quarta-feira, 25 de julho de 2018





A MULHER AO CENTRO DA VIDA



Chegou ao meio da vida e sentou-se para tomar um pouco de ar. Não sabia explicar. Não era cansaço, nem estava perdida. Notou-se inteira pela primeira vez em todos esses anos. Parou ali, entre os dois lados da estrada e ficou observando as margens da sua história, a estrada da vida ficando fininha, calando-se de tão longe que ia.

Estava em paz observando a graciosa menina que foi, cheia de vida. Estava olhando para si mesma e nem notou. Ali, naquele instante, estava recebendo um presente.

Desembrulhava silenciosamente a sabedoria que tanto pediu para ter.

Quando a mulher chega à metade da estrada da vida, começa lentamente a ralentar o passo. Já notou como tem gente que adora conturbar a própria rotina, alimentar o próprio caos? Ela não. Não mais.

Deixa que passem, deixa que corram, a vida é curta demais para acelerar qualquer coisa. Ela quer sentir tudo com as pontas dos dedos, ela quer notar o que não viu da primeira vez. Senhora do seu próprio tempo.

Percebeu, à metade da vida, que caminhou com elegância, que viveu com verdade, que guiou a própria sombra na estrada em direção ao amor. E como amou! Amou por si, pelos outros, amou em dobro, amou sozinha, amou amar. A mulher ao centro da vida traz a leveza que os anos teceram, pacientemente. Escuta bem mais, coloca a doçura à frente das palavras, guarda as pessoas com preciosismo. Aquela mulher já perdeu pessoas demais.

Ao meio da estrada, ela já não dorme tanto, mas sonha bem mais. Sonha pelo simples exercício de sonhar. Sonha porque notou que é o sonho que tempera a vida. 

Aprendeu a parar de ficar encarando as linhas do corpo. Seu espírito teso, seu riso aberto, sua fé gigante não têm rugas, nem celulite, sem encanação. Descobriu que o segredo é prestar atenção no melhor das coisas, nas qualidades das pessoas, nas belas costas que tem e deixá-las ao alcance da vista dos outros.

Sentada ali, ao centro da própria vida, decidiu seguir um pouco mais. Há mais estrada para caminhar, mais certezas para perder, mais paixão para trilhar. Não há dádiva maior do que compreender-se, que encontrar conforto para morar em si mesmo, que perdoar-se de dentro pra fora. Ao centro da vida ela descobriu que a gente não se acaba, a gente vai mesmo é se cabendo, a cada ano um pouco mais.

(Diego Engenho Novo)





A vida tem sons, que pra gente ouvir precisa aprender a começar de novo.                                                                                   É como tocar o mesmo violão e nele compor uma nova música...


 Shadow/Mariasun Montañés


quarta-feira, 18 de julho de 2018




O LEGADO DA COPA 2018 AO BRASIL - PARTE II




Apesar do ufanismo dos comentaristas de uma rede de televisão, a grande maioria dos brasileiros manteve-se distante do último Mundial de futebol. Nada de bandeiras verde-amarelas estendidas nas janelas, tremulando nos carros ou ruas enfeitadas e coloridas à espera do evento, como em outrora.

O desinteresse era visível. O país do carnaval e da bola parece haver mudado. Não é mais o mesmo. O foguetório e o buzinaço pela prisão de Luís Inácio Lula da Silva revelou muito mais euforia, que a tímida comemoração pelo primeiro gol do Neymar na Copa. Talvez porque neste momento este seja o país da Lava Jato e o seu autêntico craque, o Juiz Sergio Moro, vista terno.

Os brasileiros estão desiludidos, e não é de hoje. Eles estão/estamos cansados da roubalheira descarada e das promessas não cumpridas, como aquelas feitas há quatro anos para justificar os altos investimentos na realização de uma Copa do Mundo, num país agonizante. Isso acaba com qualquer paixão!!!

Em 2007, Lula ao lado de Orlando Silva, seu Secretário de Esportes, afirmava que não haveria um centavo de dinheiro do Governo Federal nas Arenas e que o legado urbanístico e de infraestrutura seria uma realidade, geraria empregos, traria melhorias importantes às cidades-sede e riquezas para o país. Tolo aquele que acreditou!!!

O que se viu foi o despejo de generosas porções de dinheiro público em Estádios, em obras até hoje inacabadas e em outras que sequer chegaram a sair do papel.

Nessa mesma época, Ronaldo Nazário, vulgo Fenômeno, ex-camisa 9 da Seleção, quando questionado se o povo não preferiria hospitais e segurança ao invés de Estádios, respondeu: "Acho que se gasta com tudo. Está sendo gasto muito dinheiro em saúde, em segurança, mas vamos receber a Copa. Sem Estádio não se faz Copa, amigo. Não se faz Copa do Mundo com hospital. Tem que fazer Estádio".

Pois é... passados quatro anos... dos doze superfaturados Estádios aos quais o Ronaldo se refere, construídos pelas "empreiteiras amigas" do Lula, quatro hoje estão às moscas e abandonados: Arena Amazônia, em Manaus; Arena das Dunas, em Natal; Arena Pantanal, em Cuiabá; Mané Garrincha, em Brasília... Elefantes brancos erguidos a preço de ouro em detrimento de hospitais e escolas.

É a realidade nua e crua dando a sua resposta.

Não é preciso ser um especialista ou participar de mesas redondas sobre o assunto para saber porque a quatro Mundiais o Brasil tem colecionado sucessivas derrotas em campo. As razões pouco diferem das que resultam no fiasco e agruras políticas e econômicas do país. Trata-se do oportunismo. Malandragem. Corrupção. Vale-tudo.

Ronaldo, por exemplo, continua traçando os rumos da seleção no gramado. Em 2018 voltou a campo substituindo a 9ine pela Octogon Brazil, agência de marketing esportivo, que cuida da gestão de imagem, negociação com patrocinadores e contratos dos principais atletas do país e de jogadores como Neymar e Gabriel Jesus.

O futebol brasileiro está no purgatório por conta dessas empresas de marketing como a Octognon, cartolagem, patrocinadores e uma emissora de TV. São eles que determinam aqueles que devem ser indicados e escalados para a Seleção, do técnico, jogadores à Comissão Técnica, até as mães de quais atletas irão participar de um programa de TV nas tardes de sábado, no período que antecede a Copa.

Para demonstrar o acerto da escalação, tentam convencer aos torcedores de que o jogador que patrocinam e tropeça nas pernas em campo, é melhor que aquele que está no banco; ou, tentam explicar as derrotas com um “jogamos melhor, mas a sorte não estava do nosso lado”. É a descaracterização do futebol, onde imagem, patrocínio e publicidade, contam mais que treino, foco, técnica e competência.

Vangloriam-se do pentacampeonato e não conseguem ver que as cinco estrelas foram conquistadas em outra época e por outros jogadores como Pelé, Zico, Romário, Kaká, quando o talento, habilidade e o espírito de equipe - que hoje se vê nas Seleções de outros países - eram critérios para vestir a camisa canarinho.

Os valores e a meritocracia estão em xeque. É o que anda faltando na Seleção brasileira de futebol. É o que anda faltando no país. Aliás, o esforço é grande para sufocá-los.

No período que compreendeu o Mundial foi possível ver, sentir e indignar-se com o mau uso do espetáculo para a execução de ações nada ortodoxas pelo pessoal lá de Brasília. Apostou-se no torpor diante do evento para ludibriar aos brasileiros. Esse foi o amargo legado da Copa.

Ao tempo em que Neymar se apequenava, rompendo as regras do fair play, da boa ética e lealdade aos adversários, abusando em campo do vale-tudo e do “jeitinho” para cavar faltas e pênaltis, o time dos homens de preto fazia o mesmo, mostrando estar disposto a driblar todo um país, enquanto as pessoas, “distraídas”, acompanhavam os jogos da Seleção brasileira.

Sem brincar em serviço, a Segunda Turma da Suprema Corte do país concedeu Habeas Corpus e determinou a soltura do criminoso José Dirceu, condenado em duas Instâncias e partícipe dos dois maiores escândalos de corrupção do país: o Mensalão e o Petrolão.

Na esteira do banditismo e da “terra sem leis”, apostando no poder anestésico do futebol, o desembargador do Tribunal Regional Federal-4, Rogério Favreto, durante o seu plantão, numa articulação odienta com três deputados petistas, concedeu Habeas Corpus e a liberdade imediata ao maior ladrão do mundo contemporâneo, o Lula, transformando um domingo de descanso numa guerra de liminares.

O intento só não foi alcançado porque, ao contrário do entorpecimento esperado, as pessoas e a imprensa estavam atentas e com os olhos voltados para o Brasil, não para a Rússia. As redes sociais ferveram mostrando toda a indignação da população diante da torpe tentativa em premiar a impunidade e golpear a Justiça.

A situação escabrosa colocou em xeque o Poder Judiciário do país, desmoralizou os integrantes do TRF-4 e atacou a brilhante decisão dos três Desembargadores desse mesmo Tribunal, que condenou o réu Luís Inácio da Silva em Segunda Instância.

Pouco se importando com isso e embalado pela diversão em libertar bandidos, com a Seleção brasileira já eliminada nas quartas de final, o Ministro do Supremo Tribunal, Marco Aurélio de Melo, também resolveu deixar o seu legado para que nunca mais nos esqueçamos desta Copa. Concedeu Habeas Corpus e a liberdade ao presidiário Leomar Oliveira Barbosa, bandido de alta periculosidade conhecido internacionalmente, ex-braço direito do traficante Fernandinho Beira-Mar, condenado em Segundo Grau de Jurisdição e que responde a outros Processos-Crime. Tudo porque ao igual que Neymar, Marco Aurélio quer impor suas próprias regras à Suprema Corte, tratando a soltura de criminosos como se fosse um jogo de futebol, driblando o que o Plenário já decidiu e mandando a prisão por condenação em Segunda Instância pra escanteio.

Não adianta dizer que fez ressalvas ou que os agentes penitenciários são os responsáveis por mais esse absurdo jurídico. O erro começou com a decisão de Marco Aurélio e toda responsabilidade pela soltura desse criminoso, cabe a ele.

O problema quando se trata dos homens de preto, é que em campo o árbitro de uma partida pode punir o Neymar com cartão amarelo, vermelho e até a expulsão por suas faltas e chicanas, no entanto, em razão da estabilidade e inamovibilidade que a lei concede aos togados, infelizmente, isso não é possível. Hoje, o maior adversário do país e dos brasileiros é o Supremo Tribunal Federal.

Aliás, estamos sendo derrotados diariamente pelos três Poderes da República.

O Poder Executivo não existe mais. Michel Temer encontra-se enfraquecido, engessado e desacreditado em meio a escândalos e chantagens políticas. Sequer conseguiu levar adiante as Reformas e Ajustes Fiscais que eram necessários para fazer o país avançar e sair da crise, e que seriam o maior legado de seu mandato tampão para o futuro.

A Câmara dos Deputados e o Senado Federal, o Poder Legislativo, fazem a gente torcer pra entrarem logo em recesso, pois, as duas Casas votando matérias, são um risco maior para o Brasil que a Alemanha no histórico 7x1.

Graças à última votação do Congresso Nacional, o próximo Presidente – seja ele quem for – receberá um país falido.

Pensando em se reelegerem e não no país ou nos brasileiros, em sessão conjunta, Câmara e Senado, antes das férias julinas, de forma irresponsável, resolveram chutar a bola pra longe ao votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2019, abrindo o cofre, reduzindo o corte das despesas e criando gastos que o Governo não terá como pagar.

Sem a menor previsão ou esquema tático, preocupados apenas em jogar pra galera, constituída de funcionários públicos e outros setores relevantes para suas campanhas eleitorais, esvaziaram ainda mais a bola e aprofundaram o buraco das contas públicas para o ano que vem, algo ao redor de R$ 72 bilhões. Não se importaram com a saúde fiscal do país, com o desemprego, com a sobrevivência da indústria e da Economia, com os pesados déficits que pressionam cada vez mais a dívida interna... Apesar de saberem que a conta vai chegar... Ela sempre chega...

O pentacampeonato não garante o hexa. Mas o voto correto nas urnas garante as mudanças. Cabe a cada um decidir qual o legado que quer para este combalido país, no tempo da prorrogação que ainda lhe resta.





Não é a política que faz o candidato virar ladrão.
É o seu voto que faz o ladrão virar político.


Shadow/Mariasun Montañés



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segunda-feira, 16 de julho de 2018




O LEGADO DA COPA 2018 AO MUNDO – PARTE I



DOBRO POZHALOVAT, MIR! (BEM-VINDO, MUNDO!)

Quatro anos após o Brasil haver sediado o maior evento esportivo do Planeta, coube à Rússia fazer as honras como anfitriã.

País dos czares, os russos impressionaram a todos com sua esmerada organização, estrutura dos Estádios, beleza de seus subterrâneos, cultura histórica, grandiosidade de seus palácios e alegria, rompendo barreiras e esteriótipos perante o Mundo.

Sochi, São Petesburgo, passando por Kazan ao majestoso Estádio de Lujniki em Moscou, onde foi realizada a grande final, foram cidades de tirar o fôlego, tendo como marco central a Praça Vermelha.

Ontem, as cores: vermelha branca e azul, da Croácia e França, entraram em campo para fazer o espetáculo e alcançar a consagração.

Vinte anos após a primeira conquista, le bleu, blanc, rouge, chegou ao bicampeonato. 

A campanha da França, consistente durante todo o torneio, foi brindada com a vitória em solo russo, façanha jamais alcançada pelas tropas de Napoleão.

O craque da competição, no entanto, foi Luka Modric, da Seleção croata. O melhor jogador da Copa, o camisa 10, vencedor não apenas dentro do campo, mas fora dele também. Um sobrevivente da guerra separatista Iugoslávia x Croácia. Na infância, viu parentes, como o avô, serem fuzilados, tendo fugido com sua família da terra natal. Aos seis anos de idade, começou a treinar futebol em um modesto hotel para refugiados e nunca mais parou. Com seu esforço, inteligência e garra, conquistou - por mérito - a Bola de Ouro.

A França pode ter ganhado a Copa do Mundo, mas... a Croácia ganhou o coração de muitos e a sua Presidente, Kolinda Grabar Kitarovic, ganhou a admiração do Mundo.

Ela assistiu a todos os jogos da seleção de seu país, não na Tribuna de Honra reservada às autoridades,
mas da arquibancada ao lado da torcida, do “seu povo”, onde muito vibrou. E se destacou dentre os demais líderes engravatados ao vestir de forma despojada o uniforme da seleção de seu país: calça branca e camisa xadrez, vermelha e branca.


Na entrega de medalhas, apesar da forte chuva que caía durante a cerimônia, encharcada e com um sorriso aberto ali permaneceu para saudar e abraçar aos atletas, croatas e franceses. Não é por acaso tenha sido considerada, merecidamente, a personalidade da final da Copa do Mundo da Rússia.

Cumpre destacar ainda que para participar do evento, licenciou-se do cargo para não receber salário por esse período; pagou do próprio bolso a passagem em vôo de carreira, o hotel, ingressos e demais despesas. É de causar admiração e inveja aos brasileiros!!!

Dilma Roussef, a incompetente que sofreu o impeachment por crimes de responsabilidade, continua cercada de mordomias e regalias, sendo recordista em viagens para, juntamente com seus asseclas, hospedar-se em hotéis luxuosos, frequentar restaurantes requintados, desonrar e falar mal do Brasil mundo afora, tudo pago com dinheiro público, dinheiro do povo.

Apesar da bela campanha dos croatas e da carismática Kolinda, a imprensa esquerdopata, não deixou de tentar desmerecer aquele país, surgido em 1991, após sangrentas batalhas. Sim, eles lutaram contra o socialismo opressor e desigual, que retira os direitos fundamentais e a liberdade de expressão e de pensamento do povo, subjuga as pessoas e sacrifica a sociedade. Sim, a Croácia desaprova a islamização da Europa e luta para manter vivas as suas raízes cristãs, seus valores e sua História.

A França, ao contrário, abriu demais e sem controle as suas fronteiras. O resultado?!? Ontem o que era para ser uma comemoração festiva pelo título da Seleção francesa, transformou-se numa guerra campal que descambou para o quebra-quebra, motins e saques nas ruas de Paris. Isso é consequência de um país cujo povo está perdendo a sua identidade, valores e nacionalidade. A França hoje é refém de sua política de esquerda “progressista.

Enquanto isso, a Croácia conservadora, vice-campeã, lotava as ruas e comemorava a conquista inédita  em Zagreb, sua capital, com festa, alegria, música, palmas, vuvuzelas e... ordem.

Tudo bem, e a gente com isso?!?

A gente com isso fica imaginando quem estaria na Tribuna de Honra representando o Brasil caso a Seleção brasileira tivesse chegado à final?!?

Nunca houve por aqui um líder e estadista como Kolinda, porque nossos representantes, desde as eleições diretas, nunca pensaram de fato no país ou no povo, mas nos conchavos políticos e benesses do cargo. Os últimos Presidentes da República, em suas raras aparições públicas, são hostilizados e vaiados, como Dilma Roussef sonoramente o foi na abertura da Copa de 2014.

E a maior entidade futebolística do país: a Confederação Brasileira de Futebol, CBF?!? Poderia ocupar a Tribuna de Honra representando o maior esporte nacional?!?

Vejamos: a Entidade hoje tem um ex-presidente preso nos Estados Unidos, José Maria Marin, por fraude financeira, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e corrupção; Ricardo Teixeira, ex-presidente por 23 anos, está sendo investigado por crimes de corrupção; Marco Polo del Nero, também ex-presidente da entidade, foi banido do futebol e para não ser preso, não pode deixar o país; Antonio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, vice-presidente, na recente votação para a escolha do país sede da Copa de 2026, rompeu o pacto da CBF com os dez membros da Confederação Sul-Americana de Futebol e ao invés de votar na candidatura conjunta Canadá, Estados Unidos e México, sabe-se lá porquê caminhos tortuosos e insondáveis, acabou votando no Marrocos.

Melhor que a Tribuna de Honra tenha ficado vazia e o Brasil tenha sido desclassificado nas quartas de final, antes que o vexame perante o Mundo fosse maior.




E o legado da Copa 2018 para o Brasil?!? Após a pausa para o cafezinho, falaremos desse legado na PARTE II e em continuação a esta postagem.


Shadow/Mariasun Montañés



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quarta-feira, 11 de julho de 2018



OS MENINOS DA CAVERNA DA TAILÂNDIA E OS PEQUENOS MILAGRES DA VIDA



“- Todos foram resgatados!”

Ontem, 10 de julho, o dia amanheceu com a notícia que o Mundo vinha aguardando na última semana. Os doze meninos do time de futebol da Tailândia, com idade entre 11 e 16 anos, mais o seu técnico, presos em uma caverna, se encontravam a salvo e recebiam os primeiros cuidados médicos.

Inevitável não sentir alivio e agradecer a Deus pelos milagres que fomos testemunhando em uma caverna escura, úmida, estreita, inundada e distante, envolvendo pessoas que não conhecemos e com as quais nos irmanamos.

Tudo começou numa aparente e corriqueira aventura de meninos.

Ah... o inquietante  espírito aventureiro dos jovens com sua ânsia por viver novas experiências!!!

No dia 23 de junho, após o treino de futebol, os doze meninos mais o seu técnico decidiram que o aniversário de um deles, o Night, seria comemorado de um jeito diferente: fazendo uma incursão nas galerias e labirintos da caverna de Tham Luang.

Animados, colocaram algumas guloseimas na mochila, pegaram suas bicicletas e pedalaram até o local onde acabariam vivendo a situação mais extrema de suas jovens vidas e que iria impactar o Mundo.

Feito bravos desbravadores, caminharam rumo ao desconhecido, alheios ao perigo que aquilo poderia representar.

Enquanto seguiam pelos túneis da gruta guiados apenas pela tênue luz de suas lanternas, nuvens espessas se formaram sobre a montanha e uma chuva torrencial começou a cair, alagando suas encostas e tudo ao redor. Não tardou para que rapidamente as águas invadissem a caverna, bloqueando a saída.

Encurralados e sem ter uma rota de fuga, os doze meninos mais o seu treinador, encontraram um pequeno platô, minuciosamente esculpido pela natureza para que ali pudessem se abrigar até que a água baixasse... ou o resgate chegasse... Pode-se dizer que foi o primeiro milagre dessa história.

Passaram-se um dia, dois, três... oito, nove... Nesse período, já eram notícia nos principais jornais do mundo e muitos começavam a orar por eles.

Prontamente, especialistas em caverna e mergulhadores estrangeiros se juntaram aos oficiais tailandeses para, numa corrida contra o tempo e as forças da natureza, encontrar e resgatar o pequeno grupo.

Era o nono dia, 02 de julho, quando dois mergulhadores ingleses ao emergir para mapear a vasta rede subterrânea, avistaram os meninos sobre uma rocha. Todos estavam vivos, apesar de famintos, mas resignados, à espera do resgate. Este foi o segundo milagre, que rapidamente se espalhou:

“- Nós achamos todos os treze e salvos”. Essa frase percorreu o Mundo e um sentimento de comoção invadiu a muitos.“-Deus seja louvado!”, disseram outros, em agradecimento pelo encontro tão esperado.

A comunicação com os mergulhadores se deu por meio de um menino de 13 anos de idade, Adul-Sam, único no grupo a falar inglês.

Aquele menino magro, de olhos grandes iluminados pelas lanternas dos mergulhadores, sereno em meio ao caos, chamou não apenas a atenção da equipe de resgate, mas, daqueles que viram o vídeo do momento do encontro.

Não tardou para apurar-se que aquele adolescente vivaz, o porta-voz do seu grupo, era um apátrida. Ele nasceu em Wa, Mianmar, região marcada por conflitos étnicos e religiosos. Aos sete anos, seus pais o levaram para Mae Sai a fim de que pudesse receber uma boa educação. Desde então vive sob os cuidados e proteção de uma Igreja Cristã.

Não apenas o jovem Adul-Sam encontrou refúgio na Tailândia, outros três meninos do grupo e o jovem técnico também. 

Hoje vivem ali, no exílio, mais de 400 mil apátridas. Eles não possuem certidão de nascimento, carteira de identidade ou passaporte. Sem pátria, destituídos dos direitos fundamentais da pessoa humana e desprovidos da cidadania, não podem casar legalmente, conseguir um emprego formal, adquirir bens, votar ou até mesmo abrir uma conta bancária. Estão fadados a viver à margem da sociedade.

A Tailândia se comprometeu a legalizar a situação dos apátridas, como Adul-Sam e seus amigos, até o ano de 2024... mas... enquanto isso não acontece, essa gente permanece invisível aos olhos de todos. 

Quem sabe não há outro milagre aqui... e, por meio e em razão desse menino, o Mundo começa a olhar com mais atenção para a condição dos apátridas e o drama vivido em Mianmar devido aos conflitos sangrentos entre o grupo étnico do Estado de Wa e o exército birmanês, que levou milhares de pessoas ao exílio forçado por conta do genocídio, violência extrema, fruto da intolerância religiosa e cultural que assola o país.

“- Vocês são fortes... Muito fortes”... disse um dos mergulhadores britânicos aos meninos. É como se lhes dissesse: “- Falta pouco. Aguentem firme!”.

Por vezes, palavras de incentivo, encorajamento e esperança, é apenas o que precisamos para não desistir.

Aliás, não há quem não tenha se perguntado como aqueles meninos tão jovens resistiram por nove dias, isolados na escuridão, debilitados, sem comida, com pouco espaço e oxigênio no interior da caverna, assombrados pelo silêncio lúgubre das paredes frias e úmidas da rocha e a incerteza de poder voltar pra casa...

Certamente, a mesma força que guiou os dois mergulhadores britânicos até eles, os amparou quando mais precisaram...

A Tailândia é um dos destinos turísticos mais procurados não apenas em razão de suas praias paradisíacas, mas por reunir pessoas em busca da iluminação, meditação e paz interior. As belezas naturais, cultura e espiritualidade de seu povo, fazem com que seja um dos países mais interessantes para as mentes ansiosas das grandes metrópoles e centros urbanos.

Hoje o país é a maior nação budista do Mundo. Nove em cada dez tailandeses são budistas. Sua rica arquitetura e templos milenares são um convite à introspecção e reflexão.

E é aqui que o membro mais velho do grupo, mas nem tanto, tem apenas 25 anos, Ekapol, o treinador do time, ganha destaque e importância.

Ekapol, ou apenas "Ake", ficou órfão aos 10 anos de idade e em determinado momento decidiu que seria monge budista.  No entanto, após doze anos no monastério, quando sua avó adoeceu, abandonou o treinamento espiritual e optou por cuidar dela, tendo começado a trabalhar como assistente no time de futebol, conhecido como “Moo Pa” (Javalis Selvagens).

E eis aqui, outro milagre. Os meninos perdidos na caverna tiveram ao seu lado não apenas um treinador, um amigo, mas... um ex-monge, que conforme foi relatado pela equipe de resgate, ensinou meditação aos jovens, bem como, técnicas de conservação da energia vital para que não perdessem a fé, a confiança, a crença no salvamento e... pudessem sair de lá em segurança. "Ake" alimentou o espírito dos meninos e assim os fortaleceu, enquanto aguardavam.

E eles saíram!!! Para tanto, uma mega operação foi montada.

A princípio pensou-se em drenar a água das galerias para que o grupo pudesse fazer o caminho a pé.  No entanto, apesar dos equipamentos de drenagem, logo se viu que o volume da água poderia baixar, mas não o suficiente, haja vista que, as chuvas continuavam a cair na região.

Considerou-se também a possibilidade de perfurar a rocha por cima até chegar ao grupo, o que se mostrou inviável pela dificuldade e tempo que isso despenderia.

A alternativa que se mostrou mais viável foi a de retirá-los mergulhando na água. Mas como fazer isso, sendo que alguns deles sequer sabiam nadar?!?

Dia após dia foi possível acompanhar os preparativos para a operação de resgate, os esforços e o empenho de vários especialistas, de diferentes nacionalidades, Inglaterra, China, Estados Unidos, Israel, Austrália, Japão, Canadá, para a difícil evacuação, que iria começar no dia 08 de julho, antes que as chuvas previstas para a região se avolumassem.

Através de passagens estreitas, cheias de câmaras e ramificações com galerias repletas de água, um a um os valentes meninos e mergulhadores teriam que percorrer quatro quilômetros de um caminho tortuoso, orientados por cordas, luzes dos capacetes, mergulhando durante seis horas.

O impacto veio quando um dos mergulhadores, o tailandês, Saman Kunan, voluntário na ação e membro da elite da Marinha, um dos primeiros a entrar na caverna, ficou sem oxigênio quando voltava após deixar mantimentos e oxigênio para o grupo. Não há quem não tenha ficado com um nó na garganta e o coração apertado. Foi então que pudemos dimensionar os riscos envolvidos nesse resgate e o heroísmo daqueles que participavam dele. Na Tailândia há uma crença budista segundo a qual aquele que morre ajudando o próximo se eleva espiritualmente. Ele certamente se elevou!!!

Sua perda não foi em vão. Foi um alerta e aprendizado para o planejamento e controle minucioso dos riscos envolvidos.

Em razão da fragilidade física em que os meninos se encontravam e diante do risco de pânico durante a difícil travessia, devido ao tempo de mergulho, à falta de visibilidade em meio às águas turvas e passagens estreitas, decidiram então resgatá-los em macas. Algo extremamente cansativo e fatigante para os mergulhadores. Razão pela qual foram retirados em três dias, divididos em grupos de quatro. Noventa mergulhadores, sendo 40 tailandeses e 50 estrangeiros, participaram dessa extraordinária e bem sucedida operação, que envolveu um total de mil pessoas entre oficiais da marinha, socorristas, médicos e voluntários. As imagens do resgate são incríveis e emocionantes!!!

Há mais um detalhe impressionante nessa narrativa: Logo após a passagem do último grupo, a energia elétrica e as bombas de drenagem pararam de funcionar, obrigando os últimos mergulhadores a evacuarem rapidamente o lugar. Sem o bombeando, o nível da água subiu de forma veloz, inundando todas as galerias, o que teria tornado impossível o resgate. Mais um milagre...

Essa é uma história inacreditável, que foi sendo contada em capítulos e supera a ficção!!!

Em plena Copa do Mundo, um time juvenil da Tailândia – os “Javalis Selvagens” – conseguiu a proeza de ser mais comentado que as grandes e estreladas Seleções de Futebol do Mundo. Bangkok, a famosa capital tailandesa, deu lugar à pequena cidade de Mae Sai, da Província de Chiang Rai.

O que fica desse episódio para todos nós?!? Fica uma importante lição de resiliência.

Aqueles meninos apesar de tão jovens mostraram ao Mundo, que por pior que sejam as adversidades, há em nós uma força vital que luta pela vida e a sobrevivência, a qual chega junto com uma inacreditável capacidade de superação e adaptação diante do inesperado.

Não é por acaso que os meninos e as equipes de resgate passaram a receber mensagens de apoio de todos os rincões do Planeta, dos principais líderes mundiais a pessoas anônimas. Diante do que, quando se pensa em Mianmar e outros conflitos espalhados pelo mundo, a Paz encontra posição de destaque e nos revela que ela só depende de nós. 

A união de forças e as orações para que os meninos fossem resgatados com vida, remete a um sentimento que nos aproxima e emerge diante das tragédias e situações limite. É o espírito fraternal de solidariedade que nos irmana e desconhece cor, origem, religião, cultura ou classe social. Quando isso acontece, nos tornamos mais humanos, mais fortes e mais preparados para vencer o ambiente inóspito de qualquer caverna, esteja ela na natureza ou incrustadas em nós.

Sim, não apenas a fé, mas, a solidariedade, é capaz de mover montanhas ou... de nos tirar de suas profundezas...

Cada parte da história dos “meninos da caverna” é um relato de pequenos milagres.

E... se prestarmos atenção, nosso dia-a-dia também é feito de pequenos milagres, por vezes invisíveis, imperceptíveis, mas que ali estão desde sempre: na mensagem inesperada do amigo, na música que toca no rádio, no artigo da revista folheada ao acaso, no sorriso singelo de um filho e até no suave balançar das folhas ao toque do vento... que alegram, transformam e, por vezes, resgatam.

Pequenos detalhes e sinais que tem a ver com o sagrado que nos cerca e estão em estreita conexão com tudo e todos.

Só há duas maneiras de viver a vida: 
A primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. 
A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre. (Albert Einstein)




Busque sempre o seu milagre....

Shadow/Mariasun Montañés



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