado partindo de Guarulhos para Medellín, tudo estava pronto para o embarque, porém os planos tiveram que ser abortados, quando a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) vetou o fretamento.
Com a imprevista alteração os jogadores, equipe técnica e jornalistas fizeram um voo comercial do Brasil até a Bolívia e, de lá fretaram o voo da LaMia que os levaria até o destino final.
Mais uma vez o inesperado e fios invisíveis traçando a história...
O plano de voo inicial teria uma parada técnica para abastecimento em Cobija, ocorre que esta não poderia ser feita porque aquele aeroporto não funciona à noite. O tempo perdido com o veto da ANAC teria atrapalhado os planos para essa parada. O plano B seria pousar no aeroporto de Bogotá. A Agência de Aviação da Bolívia alertou a LaMia para alterar o plano de voo, o piloto recusou, e, apesar da advertência e da negativa, o controle de voo boliviano autorizou a decolagem, sem reserva de combustível para aquele trajeto, a despeito do risco de uma pane seca.
Seria isso o  que chamam de destino??? Haveria uma força invisível determinando o rumo dos acontecimentos???
Segundo a Mitologia grega, o destino seria determinado por três irmãs, as Moiras, a elas caberia fabricar, tecer, medir e cortar o fio da vida.
Ao seguir viagem mantendo o plano inicial, o piloto traçava o destino do voo da LaMia. Já próximo ao aeroporto de Medellín, outra aeronave que teve seu curso desviado para lá por estar com problemas de combustível, obteve autorização para pousar na frente da LaMia. A essa altura os minutos eram vitais. Por estar fazendo um voo irregular e para evitar punições, o piloto não relatou de imediato à Torre de Controle a falta de combustível. Sem combustível, sobreveio a pane elétrica, a pane nos motores e a queda fatal.
Ante essa sucessão de acontecimentos, não tem como deixar de pensar em destino e fatalidade e nos fios invisíveis que vibram e unem as pessoas, inclusive nas tragédias. É como se todas aquelas pessoas tivessem que estar reunidas ali, naquele momento, naquele voo não no que a ANAC vetou ou numa rota diferente. Quem não fazia parte disso ou milagrosamente se salvou ou deixou para viajar no dia seguinte. Mistérios entre o céu e a terra....
Um mistério como o que hoje nos une e criou um liame eterno entre Chapecó, o Brasil e o mundo e, em especial, com o povo colombiano, que tão carinhosamente acolheu nossos meninos e não se cansou de homenagear nossos campeões até o momento da volta pra casa. Sim, uma nova família nasceu!!!
Hoje somos todos Chape!!!

Inesquecível a homenagem da torcida do Atlético Nacional na noite em que o primeiro jogo da final com a Chapecoense seria realizado. Os torcedores lotaram o Estádio Atanasio Girardot e as ruas no entorno num momento comovente e emblemático:

Vamos vamos Chape...


Shadow/Mariasun Montañés


Segunda-feira, 05/12/2016,
A Conmebol acaba de declarar a Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana de 2016.
O pedido de que a Chape fosse considerada campeã feito pelo Atlético Nacional foi decisivo: "Além de estarmos muito preocupados com o lado humano, pensamos no aspecto competitivo e queremos publicar este comunicado onde o Atlético Nacional convida a Conmebol para que entregue o título da Copa Sul-Americana à Chapecoense como uma homenagem à sua grande perda e homenagem póstuma às vítimas fatais do acidente que deixa nosso esporte de luto. Da nossa parte, para sempre, Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana de 2016", dizia a petição.
Em decorrência do título, a Chape conquista vaga na fase de grupos da Libertadores de 2017 e arrecada prêmio de 2 milhões de dólares (aproximadamente R$ 7 milhões). Também se classifica para a disputa da próxima Recopa Sul-Americana, na qual enfrentará justamente o Atlético Nacional, totalizando mais US$ 2,8 milhões garantidos (quase R$ 10 milhões).             
Além disso, a CBF vai fazer uma doação de R$ 5 milhões para ajudar a equipe. Um amistoso entre a seleção brasileira e a Colômbia também está planejado. 
A Conmebol também informou que entregará o prêmio "Centenário Conmebol de Fair Play", que vale um milhão de dólares (aproximadamente R$ 3,5 milhões), ao Atlético Nacional.                                        
A final da Sul-Americana seria a primeira decisão internacional da história da Chapecoense. Na próxima temporada, a equipe estreará também na Copa Libertadores da América.


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sábado, 17 de setembro de 2016




DOMINGOS MONTAGNER, O PROTETOR DO RIO SÃO FRANCISCO


Uma lenda indígena conta que antes do rio São Francisco ser formado, várias tribos viviam no chapadão da bacia. Em uma dessas tribos vivia uma índia chamada Irati, apaixonada por um bravo guerreiro de outra tribo. Esse amor foi interrompido quando ele teve que ir para a guerra e não mais voltou, restando apenas um grande sulco aberto na terra pelos passos por onde o jovem guerreiro passou. Dominada pela imensa saudade, Irati chorou incansavelmente a ausência do amado e, desse seu pranto, lágrimas começaram a escorrer pelo chapadão, despencando do alto da serra formando uma cascata; as águas da cascata caíram sobre o sulco por onde o índio passara, nascendo assim Opará, na língua indígena, rio-mar, o rio São Francisco, correndo do sudeste rumo ao norte e para o mar.


Ainda hoje, as águas do rio carregam em sua correnteza lendas e tradições....

Há milênios, a água é o símbolo maior da vida e do sagrado. Ela contorna obstáculos, esculpe as pedras dos rios, mostra-se serena nos lagos, intensa nas cachoeiras, abençoada nas chuvas. Está sempre em movimento...

A água, por si só, tem uma mística própria, ela é para a natureza como o sangue é para o nosso corpo, levando vida, irrigando a terra, fazendo crescer as plantas, saciando a sede. Em várias religiões e tradições a água simboliza o sagrado, o divino.

Nas Escrituras Sagradas, encontramos várias passagens falando da água: Jesus sendo batizado nas águas do Rio Jordão, como símbolo da vida nova e da purificação dos pecados; Moisés com o seu cajado abrindo as águas do Mar Vermelho para seguir com seu povo rumo à Terra Prometida....

Nas religiões afro-brasileiras, encontramos os orixás em perfeita harmonia com as águas e a natureza. Muitos dos seus rituais são realizados em cachoeiras, rios e mares.... Assim como, as comunidades ribeirinhas por onde o velho Chico passa, ricas, quando o assunto é cultura, tradição e lendas, tendo o rio como seu principal protagonista.


Quais são os mistérios das águas do rio São Francisco ao passar pelos capões esparsos entre os morros e as chapadas, pelo verde dos coqueiros e das palmeiras de buriti, e, o ecoar do grito das maritacas, que mexe com o nosso imaginário? Quais os segredos ocultos em suas margens e canions?
A verdade é que a natureza reluz nesse rio-mar em todo o seu esplendor, dominando com majestade o horizonte que lhe pertence. O caudaloso rio São Francisco tem uma beleza que impressiona, impõe respeito e uma espécie de veneração quase sagrada. É preciso ter cuidado para não se deixar hipnotizar, enredar e levar por suas correntes e redemoinhos.
Poucos lugares do mundo são tão identificados com a natureza quanto o velho Chico. Por que velho? Justamente por guardar a ancestralidade que corre em suas águas. Os índios dizem que não se deve entrar em suas margens ou em suas águas sem pedir licença aos pajés. A água do velho Chico é sagrada.

Nesta semana, no leito do rio São Francisco, lágrimas de todo um país se juntaram às de Irati.

Foi com estarrecimento que ficamos sabendo da morte por afogamento em suas águas, do carismático e talentoso ator Domingos Montagner, a duas semanas do último capítulo da novela, onde o velho Chico também é um dos protagonistas. Uma triste ironia!!!

A ficção e a realidade, a realidade e a ficção....
A novela escrita por Benedito Ruy Barbosa feita em homenagem ao rio São Francisco, num cenário que retrata a escassez da água, poluição e a transposição de um dos rios mais importantes do Brasil. Uma história centrada no amor e no ódio, na vida e na morte, tendo como fio condutor a saga do destemido Santo dos Anjos, o personagem de Domingos Montagner, um herói que comovia e transpirava afeto, hoje imortalizado nas águas do São Francisco, rio que com ele contracenou do início ao fim.

Nunca o nome de um personagem coube tão bem em uma história: Santo dos Anjos. Santo nos remete aos ritos sagrados, à divindade, ao sagrado que o rio representa; dos Anjos, anjos são mensageiros espirituais entre Deus e os homens, com os quais Domingos Montagner deve estar confraternizando agora.
Seguindo esse entendimento, é preciso dizer que a novela navegou por águas turvas e perigosas ao lidar com o misterioso mundo dos mortos: o barco dos mortos; o matador que consulta o espírito do pai morto; as famílias em luta em nome dos mortos; a vidente indígena que prevê a morte de alguém e dá uma carranca para proteção; o morto que fica vagando entre os vivos, por não saber que morreu; o espírito de uma criança morta aprisionado por anos em um dos quartos da casa do coronel; a confecção da mortalha à espera da morte; o retrato na parede do pai morto; a matriarca que mergulha no rio para morrer, após pressentir a morte do neto; o corpo inerte sendo levado pelo rio para renascer após a morte, justamente Santo, o personagem de Domingos Montagner, uma das cenas mais impactantes da novela... e... a própria morte do rio, mencionada o tempo todo... tendo como música tema de Santo e Tereza "Mortal Loucura" de Maria Bethânia.

Em seus capítulos, a novela transitou pela religião com matriz africana e indígena. Os atores foram envolvidos nessa trama, sem serem iniciados e protegidos das energias e forças da natureza que envolvem mistérios densos e delicados. A cultura afro-indígena tem os seus mistérios e, muitos deles precisam ser dominados e tratados com o máximo respeito. Como bem sabem os índios: é preciso pedir permissão para entrar nos rios e nas matas... Eles têm seus donos....

Existe energia na natureza. Existe um poder. Existe uma força. Existe vida. A ficção se apropriou das águas do São Francisco, ao ponto de se tornarem um só, sem olhar para os perigos dessa proximidade.
Domingos Montagner foi o segundo ator a morrer durante a gravação da novela. O primeiro foi o não menos talentoso, Umberto Magnani, cujo personagem era um padre, um religioso, conhecedor dos mistérios da vida e da morte.
As vivencias dos índios e dos pescadores do rio São Francisco transcendem a atividade da pesca tocando o imaginário simbólico. A vida pulsa não apenas nos aspectos que envolvem a alimentação, a economia e o transporte da região, mas também a cultura local, com muitas lendas e histórias. Uma das histórias contadas pelos barranqueiros é a do "Vapor Encantado", transportado para a novela “Velho Chico” como a "Gaiola Encantada", o barco dos mortos.

A embarcação teria sido avistada pela primeira vez por dois canoeiros. Eles estariam atravessando o rio quando se depararam com um barco a vapor muito iluminado navegando ao longe. Ao se aproximarem, o barco simplesmente desapareceu diante deles.
Essa lenda segue forte até os dias de hoje. Enquanto uns dizem que uma grande festa acontece na misteriosa embarcação, outros garantem que não há sequer um tripulante no barco. Esses mistérios enriquecem a cultura da bacia do São Francisco e inspiram muitos artistas, músicos e contadores de história da região.

Da mesma forma, as populações ribeirinhas creem haver entidades habitando as florestas e as águas, espíritos ligados à natureza, que às vezes se materializam na superfície das matas e dos rios. Eles se revelam por meio do folclore que se repete de geração a geração, mantendo-se vivos no imaginário popular.

Onde e em que momento o elo desses seres com o rio São Francisco, o “velho Chico”, toca a ficção e a realidade?

O rio São Francisco é o nosso Nilo, também chamado de rio da integração nacional, uma vez que passa por vários Estados até chegar ao mar.

Nas últimas décadas ele vem passando por várias transformações provocadas pela mão do homem. A ação humana e a transposição das águas do rio causou morte e trouxe desequilíbrio ao ecossistema da região, afetando a vida das populações ribeirinhas, dos índios, dos animais.... e... dos espíritos da natureza.

A construção da hidrelétrica de Xingó, instalada no rio São Francisco entre os Estados de Alagoas e Sergipe, no município de Canindé de São Francisco, local onde Domingos Montagner se afogou, provocou sério impacto ambiental, de caráter irreversível.
A usina alterou a paisagem ocasionando grandes desmatamentos e prejuízos à fauna e flora. Áreas de floresta foram inundadas com o consequente desaparecimento do habitat de várias espécies de animais ameaçadas de extinção, como o sapo cururu. A temperatura da água mudou devido à geração de energia à qual muitos peixes não conseguiram se adaptar. Em razão de uma série de explosões durante a construção da hidrelétrica, o curso do rio foi alterado, montanhas foram escavadas, animais desapareceram, cascatas silenciaram, restingas e corredeiras sufocaram, gerando uma área de refluxo, redemoinhos e correntes anormais, na forma de um lamento silencioso e pedido de socorro do São Francisco.

O impacto da hidrelétrica afetou não apenas o meio ambiente, mas, também, as populações ribeirinhas, que tiveram que sair de suas margens.

Como já dito antes: a água do velho Chico é ancestral e sagrada...
A novela “Velho Chico” foi de encontro a isso. A história começa na década de 70, quando a Usina Hidrelétrica de Sobradinho foi construída, desalojando muitas famílias do seu entorno. O coronel Jacinto (Tarcísio Meira), acaba sendo o maior beneficiário dessa obra. Herdeiro da família de Sá Ribeiro, ocupou a região e fundou Grotas do São Francisco, incorporando às suas terras tantas outras quantas pôde alcançar: terras devolutas, indígenas, de quilombolas, usando para tanto seu prestígio político e a amizade com o cartorário da cidade. De todas as terras que desejou, a única que não conseguiu incorporar ao seu vasto latifúndio foi a Fazenda Piatã, uma pequena gleba que divide sua propriedade ao meio, herdada por seu inimigo, capitão Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi). A disputa da terra transcende a outras gerações, transformando a região num palco de guerra, violência e morte.

Tendo o rio São Francisco como pano de fundo, o que se vê no decorrer dos capítulos é uma família de latifundiários lidando com a terra e o rio de maneira tradicional e, outra, buscando formas alternativas de trabalhar a terra e de cuidar da água para encontrar o equilíbrio entre o homem, a natureza e as formas de produção, em meio à briga entre famílias, desencontros e mortes.

Talvez, o mais impressionante, seja saber que Domingos Montagner estava escalado para fazer outra novela. Ao conhecer o enredo de “Velho Chico”, ele se ofereceu para participar do elenco. É como se uma força o estivesse chamando...  Talvez, estivesse...
O fato é que o plano da criação é verdadeiramente grandioso e, a compreensão desses aspectos desperta em nós uma reverência profunda ao Autor da vida.

Talvez o que melhor traduza este momento e todo o simbolismo por trás dele, seja a mensagem de despedida feita pelos índios que gravaram as cenas onde Santo, Domingos Montagner, ressuscitava:

"Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo, hoje, se tornou um novo protetor do rio São Francisco, que estava tão esquecido, porque esse rio não pode morrer. A novela contou  mistérios do rio e esse foi mais um desses. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, dá a vida e fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, se despediu do corpo e da alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso, então temos que fazer um ritual para que os brancos entendam que ele está bem, que ele, agora, é um protetor do rio São Francisco".



Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão. Creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que no reino do desconhecido há uma infinita reserva de poder..... Siga em paz, Domingos Montagner...



Shadow/Mariasun Montañés 



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