sábado, 22 de abril de 2017



A INCONFIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM ÉPOCA DE DELAÇÕES




Estamos vivendo um abril despedaçado. Não apenas aqui, no Brasil, mas no mundo. Tudo está conturbado ao redor. Armas químicas na Síria, sangue nas ruas da Venezuela... a podridão do poder revelada nas delações de Emílio e Marcelo Odebrecht. E que delações!!!

Este mês nos trouxe a Páscoa para relembrar do Cristo crucificado e a crença na Ressurreição; neste final de semana, o feriado de Tiradentes e morte, enforcado por seus ideais de liberdade e independência e, logo teremos o dia em homenagem ao trabalhador, endividado e desempregado.

Talvez, seja um período de reflexão e de chamamento para que não nos esqueçamos da História. Afinal, o senso comum diz que "para se entender o presente, é preciso que se conheça o passado".

Por ora, as mentes mais curiosas poderão perguntar: Como a Inconfidência Mineira se aproxima dos dias atuais? E é a partir do que indagamos, que alguns paralelos começam a ser traçados, até perceber que, assim como Tiradentes, sempre fomos massa de manobra de um poder que nos assalta, vilipendia e visa apenas seus próprios interesses. Para afinal concluir que entre o período colonial e o republicano, entre as Minas Gerais do século XVIII e a Brasília de hoje, dois pontos nos unem: a corrupção e as denúncias contra ela.

Quem eram os inconfidentes afinal? Eles representavam uma elite local insatisfeita, alguns tinham como principal atividade o contrabando de ouro e de pedras preciosas; uma elite que estava perdendo o poder e os ganhos econômicos ao ser substituída dos postos de autoridade e de mando por pessoas da confiança do rei de Portugal. Diga-se: a corrupção grassava no período colonial, na Corte de Dom João VI.

A história contada nos livros de que a Inconfidência teve início a partir da cobrança de impostos abusivos e anseios de liberdade, é uma meia verdade. A derrama, a cobrança do “quinto do ouro” pela Coroa Portuguesa, tributo devido sobre as riquezas extraídas, foi apenas o estopim para dar início ao movimento, que visava garantir os privilégios políticos e econômicos de uma elite da capitania de Minas Gerais. E Tiradentes, o alferes e dentista, Joaquim José da Silva Xavier, foi o mártir ideal para representar os ideais de Independência, de uma época de efervescência intelectual e política.

No entanto, apesar das ideias Iluministas de Tiradentes que o inspiraram a liderar a Inconfidência Mineira, o pano de fundo da insurreição eram os interesses de um grupo privilegiado (contratadores de impostos, clérigos, militares, contrabandistas...), ressentido por amargar perdas econômicas em suas atividades altamente lucrativas, como a corrupção e o contrabando de riquezas. É minha gente, naquela época (1792) postos políticos já eram usados em benefício próprio.

Se vivo fosse, Tiradentes, um idealista do seu tempo, se levantaria contra a derrama de dinheiro público dos nossos dias. Dizia ele que “Minas era rica e ficava pobre por causa do arrocho tributário, do monopólio comercial e dos roubos dos governadores e seus protegidos”. Hoje ele bradaria nas redes sociais: “O Brasil é rico e está ficando pobre por causa.. dos roubos dos governadores e seus protegidos”. Ele seria a voz do povo...  que foi calado, enforcado. E é exatamente esse o sentimento dos brasileiros que hoje lutam pelo fim da corrupção, mas se vêem diante da forca cada vez que os políticos (muitos deles sob suspeição), à revelia, se propõem a votar em caráter de urgência Reformas, Lei de Abuso da Autoridade, Lei da Migração... "Libertas que sera tamen" "Liberdade ainda que tardia"... 

Se uma analogia pudesse ser feita com o momento atual, não é difícil identificar que a Corte Portuguesa e os grupos privilegiados daquela época atuavam como os políticos de agora, em especial, como o Partido dos Trabalhadores (PT), que no exercício do poder foi responsável pelo loteamento das instituições, distribuição de cargos, privilégios, barganhas e benesses. Porém nem o Brasil Colônia se compara ao maior esquema de corrupção e de lavagem de dinheiro jamais visto na História do Brasil e do mundo, em pouco mais de uma década de Lulismo.

Isso é o que de forma contundente tem sido elucidado a cada delação nas investigações em curso. E quando se fala em delação, voltamos a nos lembrar de Tiradentes... e Joaquim Silvério dos Reis, o delator mais célebre da História até aqui. Sim, ele fez uma espécie de “delação premiada”, ao entregar os planos dos inconfidentes, que ele conhecia minuciosamente, bem como, o paradeiro do alferes Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), para em retribuição ter perdoadas suas dívidas pela Coroa Portuguesa. Interessante é perceber que o Joaquim Silvério do Reis de hoje pode vir a ser Antonio Palocci, Ministro da Fazenda do (des)governo Lula, caso este venha a revelar tudo o que sabe sobre o dinheiro que foi pilhado dos cofres públicos e a sua destinação, selando em definitivo o destino do chefe da quadrilha criminosa, Lula. Se o fizer, entrará para a História como o delator dos delatores. 

Ao longo do tempo o sentimento das pessoas em relação aos delatores e delatados mudou. Joaquim Silvério dos Reis, sempre foi odiado e visto como um traidor, que levou à forca Tiradentes. Hoje, as delações estão mais vivas do que nunca. Ao tempo que causam asco e indignação pelo seu conteúdo, elas levantam expectativas e esperança de ver os culpados indiciados, processados, sumariamente julgados e presos. Antes de prosseguir cabe fazer uma distinção histórica: Tiradentes era um idealista que serviu a uma causa, Lula é um ladrão que roubou em causa própria.

Impressiona ver que, tanto no século XVIII quando no XXI, o interesse continue a ser o ganho ilícito, a apropriação da coisa pública para fins privados, por meio de uma elite hoje formada por políticos, agentes públicos, empresários e artistas que vivem como páreas à custa do Estado.. Este deve ser um país muito rico para ainda continuar produzindo riquezas....

É estarrecedor reconhecer que por mais de uma década o verdadeiro caudilho deste país com amplos poderes, gerais e irrestritos, para traçar os rumos do Brasil, aprovar e vetar leis, inclusive traçar investimentos no âmbito internacional, e sem haver sido eleito pelo voto popular, atendia pelo nome de Emílio Odebrecht. A ele, Luís Inácio Lula da Silva e depois, Dilma Rousseff, delegaram a Presidência da República e privatizaram o país ao empresário, para em troca auferirem com seus apadrinhados altíssimos lucros$$$$..... à custa dos interesses do povo e do país.

A dura constatação de tudo isso é que a Constituição, nossa Lei Maior, não rege a todos da mesma forma. Até o maior Poder da República tem licença para ser privatizado em detrimento do patrimônio público. A lei não é igual para todos. Em qualquer país democrático onde há o respeito à lei, Emílio e Marcelo Odebrecht cumpririam pena de prisão perpétua sem direito a condicional e ainda teriam que pedir perdão aos brasileiros, ao invés de se portarem nas respectivas delações como homens que apenas gerenciavam negócios. Não, eles não gerenciavam negócios; eles gerenciavam a corrupção, a pilhagem da coisa pública e a ruína de um país. É muito diferente! O resultado disso são Instituições corrompidas. O exemplo é a queda de braço entre os Poderes, Ministros das Cortes Superiores e os Juízes de Primeira Instância; Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal; Partidos Políticos e Empresários.

Quando as Instituições perdem o rumo, o país segue à deriva e o povo para o sacrifício. De alguma forma, somos todos Tiradentes neste momento, clamando pelo saneamento do Estado e o fim da corrupção na política.

A esperança dos órfãos do sonho Brasil se projeta para 2018, esse será o ano da nossa verdadeira Páscoa, com a ressurreição do voto popular para o extermínio dos políticos corruptos, que a Justiça não quer ou não é capaz de alcançar.




Órfãos do sonho Brasil
Busquem os restos nas sobras da vida
Nas cinzas da esperança...


Shadow/Mariasun Montañés



Licença Creative CommonsA INCONFIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM ÉPOCA DE DELAÇÕES de MARIASUN MONTAÑÉS está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.



domingo, 9 de abril de 2017




PESSOAS TÓXICAS: A DIFÍCIL ARTE DE CONVIVER



Você conhece ou já conheceu uma pessoa tóxica? Se conheceu, certamente nunca mais a esqueceu e ela deixou marcas profundas em você...

Vitória caminha pelo Parque Trianon com seu cachorro. Somente ele a faz sair de casa. Está esgotada. Falta-lhe energia para cuidar da casa, arrumar-se, sair com os amigos, responder a emails, alimentar-se e, até mesmo ir ao supermercado lhe é difícil. Fred, o amigo peludo, apenas ele a faz levantar da cama após longas noites mal dormidas, porque precisa ser cuidado e alimentado. Aquele "serumaninho" de quatro patas não sabe o bem que está fazendo à sua dona, ou, talvez, saiba. Nunca se deve subestimar a sensibilidade de um cão.

Quem conheceu a bela e vistosa Vitória não consegue entender como alguém pode mudar tanto em tão pouco tempo. É como se o peso da sua tristeza e dor tivesse se acumulado e soterrado toda a sua graça, brilho, entusiasmo, garra e força de vontade.

Até pouco tempo atrás, Vitória era uma pessoa encantadora, carismática, apaixonante, de sorriso largo e feliz. Tinha luz própria. Nas redes sociais suas mensagens sempre falavam de amor, esperança e otimismo.

Aliás, foi por meio das redes sociais que ela reencontrou uma amiga que não via há uns dez anos, a Emanuelle, ou, simplesmente Manu.

Numa tarde de domingo, fazendo uma pesquisa no Facebook, Manu encontrou o perfil da Vitória, a amiga estudiosa com quem havia frequentado (no seu caso, "enfrentado") o ensino médio, aquela que lhe passava cola nas provas e fazia os trabalhos nos quais colocava também o seu nome; a quem pedia blusas e acessórios emprestados para sair, não porque não tivesse, mas porque para Manu o que a Vitória vestia e usava era sempre mais bonito e vistoso; a mesma que era querida pelos amigos e foi escolhida para ser a oradora da turma (Manu ainda lembra da raiva que sentiu por não ser ela a oradora); a colega com quem ela dizia para a mãe que iria estudar, quando ia para a casa do namorado. “- Olha a Vitória aí! Não mudou nada!”.

Não tardou para estarem trocando mensagens e pouco tempo depois se encontrando.

Manu quis saber que rumo tomara a vida da amiga. Vitória lhe contou que recentemente havia perdido a mãe devido a um derrame, o que ainda doía muito; e que após a formatura, fez Publicidade na FAAP, conseguiu um estágio na área, tendo sido efetivada pela agência ao concluir o curso e promovida recentemente a coordenadora do setor de criação. Ali havia conhecido o Marcelo, também publicitário e sócio da agência, de quem por ora estava separada, mas em vias de reatar o noivado.

Manu, por sua vez, disse não haver levado adiante os estudos, por ter sido obrigada a trabalhar para ajudar a família, ahãmmm..., quem a conhece sabe que ela sempre foi paparicada, teve tudo o quis e que na verdade ela nunca foi chegada aos estudos ou ao trabalho. No mais, queixou-se de não ter sorte na vida, nem no trabalho nem no amor. Disse que quando consegue um emprego acaba sendo explorada, trabalhando mais que os outros, ou, sendo assediada pelo chefe. Há controvérsias!!! O que se sabe, é que ela tem o péssimo hábito de se autointitular “chefe” dos outros e de estar sempre empurrando o trabalho para os demais, enquanto fica na internet e em suas redes sociais; além de não perder a oportunidade de seduzir as chefias, com uma fala mansa e roupas inapropriadas para o local de trabalho. Enfim...

Não tardou para Manu conhecer os amigos de trabalho da Vitória e o próprio Marcelo. Maluquinha, simpática, envolvente, sedutora, engraçada, vivaz, logo se enturmou com aquela gente tão bacana. Happy hours, viagens, churrascos, confraternizações. Até um emprego de recepcionista Vitória conseguiu para Manu na agência por meio do Marcelo.

Vitória confiava na amiga com quem passou os anos do ensino médio. Ela lhe trazia boas lembranças de uma época onde os sonhos eram maiores que a realidade. No entanto, confiar nas pessoas erradas quase sempre tem o seu preço. Vitória acreditou que tinha ao lado uma amiga, mas na verdade tinha uma pessoa invejosa, fria e calculista. Quando percebeu isso, já era tarde. Vitória havia se esquecido daquela Manu que quando jovem mentia para a mãe, contestava a autoridade dos professores, praticava bullying contra as meninas que eram inseguras, diferentes ou tinham alguma deficiência, se sentia superior às colegas, trapaceava nas provas e nos jogos, pedia emprestadas roupas que não devolvia, tinha prazer em flertar com o namorado das amigas, era intratável, detestável e intragável. 

Como nos tempos de colégio, em pouco tempo Manu havia minado a boa convivência que Vitória conquistara na agência. Começaram os desentendimentos com os amigos, as críticas ao seu trabalho, desavenças e intrigas quase sempre fomentadas pela Manu. A ficha só caiu, quando soube que Marcelo e Manu estavam juntos, a amiga fura-olho o havia seduzido, frustrando qualquer tentativa de reaproximação e de retomada do noivado. Decepcionada e muito chateada, sentindo não haver mais ambiente para continuar ali, Vitória saiu da agência. Despediu-se do emprego que a realizava, do amor a quem se entregara, dos amigos que a faziam sorrir, da amiga em quem confiou, e naquele dia, Vitória se despediu também de si mesma. Aos poucos e sem perceber, foi se tornando triste, solitária e deprimida.

Pessoas tóxicas são como a Manu. Entram na nossa vida, roubam o nosso tempo, destroem a nossa confiança, agridem a nossa autoestima, estilhaçam a nossa fé. E saem ilesas, como se nada tivesse acontecido.

Não, as pessoas tóxicas não têm o rótulo do índice de toxicidade estampado na face, no olhar ou nos gestos. Nem mesmo têm uma característica padrão. Num primeiro momento, elas são como qualquer um de nós, talvez um pouco mais legais, mais interessantes, mais falantes, mais autoconfiantes, mais expressivas, mais dramáticas, mais eloquentes, mais simpáticas, do que o normal. É como se vibrassem sempre num tom acima. Isso, até se conhecer o que guardam no íntimo.

Dizem que aqueles que passam por nós, deixam um pouco de si, e levam um pouco de nós. Quando se trata de pessoas tóxicas, elas nada deixam de si, e levam tudo de nós.

Como reconhecer uma pessoa tóxica?!?

Uma pessoa tóxica é aquela que tentará manipular teus pensamentos e sentimentos para que você ouça apenas o que ela diz, porque quer te dominar. Grudará em você e tudo fará para te afastar dos teus amigos, porque é egoísta. Sentará ao teu lado para destruir a tua autoconfiança e autoestima, porque quer te controlar. Fingirá ser tua amiga, mas será a primeira a te criticar, diminuir e menosprezar, porque te quer vulnerável. Sorrirá para você, enquanto torce para o teu insucesso, porque com o teu fracasso ela se sentirá superior. Debruçará sobre o teu ombro, sussurrando que você não será capaz para te fazer desistir, porque o teu brilho a incomoda. Enxergará o pior naqueles que te amam, porque ela projeta nos outros aquilo que é. Verá você tropeçar e cair, e seguirá em frente sem olhar pra trás, porque ela não sabe o que seja estender a mão a alguém.

Portanto, o melhor a se fazer é manter distância dessas pessoas. Cortar relações: bloquear no Facebook, deletar seus e-mails, excluir da lista de contatos. Achar que por meio do amor e da amizade será possível mudá-las ou transformá-las é ilusão. Ninguém muda ninguém, a não ser que a pessoa queira mudar. E, via de regra, elas não querem mudar, porque se satisfazem e se dão bem sugando os outros, ser sanguessugas é o seu estilo de vida. É preciso saber filtrar e dizer "não" quando necessário, para não adoecer.

Nada acrescenta estar ao lado de alguém que te procura por interesse ou quando precisa de algo, como se você fosse uma fonte inesgotável de coisas e emoções. Nada acrescenta estar próximo de quem não te incentiva, não te aplaude, não te valoriza, como se você não fosse importante. Nada acrescenta estar com alguém que corta a tua energia e entusiasmo, como se a tua alegria e iniciativa fossem descartáveis. Nada acrescenta quem te cobra estar disponível quando lhe convêm e não aceita "nãos", como se você tivesse que ser subserviente às suas vontades e caprichos.

A vida é efêmera demais para perdermos tempo com quem só nos tira, rouba a nossa energia vital e nada acrescenta; com quem violenta aquilo que somos e não respeita nossos sentimentos e emoções. Permitir que o lixo tóxico emocional se acumule ou permaneça ao nosso redor só nos traz desequilíbrio, cansaço e apatia. A vida tem que ser vivida ao lado de quem vale a pena.

Ah... E se querem saber... Manu não está mais com o Marcelo, ele deixou de ser interessante a partir do momento que o conquistou e o afastou da amiga. Também não está mais na agência de publicidade, andou destratando os clientes, o que é inaceitável para uma recepcionista.

Quanto a Vitória, num desses passeios com o Fred, conheceu o Paulo, pai do Dudu e dono da Kika. Encontros casuais que estão se tornando cada dia mais esperados e frequentes. Já combinaram de almoçar juntos no Domingo de Páscoa. Decidiu dar uma chance a si mesma.

Essa é pra quem ainda duvida que o cão seja o melhor amigo do homem....





Acrescentei a minha caixinha de primeiros socorros

os meus amigos leais. (Edna Frigato)




Shadow/Mariasun Montañés 



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sábado, 18 de março de 2017



CARNE FRACA


Enquanto os homens exercem Seus podres poderes
Morrer e matar de fome De raiva e de sede
São tantas vezes Gestos naturais...

Casa cheia de amigos, aquela bagunça gostosa, risadas e boas histórias contadas enquanto o carvão em brasa aquece a grelha. Poucos momentos são tão acolhedores como esses.
O churrasco entre amigos não é uma simples refeição. É mais do que isso! A gente não come e vai embora. É um ritual, muitas vezes passado de pai pra filho. Nele, durante algumas horas, enquanto o cheiro de carne na brasa se espalha pelo ar, sem pressa, os amigos vão se servindo de pedacinhos de carne, de linguiça, de frango, e bebemoram, ao aniversário de alguém, ao time do coração, ao encontro daquele dia... tudo é motivo para "churrascar", e quando não há, a gente inventa, só pra se divertir e se deliciar, seja no campo, na praia ou na varanda do  apartamento.
O churrasco deste sábado já estava programado. O motivo era não apenas o jogo do São Paulo de logo mais, como também, os três anos (em 17/03) da maior operação anticorrupção deste país e do mundo: a Lava Jato, resgatando a credibilidade e a dignidade perdidas. Sim, amigo que é amigo, apoia e comemora a Lava Jato e também esteve junto nas Manifestações pró-impeachment.
Ontem, no entanto, a Polícia Federal não parou para comemorar a data ou quiçá tenha preferido comemorá-la da melhor maneira que sabe fazer: Deflagrou mais uma Operação, a “Carne Fraca”, e desta vez entrou com tudo na despensa da nossa casa, tostando o churrasco de sábado.
Ôxe semaninha do balacobaco esta que passou!!! 
Começou com a Lista do Janot, com 83 pedidos de inquérito contendo 107 nomes com foro privilegiado (prerrogativa de senadores, deputados e Ministros de Estado), além de na tal blacklist estarem arrolados também treze Governadores e três Ex-Presidentes, diga-se, uma lista difícil de digerir até com Engov, aiaiaiai.... Antevendo o que está por vir, nosso eficiente Congresso começou a se esmerar para criar uma lei de anistia ao Caixa2 que na verdade nada mais é do que uma anistia à corrupção e, não satisfeitos, nossos criativos parlamentares, em busca de sobrevida na política, passaram a defender eleições em lista fechada, prevendo que muitos deles serão defenestrados pelos eleitores nas urnas em 2018. Olha que lindo! E.... como se esses acontecimentos fossem poucos para nos revirar literalmente o estômago, nos deparamos com a Operação “Carne Fraca”!!!
Confesso que à medida que fui me inteirando da Megaoperação da Polícia Federal me senti fazendo parte de um filme de terror. De fato, às vezes a realidade chega a superar a ficção.
Foi com assombro e estupefação que ficamos sabendo de mais um repugnante esquema de corrupção, desta vez, envolvendo as duas maiores empresas do ramo de alimentos que operam no setor de processamento de carne bovina, suína, ovina e frango: a BRF e a JBS, com reflexos e nítido descaso pela saúde da população.
A BRF surgiu da fusão Sadia e Perdigão.
A JBS, dona da marca Friboi, cujo sócio oculto seria o Lulinha, filho do Lula, diga-se, o que nunca conseguiu ser provado. No entanto, sendo os da Silva sócios ou não, o fato é que o grupo sempre fez generosas doações às campanhas do PT e, em contrapartida, beneficiou-se e usufruiu de prestimosas linhas de financiamento do BNDES. A JBS é controladora também das marcas Maturatta, Swift, Big Frango e Seara. Uma gigante que surgiu no reinado petista e cresceu com a ajuda do Estado brasileiro, a exemplo de outras conhecidas nossas, como a Odebrecht, Oi, OGX e outros Xs (leia-se Eike Batista), hoje com seus principais executivos sob investigação e/ou presos. Falsos reinos terminam assim. Pena que eles nos arrastem junto para o cadafalso....
Quando pensamos haver visto tudo de mais escabroso que poderíamos ver, ficamos em choque ao saber que essas empresas (BRF e JBS) pagavam vultuosas propinas a Fiscais do setor Agropecuário do Ministério da Agricultura para afrouxar a fiscalização, liberar licenças e certificados permitindo a comercialização de produtos vencidos e fora dos padrões de qualidade, em detrimento da saúde do consumidor. É muito asqueroso isso!!!
Se a Lava Jato já foi o bastante para nos revoltar e indignar, a “Carne Fraca” veio para nos enojar. Os treze anos de PT no poder aparelharam e corromperam até os órgãos de Fiscalização e Vigilância Sanitária. Herança maldita mesmo!!!
As investigações e as provas são sólidas. A apuração demorou dois anos. E a divulgação que foi feita ontem, embora possa parecer precipitada para alguns, era necessária. A população, o consumidor, tinha que ser alertado, independente da repercussão negativa que possa haver ou tenha havido no mercado internacional e até na Bolsa de Valores. Neste caso, a saúde pública deve vir sempre em primeiro lugar. Além do mais, é sabido que o mercado internacional não deve se alarmar ou ficar aflito. A carne que foi exportada era de boa e excelente qualidade; a carne podre, estragada e os restos das vísceras é que ficaram aqui para serem comercializados. 
As investigações em torno das irregularidades começaram com a denúncia encaminhada à Polícia Federal por um servidor do Ministério da Agricultura, que não compactuou em participar do esquema de corrupção e por isso mesmo foi afastado do setor. Ele delatou que a carne da merenda das escolas estaduais do Paraná, estava adulterada. Ao invés de carne de peru, as crianças estavam comendo produtos vencidos, estragados e com componentes cancerígenos.
A partir disso e ao longo de dois anos, a investigação se ampliou e das escolas estaduais do Paraná, chegou às gôndolas dos supermercados de norte a sul, de leste a oeste. E veio a constatação estarrecedora: nas prateleiras e açougues do país havia carnes adulteradas com prazos de validade vencidos e maquiadas com produtos proibidos por lei; carnes podres, vencidas e estragadas estavam sendo tratadas com ácido ascórbico (altamente cancerígeno) para ocultar o gosto e o mau cheiro, linguiças sendo recheadas com cabeças de porco, produtos vencidos sendo re-embalados, com a conivência de Fiscais do Ministério da Agricultura, regiamente recompensados. É de pasmar!!!

Ao mesmo tempo, é desolador saber que apesar de pagarmos caro pelo que consumimos e de termos o cuidado de olhar o prazo de validade nas embalagens, estamos sendo enganados e envenenados aos poucos pela ganância de alguns.... são a carne podre, os agrotóxicos, os transgênicos, o peru com salmonela, o leite com soda cáustica, o embutido empapelado, o pelo de rato no extrato de tomate... São as doenças entrando pela boca. É o descaso. É a não valorização da vida....
Conforme apurou a Receita Federal, que também atua na investigação, os Fiscais que nada fiscalizavam, montaram redes de fast food (imagine os hambúrgueres!) e compraram imóveis em nome de terceiros, para esconder o aumento patrimonial.
Enquanto os homens exercem seus podres poderes....         
Podres poderes.... Como diz o dito popular: quando a "carne é fraca", o homem certamente será corrompido. 

Morrer e matar de fome de raiva e de sede, são tantas vezes gestos naturais... A fraqueza ética e moral de quem por força de ofício deveria fiscalizar e não o fez tantas e tantas vezes como gestos naturais... Carne fraca a do homem diante da cobiça... Não à toa é um dos sete pecados capitais.
Já sabemos o que vai acontecer daqui pra frente, não é mesmo?
Notinha das empresas e de advogados pagos a preço de ouro dizendo que "as companhias sempre adotaram rigorosos controles de qualidade quanto à produção e comercialização de seus produtos, que nunca compactuaram com práticas ilícitas e blábláblá...". Recursos de toda ordem em todas as instâncias judiciais, até que daqui a trocentos anos alguém seja condenado e punido.
É sabido que a punição rápida e imediata é o que coíbe o ilícito, inclusive por seu caráter profilático como medida para coibir e desestimular que outros recorram a práticas iguais ou semelhantes. Mas, o nosso sistema é falho nesse sentido. As inúmeras instâncias e recursos judiciais acabam retardando em demasia as condenações e a aplicação das penas.
Enquanto isso.... o churrasco deste sábado já era. Foi adiado por prazo indeterminado.... Assistimos ao jogo comendo pipoca. Estamos pensando até em comprar uma pipoqueira nova. 

Milho parece ser o mais saudável e palatável por ora...


Enquanto os homens exercem Seus podres poderes....



Shadow/Mariasun Montañés


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