sábado, 17 de setembro de 2016




DOMINGOS MONTAGNER, O PROTETOR DO RIO SÃO FRANCISCO


Uma lenda indígena conta que antes do rio São Francisco ser formado, várias tribos viviam no chapadão da bacia. Em uma dessas tribos vivia uma índia chamada Irati, apaixonada por um bravo guerreiro de outra tribo. Esse amor foi interrompido quando ele teve que ir para a guerra e não mais voltou, restando apenas um grande sulco aberto na terra pelos passos por onde o jovem guerreiro passou. Dominada pela imensa saudade, Irati chorou incansavelmente a ausência do amado e, desse seu pranto, lágrimas começaram a escorrer pelo chapadão, despencando do alto da serra formando uma cascata; as águas da cascata caíram sobre o sulco por onde o índio passara, nascendo assim Opará, na língua indígena, rio-mar, o rio São Francisco, correndo do sudeste rumo ao norte e para o mar.


Ainda hoje, as águas do rio carregam em sua correnteza lendas e tradições....

Há milênios, a água é o símbolo maior da vida e do sagrado. Ela contorna obstáculos, esculpe as pedras dos rios, mostra-se serena nos lagos, intensa nas cachoeiras, abençoada nas chuvas. Está sempre em movimento...

A água, por si só, tem uma mística própria, ela é para a natureza como o sangue é para o nosso corpo, levando vida, irrigando a terra, fazendo crescer as plantas, saciando a sede. Em várias religiões e tradições a água simboliza o sagrado, o divino.

Nas Escrituras Sagradas, encontramos várias passagens falando da água: Jesus sendo batizado nas águas do Rio Jordão, como símbolo da vida nova e da purificação dos pecados; Moisés com o seu cajado abrindo as águas do Mar Vermelho para seguir com seu povo rumo à Terra Prometida....

Nas religiões afro-brasileiras, encontramos os orixás em perfeita harmonia com as águas e a natureza. Muitos dos seus rituais são realizados em cachoeiras, rios e mares.... Assim como, as comunidades ribeirinhas por onde o velho Chico passa, ricas, quando o assunto é cultura, tradição e lendas, tendo o rio como seu principal protagonista.


Quais são os mistérios das águas do rio São Francisco ao passar pelos capões esparsos entre os morros e as chapadas, pelo verde dos coqueiros e das palmeiras de buriti, e, o ecoar do grito das maritacas, que mexe com o nosso imaginário? Quais os segredos ocultos em suas margens e canions?
A verdade é que a natureza reluz nesse rio-mar em todo o seu esplendor, dominando com majestade o horizonte que lhe pertence. O caudaloso rio São Francisco tem uma beleza que impressiona, impõe respeito e uma espécie de veneração quase sagrada. É preciso ter cuidado para não se deixar hipnotizar, enredar e levar por suas correntes e redemoinhos.
Poucos lugares do mundo são tão identificados com a natureza quanto o velho Chico. Por que velho? Justamente por guardar a ancestralidade que corre em suas águas. Os índios dizem que não se deve entrar em suas margens ou em suas águas sem pedir licença aos pajés. A água do velho Chico é sagrada.

Nesta semana, no leito do rio São Francisco, lágrimas de todo um país se juntaram às de Irati.

Foi com estarrecimento que ficamos sabendo da morte por afogamento em suas águas, do carismático e talentoso ator Domingos Montagner, a duas semanas do último capítulo da novela, onde o velho Chico também é um dos protagonistas. Uma triste ironia!!!

A ficção e a realidade, a realidade e a ficção....
A novela escrita por Benedito Ruy Barbosa feita em homenagem ao rio São Francisco, num cenário que retrata a escassez da água, poluição e a transposição de um dos rios mais importantes do Brasil. Uma história centrada no amor e no ódio, na vida e na morte, tendo como fio condutor a saga do destemido Santo dos Anjos, o personagem de Domingos Montagner, um herói que comovia e transpirava afeto, hoje imortalizado nas águas do São Francisco, rio que com ele contracenou do início ao fim.

Nunca o nome de um personagem coube tão bem em uma história: Santo dos Anjos. Santo nos remete aos ritos sagrados, à divindade, ao sagrado que o rio representa; dos Anjos, anjos são mensageiros espirituais entre Deus e os homens, com os quais Domingos Montagner deve estar confraternizando agora.
Seguindo esse entendimento, é preciso dizer que a novela navegou por águas turvas e perigosas ao lidar com o misterioso mundo dos mortos: o barco dos mortos; o matador que consulta o espírito do pai morto; as famílias em luta em nome dos mortos; a vidente indígena que prevê a morte de alguém e dá uma carranca para proteção; o morto que fica vagando entre os vivos, por não saber que morreu; o espírito de uma criança morta aprisionado por anos em um dos quartos da casa do coronel; a confecção da mortalha à espera da morte; o retrato na parede do pai morto; a matriarca que mergulha no rio para morrer, após pressentir a morte do neto; o corpo inerte sendo levado pelo rio para renascer após a morte, justamente Santo, o personagem de Domingos Montagner, uma das cenas mais impactantes da novela... e... a própria morte do rio, mencionada o tempo todo... tendo como música tema de Santo e Tereza "Mortal Loucura" de Maria Bethânia.

Em seus capítulos, a novela transitou pela religião com matriz africana e indígena. Os atores foram envolvidos nessa trama, sem serem inicializados e protegidos das energias e forças da natureza que envolvem mistérios densos e delicados. A cultura afro-indígena tem os seus mistérios e, muitos deles precisam ser dominados e tratados com o máximo respeito. Como bem sabem os índios: é preciso pedir permissão para entrar nos rios e nas matas... Eles têm seus donos....

Existe energia na natureza. Existe um poder. Existe uma força. Existe vida. A ficção se apropriou das águas do São Francisco, ao ponto de se tornarem um só, sem olhar para os perigos dessa proximidade.
Domingos Montagner foi o segundo ator a morrer durante a gravação da novela. O primeiro foi o não menos talentoso, Umberto Magnani, cujo personagem era um padre, um religioso, conhecedor dos mistérios da vida e da morte.
As vivencias dos índios e dos pescadores do rio São Francisco transcendem a atividade da pesca tocando o imaginário simbólico. A vida pulsa não apenas nos aspectos que envolvem a alimentação, a economia e o transporte da região, mas também a cultura local, com muitas lendas e histórias. Uma das histórias contadas pelos barranqueiros é a do "Vapor Encantado", transportado para a novela “Velho Chico” como a "Gaiola Encantada", o barco dos mortos.

A embarcação teria sido avistada pela primeira vez por dois canoeiros. Eles estariam atravessando o rio quando se depararam com um barco a vapor muito iluminado navegando ao longe. Ao se aproximarem, o barco simplesmente desapareceu diante deles.
Essa lenda segue forte até os dias de hoje. Enquanto uns dizem que uma grande festa acontece na misteriosa embarcação, outros garantem que não há sequer um tripulante no barco. Esses mistérios enriquecem a cultura da bacia do São Francisco e inspiram muitos artistas, músicos e contadores de história da região.

Da mesma forma, as populações ribeirinhas creem haver entidades habitando as florestas e as águas, espíritos ligados à natureza, que às vezes se materializam na superfície das matas e dos rios. Eles se revelam por meio do folclore que se repete de geração a geração, mantendo-se vivos no imaginário popular.

Onde e em que momento o elo desses seres com o rio São Francisco, o “velho Chico”, toca a ficção e a realidade?

O rio São Francisco é o nosso Nilo, também chamado de rio da integração nacional, uma vez que passa por vários Estados até chegar ao mar.

Nas últimas décadas ele vem passando por várias transformações provocadas pela mão do homem. A ação humana e a transposição das águas do rio causou morte e trouxe desequilíbrio ao ecossistema da região, afetando a vida das populações ribeirinhas, dos índios, dos animais.... e... dos espíritos da natureza.

A construção da hidrelétrica de Xingó, instalada no rio São Francisco entre os Estados de Alagoas e Sergipe, no município de Canindé de São Francisco, local onde Domingos Montagner se afogou, provocou sério impacto ambiental, de caráter irreversível.
A usina alterou a paisagem ocasionando grandes desmatamentos e prejuízos à fauna e flora. Áreas de floresta foram inundadas com o consequente desaparecimento do habitat de várias espécies de animais ameaçadas de extinção, como o sapo cururu. A temperatura da água mudou devido à geração de energia à qual muitos peixes não conseguiram se adaptar. Em razão de uma série de explosões durante a construção da hidrelétrica, o curso do rio foi alterado, montanhas foram escavadas, animais desapareceram, cascatas silenciaram, restingas e corredeiras sufocaram, gerando uma área de refluxo, redemoinhos e correntes anormais, na forma de um lamento silencioso e pedido de socorro do São Francisco.

O impacto da hidrelétrica afetou não apenas o meio ambiente, mas, também, as populações ribeirinhas, que tiveram que sair de suas margens.

Como já dito antes: a água do velho Chico é ancestral e sagrada...
A novela “Velho Chico” foi de encontro a isso. A história começa na década de 70, quando a Usina Hidrelétrica de Sobradinho foi construída, desalojando muitas famílias do seu entorno. O coronel Jacinto (Tarcísio Meira), acaba sendo o maior beneficiário dessa obra. Herdeiro da família de Sá Ribeiro, ocupou a região e fundou Grotas do São Francisco, incorporando às suas terras tantas outras quantas pôde alcançar: terras devolutas, indígenas, de quilombolas, usando para tanto seu prestígio político e a amizade com o cartorário da cidade. De todas as terras que desejou, a única que não conseguiu incorporar ao seu vasto latifúndio foi a Fazenda Piatã, uma pequena gleba que divide sua propriedade ao meio, herdada por seu inimigo, capitão Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi). A disputa da terra transcende a outras gerações, transformando a região num palco de guerra, violência e morte.

Tendo o rio São Francisco como pano de fundo, o que se vê no decorrer dos capítulos é uma família de latifundiários lidando com a terra e o rio de maneira tradicional e, outra, buscando formas alternativas de trabalhar a terra e de cuidar da água para encontrar o equilíbrio entre o homem, a natureza e as formas de produção, em meio à briga entre famílias, desencontros e mortes.

Talvez, o mais impressionante, seja saber que Domingos Montagner estava escalado para fazer outra novela. Ao conhecer o enredo de “Velho Chico”, ele se ofereceu para participar do elenco. É como se uma força o estivesse chamando...  Talvez, estivesse...
O fato é que o plano da criação é verdadeiramente grandioso e, a compreensão desses aspectos desperta em nós uma reverência profunda ao Autor da vida.

Talvez o que melhor traduza este momento e todo o simbolismo por trás dele, seja a mensagem de despedida feita pelos índios que gravaram as cenas onde Santo, Domingos Montagner, ressuscitava:

"Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo, hoje, se tornou um novo protetor do rio São Francisco, que estava tão esquecido, porque esse rio não pode morrer. A novela contou  mistérios do rio e esse foi mais um desses. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, dá a vida e fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, se despediu do corpo e da alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso, então temos que fazer um ritual para que os brancos entendam que ele está bem, que ele, agora, é um protetor do rio São Francisco".



Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão. Creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que no reino do desconhecido há uma infinita reserva de poder..... Siga em paz, Domingos Montagner...



Shadow/Mariasun Montañés 



Licença Creative CommonsDOMINGOS MONTAGNER, O PROTETOR DO RIO SÃO FRANCISCO de MARIASUN MONTAÑÉS está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.




quinta-feira, 1 de setembro de 2016



O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF E OS BAOBÁS

“O que mata um jardim não é o abandono. 
O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.”
Mário Quintana)

É setembro. Hoje o Brasil inicia um novo ciclo, assim como a natureza e a primavera que se aproxima.

Talvez a tão esperada floração econômica do país demore a chegar, mas as árvores e as flores dos jardins e canteiros sempre poderão nos servir de inspiração.

O importante é que ontem as ervas daninhas que se instalaram no poder, foram arrancadas pela raiz. Dizem que voltarão a crescer e a se alastrar, porém, se preciso for, voltaremos a arrancá-las até extirpá-las do nosso convívio.

Após as retumbantes manifestações de rua os brasileiros adquiriram uma nova consciência, redescobriram que juntos somos fortes. Sim, o poder emana do povo. Essa é a certeza hoje. Não mais passaremos indiferentes pelo nosso jardim.

O impeachment de Dilma Rousseff só foi possível graças a esse novo olhar. E isso não tem volta. Aqueles que ainda acreditam que por meio de conchavos, barganha, compra de votos, troca de favores poderão governar, estão enganados. A república bananeira chegou ao fim. Aqueles que continuarem a acreditar no Reino da Babânia, não mais irão se eleger ou reeleger sequer para presidente de campeonato de bolinha de gude. O gigante acordou para cuidar do seu jardim!!!

Daqui pra frente, a Democracia não será mais mera figura de retórica, mas, um princípio vivo a ser exercido e defendido, com transparência, ética e moralidade; uma planta a ser regada para crescer e se fortalecer. Sim, o verde é a nossa cor!!! A partir de agora simboliza não apenas as nossas matas, como também, a árvore da nossa ainda jovem Democracia.

Com o PT do Lula essa árvore (ainda frágil) foi morrendo aos poucos. A duras penas e por 13 longos e intermináveis anos, aprendemos que os princípios democráticos de Direito não sobrevivem no solo árido do Foro de São Paulo ou da ditadura das esquerdas, que retira os nutrientes e as riquezas da boa terra.

Em agonia profunda, o povo decidiu se levantar para dar um basta a isso e tentar recuperar não apenas a sua dignidade, mas, o verde democrático de seu país.

Lula sempre disse se orgulhar de ser nordestino de origem humilde colocando-se como um grande o líder e de ser ele o caminho para a “Terra Prometida”. Por algum tempo, muitos acreditaram nessa esparrela. Hoje, esse discurso não convence mais, está ultrapassado, estagnou na história e, ontem, finalmente, foi enterrado por 61 a 20 daqueles que votaram pela cassação de Dilma Rousseff, sepultando assim a era lulista.

Ao contrário de Moisés, Lula sempre foi um embuste, uma farsa, um falso líder. Sua liderança não levou à libertação de um povo, mas, à submissão cega e à dependência funcional. Ele foi o caminho para o desterro e o empobrecimento de sua gente.

A bem da verdade, não há caminhos que levem à “Terra Prometida” porque já estamos nela.  E é essa terra que os brasileiros tentam resgatar e cultivar. Por essa razão, o impeachment de Dilma Rousseff era tão fundamental e necessário.

Por nove meses o Brasil viveu à espera desse dia. Não, a presidente impichada não se condoeu com o sofrimento do seu povo ou com as dificuldades econômicas do seu país. Tentou agarrar-se à terra que ela ajudou a devastar mentindo, plantando a falsa ideia de golpe, semeando a discórdia entre os brasileiros, colhendo farta instabilidade, numa crise moral e de confiança sem precedentes.

Se houve um golpe, esse foi dado por ela própria, ao trair os brasileiros e fazer promessas que nunca pensou em cumprir.

Comparou o seu impeachment com uma árvore que é atacada por fungos. No entanto, árvore frondosa o seu (des)governo nunca foi, quando muito não passou de uma árvore oca por dentro. Fungos talvez, mas esses foram cultivados por ela e pelos seus.

Ao fraudar as contas públicas para “maquiar” os números e causar aos cofres públicos um rombo da monta de meio trilhão de reais, cometeu crime de responsabilidade, contribuindo para o crescimento e desenvolvimento negativo do país, feito uma erva daninha e não feito uma árvore que dá sombra com seus galhos, alimenta com seus frutos e acolhe todos que estão à sua volta.

Ela foi impichada por haver desrespeitado a Lei de Responsabilidade Fiscal. Aliás, desrespeitar e rasgar as leis é o que fazem as ervas daninhas.

Ontem, juntamente com a sua cassação, Dilma Rousseff deveria haver sido inabilitada para ocupar cargos públicos por oito anos.

Mas... contrariando a Constituição Federal, diga-se: a Lei Maior do país, num conchavo alinhavado entre Renan Calheiros (Presidente do Senado), Ricardo Lewandowski (Presidente do Supremo Tribunal Federal) e o PT do Lula, fizeram vista grossa ao texto constitucional, para agraciá-la com a manutenção de seus direitos políticos.

Esse episódio me fez lembrar dos baobás do planeta do “PEQUENO PRÍNCIPE” de Saint-Exupéry.

Com efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas, inclusive como há no nosso, ervas boas e más, que germinam de sementes boas e más. Ocorre que, as sementes são invisíveis. Elas dormitam em segredo na terra até que resolvem lançar-se sobre o solo, revelando a sua essência, como o fez ontem o Ministro da mais Alta Corte de Justiça do país, ao rasgar - diante da perplexidade de todos - o parágrafo único do artigo 52 da Constituição do país.

O episódio serve para nos mostrar que ainda há muito por se fazer....

Se à luz do dia Renan Calheiros afronta o seu partido, trai o Presidente empossado Michel Temer e a base aliada do governo, e, Ricardo Lewandowski, que deveria ser o guardião da Constituição, a rasga e interpreta a lei conforme o seu viés político, é estarrecedor pensar o que eles e outros podem fazer na calada da noite.

Isso nos leva de volta ao planeta infestado de baobás do principezinho. A lição a ser assimilada com ele é que, quando se trata de baobás, é preciso arrancá-los logo que se distinguem das roseiras, para impedir que cresçam e proliferem, caso contrário, dificilmente será possível acabar com eles. Eles atravancam o caminho, perfuram o solo com suas raízes até rachá-lo e matar as flores.

É preciso portanto estar atentos. Talvez esse seja o lado bom, aprendizado que fica, a partir do fatiamento da votação no julgamento de ontem. O impeachment da presidente foi apenas um passo importante, mas ainda há muito por se fazer, inclusive quanto às escolhas que serão feitas na próxima eleição. Aliás, o resultado desta (a eleição), será o indicador do Brasil que queremos para nós e as futuras gerações.

“Antes que qualquer árvore seja plantada, é preciso que ela tenha nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles" (Rubem Alves). 

O Processo de Impeachment nasceu da alma de seus autores. Sim, nós vimos, havia alma e intensidade ali.

Para encerrar o registro deste importante capítulo da História política do Brasil, impossível não agradecer ao belo trabalho realizado por JANAÍNA PASCHOAL (diva do impeachment), MIGUEL REALE JÚNIOR e HÉLIO BICUDO. Ao brilhante procurador  do TCU, JÚLIO MARCELO DE OLIVEIRA. E aos senadores ANA AMÉLIA LEMOS, SIMONE TEBET, RONALDO CAIADO, CÁSSIO CUNHA LIMA e ÁLVARO DIAS, que nos mostraram ainda haver vida inteligente no Senado. Orgulho define!!!




“As árvores e plantas buscam adaptar-se ao ambiente em que vivem, estruturando e planejando muito bem, cada energia aplicada em seu crescimento” 



 Shadow/Mariasun Montañés



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terça-feira, 23 de agosto de 2016





O ENCERRAMENTO E O LEGADO DA RIO-2016



Domingo à noite o Estádio do Maracanã se iluminou para dar adeus às delegações olímpicas que participaram da Rio-2016.

Por 17 dias a cidade maravilhosa pôde se sentir maravilhosa sem estar no noticiário policial por conta de sua violência, caos urbano, precariedade dos serviços públicos, poder paralelo que domina os morros.

Por 17 dias, a cidade maravilha mostrou a sua irreverência, descontração, luminosidade, beleza natural, gingado e alegria contagiante, que um dia inspirou versos e músicas, imortalizando musas e poetas.

Talvez por isso, ninguém quisesse que acabasse.

Sob o olhar vigilante do Cristo Redentor, o Rio de Janeiro mostrou o seu melhor e se iluminou para receber os turistas de braços abertos. O verde-amarelo se espalhou por suas ruas e avenidas, os principais pontos turísticos e monumentos passaram a ser vistos em todo seu esplendor, e, até a água do mar pareceu vestir o seu melhor azul.

De fato, da abertura ao encerramento, foi um evento fantástico que encantou, contrariando os mais céticos e as previsões mais pessimistas. O zika, a dengue, a chikungunya, o impeachment da presidente, a convulsão política e econômica, as obras gigantescas inacabadas, os furtos e roubos e, até a ameaça de um ataque terrorista parecem haver sido esquecidos, ou, ao menos, mitigados.

Por fim, os Jogos Olímpicos conseguiram ser realizados com organização e o funcionamento satisfatório dos serviços de mobilidade urbana colocados a serviço dos turistas e da população.

Num momento em que o mundo está sob a ameaça do terrorismo, o saldo foi altamente positivo. O esquema de segurança montado com a Força de Segurança Nacional sob o comando do competente Ministro da Justiça, Alexandre de Morais, foi eficiente e eficaz. Todas as medidas para garantir a segurança dos atletas, dos estrangeiros e dos cidadãos foram tomadas com eficiência absurda. Tudo foi monitorado do primeiro ao último minuto. Medalha de ouro para esses valentes homens que fizeram a diferença.

A Rio-2016 entra para a história como o maior evento esportivo realizado em solo brasileiro e na América do Sul. Em parte o impeachment beneficiou os Jogos Olímpicos. Sem poder ser utilizada como palanque político, a Olimpíada se transformou num evento exclusivo do esporte e do povo.

Se há uma coisa que pode ser dita dos Jogos Olímpicos da Rio-2016 é que estes estiveram voltados para a diversão das pessoas, sem bandeiras ou siglas partidárias, como um evento esportivo dessa magnitude requer.

A torcida brasileira deu um show de espontaneidade, entusiasmo e alegria. Causou polêmica pelos excessos e vaias, muitas vezes exageradas e dispensáveis. Mas, por outro lado, brindou a todos com tiradas impagáveis, como quando diante da luta de boxe sem preferidos, o destaque passou a ser o árbitro brasileiro, Jones do Rosário; cada vez que este interrompia o duelo, a torcida comemorava:Ahhh, Rosário é melhor que Neymar”, “1,2,3,4,5 mil, quem manda é o Rosário do Brasil”, ou, quando, durante a luta do boxeador equatoriano Carlos Mina, a torcida começou a cantar em uníssono a música dos Mamonas Assassinas: “Mina, seu cabelo é da hora...”... Ahahaha... tem coisas que não tem preço e são contagiantes.

Os atletas de todos os países deram um colorido especial à festa, emocionando a todos na busca do sonho olímpico. Muitos foram os testemunhos de superação, grandeza, esportividade, respeito e solidariedade. Exemplo que, espera-se, tenha influenciado futuras gerações de potenciais medalhistas olímpicos.

Subir ao pódio e receber uma medalha é lindo, e, verdadeiramente emocionante quando isso acontece com a bandeira e o hino do seu país ao fundo. Aí, se vai ao delírio. 

A todos os campeões o nosso reconhecimento e gratidão pelo espetáculo proporcionado.

O sentimento hoje transcende à admiração.

Há quem diga que depois dessa Olimpíada o brasileiro resgatou o orgulho de ser brasileiro e deixou de lado o seu complexo vira-lata. Não! Isso é um equívoco!

Os brasileiros sempre tiveram orgulho do seu país e das suas cores. A Rio-2016 é a prova disso, assim como a união das pessoas nas manifestações de rua e grandes eventos.

Uma coisa é o coração do povo, e, outra, são os políticos explorando a pobreza e a submissão por meio de bolsas miséria, criando dependentes funcionais desprovidos de dignidade e amor-próprio, como se o país e os brasileiros pudessem ser reduzidos a isso.

Hoje, na ressaca da Olimpíada, fala-se no legado que os Jogos Olímpicos deixaram em solo brasileiro.

A cidade do Rio fez um investimento absurdo para criar a vila dos atletas e quatro centros olímpicos, os quais contaram ainda com o alto custo em infraestrutura de mobilidade, incluindo o metrô, vias expressas e a revitalização do centro e da zona portuária. A conta foi paga pelo Brasil inteiro e a ela foram acrescentados mais cifrões do que o esperado, num momento em que o país sofre com uma brutal recessão, desemprego, inflação e desconfiança das empreiteiras com suas obras superfaturadas.

Espera-se, ao menos, que diante de um investimento tão ousado, a Cidade Maravilhosa não meça esforços para despoluir a sua baía da Guanabara, respeitando a mensagem de sustentabilidade que defendeu perante o mundo durante a abertura dos Jogos e, que o resultado disso possa ser celebrado pelas gerações futuras.

Afinal um legado transcende a prédios, estádios ou grandes obras, muitas vezes, ele está na nobreza dos pequenos gestos: na solidariedade da atleta que desiste da prova para ajudar a outra que caiu e ficou para trás, ou, na selfie de atletas sul e norte coreanas, numa demonstração inequívoca de que a paz e o entendimento é possível.

Uma Olimpíada tem esse poder. Ela não se alinha com aqueles que se negam a cumprimentar o adversário por sua religião ou etnia, com aqueles que menosprezam o seu oponente, ou, alimentam o preconceito e o ódio, inventam mentiras levianas, ou, fazem uso de substâncias ilícitas para melhorar o seu desempenho.

E... se houve um legado que simbolizou esse poder, este mais uma vez nos foi dado pelos alemães; eles que na Copa do Mundo, já haviam deixado a sua marca na pequena vila de Santo André em Cabrália, na Bahia, com a construção do campo de treinamento e da pousada onde se concentraram e treinaram.

Desta vez, os alemães nos deixaram a vida!!! 

Em meio à dor da perda, a família de Stefan Henze, técnico da equipe alemã de canoagem slalom e ex medalhista olímpico, que teve morte cerebral após um acidente de carro na Barra da Tijuca, autorizou o transplante de seus órgãos; estes foram distribuídos para vários hospitais do Rio de Janeiro. Hoje o coração desse espetacular atleta, bate forte no peito de um brasileiro.

Esse é o pulsar da vida em uma Olimpíada!!!

Vida como a do militar da Força de Segurança Nacional, Helder Andrade, que se foi ao ser baleado por traficantes no Rio, ao entrar por engano no Complexo da Maré.  Ao entrar por engano?!? Não, tem algo errado aí! Como é que alguém pode ser impedido de circular em seu próprio país?

É preciso por um fim ao tráfico, ao crime e ao poder paralelo neste país. 

Chega de fantasiar sobre a cultura da favela que a mídia televisiva glamouriza e difunde como sendo algo positivo e cultural, o que tem lá é pobreza. Chega das autoridades fecharem os olhos à criminalidade e ao tráfico de drogas e armas que prolifera aos olhos de todos nas favelas do Rio, o que existe lá é a violência e o crime, que não respeita sequer os soldados da Força de Segurança Nacional. Chega de chamar de "comunidade", o que favela é.

Que pena!!! Que pena a morte estúpida desse soldado que estava a serviço do nosso país. Ele que trouxe de Roraima para o Rio o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa e de assegurar a realização da Olimpíada em seu país. Que pena!!!

Espera-se que a perda de sua vida não tenha sido em vão, que ele seja um símbolo no combate à criminalidade na cidade maravilha, cidade que tanto encantou a todos por 17 dias.

Se há um desafio que foi vencido nesta Olimpíada, foi o de mostrar que este é um país gigantesco, que é capaz de criar o belo e de ser melhor do que é hoje.




Que venha Tóquio-2020




Shadow/Mariasun Montañés



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