terça-feira, 23 de agosto de 2016





O ENCERRAMENTO E O LEGADO DA RIO-2016



Domingo à noite o Estádio do Maracanã se iluminou para dar adeus às delegações olímpicas que participaram da Rio-2016.

Por 17 dias a cidade maravilhosa pôde se sentir maravilhosa sem estar no noticiário policial por conta de sua violência, caos urbano, precariedade dos serviços públicos, poder paralelo que domina os morros.

Por 17 dias, a cidade maravilha mostrou a sua irreverência, descontração, luminosidade, beleza natural, gingado e alegria contagiante, que um dia inspirou versos e músicas, imortalizando musas e poetas.

Talvez por isso, ninguém quisesse que acabasse.

Sob o olhar vigilante do Cristo Redentor, o Rio de Janeiro mostrou o seu melhor e se iluminou para receber os turistas de braços abertos. O verde-amarelo se espalhou por suas ruas e avenidas, os principais pontos turísticos e monumentos passaram a ser vistos em todo seu esplendor, e, até a água do mar pareceu vestir o seu melhor azul.

De fato, da abertura ao encerramento, foi um evento fantástico que encantou, contrariando os mais céticos e as previsões mais pessimistas. O zika, a dengue, a chikungunya, o impeachment da presidente, a convulsão política e econômica, as obras gigantescas inacabadas, os furtos e roubos e, até a ameaça de um ataque terrorista parecem haver sido esquecidos, ou, ao menos, mitigados.

Por fim, os Jogos Olímpicos conseguiram ser realizados com organização e o funcionamento satisfatório dos serviços de mobilidade urbana colocados a serviço dos turistas e da população.

Num momento em que o mundo está sob a ameaça do terrorismo, o saldo foi altamente positivo. O esquema de segurança montado com a Força de Segurança Nacional sob o comando do competente Ministro da Justiça, Alexandre de Morais, foi eficiente e eficaz. Todas as medidas para garantir a segurança dos atletas, dos estrangeiros e dos cidadãos foram tomadas com eficiência absurda. Tudo foi monitorado do primeiro ao último minuto. Medalha de ouro para esses valentes homens que fizeram a diferença.

A Rio-2016 entra para a história como o maior evento esportivo realizado em solo brasileiro e na América do Sul. Em parte o impeachment beneficiou os Jogos Olímpicos. Sem poder ser utilizada como palanque político, a Olimpíada se transformou num evento voltado para o esporte e o povo.

Se há uma coisa que pode ser dita dos Jogos Olímpicos da Rio-2016 é que estes estiveram voltados para a diversão das pessoas, sem bandeiras ou siglas partidárias, como um evento esportivo dessa magnitude requer.

A torcida brasileira deu um show de espontaneidade, entusiasmo e alegria. Causou polêmica pelos excessos e vaias, muitas vezes exageradas e dispensáveis. Mas, por outro lado, brindou a todos com tiradas impagáveis, como quando diante da luta de boxe sem preferidos, o destaque passou a ser o árbitro brasileiro, Jones do Rosário; cada vez que este interrompia o duelo, a torcida comemorava:Ahhh, Rosário é melhor que Neymar”, “1,2,3,4,5 mil, quem manda é o Rosário do Brasil”, ou, quando, durante a luta do boxeador equatoriano Carlos Mina, a torcida começou a cantar em uníssono a música dos Mamonas Assassinas: “Mina, seu cabelo é da hora...”... Ahahaha... tem coisas que não tem preço e são contagiantes.

Os atletas de todos os países deram um colorido especial à festa, emocionando a todos na busca do sonho olímpico. Muitos foram os testemunhos de superação, grandeza, esportividade, respeito e solidariedade. Exemplo que, espera-se, tenha influenciado futuras gerações de potenciais medalhistas olímpicos.

Subir ao pódio e receber uma medalha é lindo, e, verdadeiramente emocionante quando isso acontece com a bandeira e o hino do seu país ao fundo. Aí, se vai ao delírio. 

A todos os campeões o nosso reconhecimento e gratidão pelo espetáculo proporcionado.

O sentimento hoje transcende à admiração.

Há quem diga que depois dessa Olimpíada o brasileiro resgatou o orgulho de ser brasileiro e deixou de lado o seu complexo vira-lata. Não! Isso é um equívoco!

Os brasileiros sempre tiveram orgulho do seu país e das suas cores. A Rio-2016 é a prova disso, assim como a união das pessoas nas manifestações de rua e grandes eventos.

Uma coisa é o coração do povo, e, outra, são os políticos explorando a pobreza e a submissão por meio de bolsas miséria, criando dependentes funcionais desprovidos de dignidade e amor-próprio, como se o país e os brasileiros pudessem ser reduzidos a isso.

Hoje, na ressaca da Olimpíada, fala-se no legado que os Jogos Olímpicos deixaram em solo brasileiro.

A cidade do Rio fez um investimento absurdo para criar a vila dos atletas e quatro centros olímpicos, os quais contaram ainda com o alto custo em infraestrutura de mobilidade, incluindo o metrô, vias expressas e a revitalização do centro e da zona portuária. A conta foi paga pelo Brasil inteiro e a ela foram acrescentados mais cifrões do que o esperado, num momento em que o país sofre com uma brutal recessão, desemprego, inflação e desconfiança das empreiteiras com suas obras superfaturadas.

Espera-se, ao menos, que diante de um investimento tão ousado, a Cidade Maravilhosa não meça esforços para despoluir a sua baía da Guanabara, respeitando a mensagem de sustentabilidade que defendeu perante o mundo durante a abertura dos Jogos e, que o resultado disso possa ser celebrado pelas gerações futuras.

Afinal um legado transcende a prédios, estádios ou grandes obras, muitas vezes, ele está na nobreza dos pequenos gestos: na solidariedade da atleta que desiste da prova para ajudar a outra que caiu e ficou para trás, ou, na selfie de atletas sul e norte coreanas, numa demonstração inequívoca de que a paz e o entendimento é possível.

Uma Olimpíada tem esse poder. Ela não se alinha com aqueles que se negam a cumprimentar o adversário por sua religião ou etnia, com aqueles que menosprezam o seu oponente, ou, alimentam o preconceito e o ódio, inventam mentiras levianas, ou, fazem uso de substâncias ilícitas para melhorar o seu desempenho.

E... se houve um legado que simbolizou esse poder, este mais uma vez nos foi dado pelos alemães; eles que na Copa do Mundo, já haviam deixado a sua marca na pequena vila de Santo André em Cabrália, na Bahia, com a construção do campo de treinamento e da pousada onde se concentraram e treinaram.

Desta vez, os alemães nos deixaram a vida!!! 

Em meio à dor da perda, a família de Stefan Henze, técnico da equipe alemã de canoagem slalom e ex medalhista olímpico, que teve morte cerebral após um acidente de carro na Barra da Tijuca, autorizou o transplante de seus órgãos; estes foram distribuídos para vários hospitais do Rio de Janeiro. Hoje o coração desse espetacular atleta, bate forte no peito de um brasileiro.

Esse é o pulsar da vida em uma Olimpíada!!!

Vida como a do militar da Força de Segurança Nacional, Helder Andrade, que se foi ao ser baleado por traficantes no Rio, ao entrar por engano no Complexo da Maré.  Ao entrar por engano?!? Não, tem algo errado aí! Como é que alguém pode ser impedido de circular em seu próprio país?

É preciso por um fim ao tráfico, ao crime e ao poder paralelo neste país. 

Chega de fantasiar sobre a cultura da favela que a mídia televisiva glamouriza e difunde como sendo algo positivo e cultural, o que tem lá é pobreza. Chega das autoridades fecharem os olhos à criminalidade e ao tráfico de drogas e armas que prolifera aos olhos de todos nas favelas do Rio, o que existe lá é a violência e o crime, que não respeita sequer os soldados da Força de Segurança Nacional. Chega de chamar de "comunidade", o que favela é.

Que pena!!! Que pena a morte estúpida desse soldado que estava a serviço do nosso país. Ele que trouxe de Roraima para o Rio o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa e de assegurar a realização da Olimpíada em seu país. Que pena!!!

Espera-se que a perda de sua vida não tenha sido em vão, que ele seja um símbolo no combate à criminalidade na cidade maravilha, cidade que tanto encantou a todos por 17 dias.

Se há um desafio que foi vencido nesta Olimpíada, foi o de mostrar que este é um país gigantesco, que é capaz de criar o belo e de ser melhor do que é hoje.




Que venha Tóquio-2020




Shadow/Mariasun Montañés



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segunda-feira, 15 de agosto de 2016


O QUE UM ATLETA NECESSITA PARA ALCANÇAR A MEDALHA DE OURO OLÍMPICA? - PARTE II



Durante uma competição como as Olimpíadas muitas são as histórias contadas, as emoções vividas do choro à alegria incontida numa catarse coletiva que envolve e aproxima, com tal intensidade e profusão de imagens que chega a ser difícil escolher o melhor momento ou a melhor partida ou o gesto mais emocionante.

O evento olímpico é mais que uma disputa para laurear os melhores atletas, premiar os vencedores, coroar os maiores e mais extraordinários talentos. Ele vai além. Traz o espírito olímpico com ele, expondo o que podemos fazer de melhor, quando desejamos ser o melhor. E nesse sentido, a Olimpíada Rio-2016 já escreveu algumas histórias inesquecíveis, mesmo o resultado não tendo sido o pódio ou a conquista da tão sonhada medalha olímpica.

No último dia 09, o brasileiro Athos Schwantes e o tcheco Jiri Beran se encontraram na esgrima. O duelo estava equilibrado ponto a ponto. Seguiu para o tempo complementar depois do empate por 3 a 3 no período regular. Os dois adversários buscavam passar para a próxima etapa. Athos abriu o caminho com 5 a 3, quando um ponto foi marcado para Jiri Beran. A disputa poderia haver prosseguido. Na esgrima muitas vezes os pontos são marcados, mas os esgrimistas não sentem onde foi o toque. Os dois estavam entrando na linha de guarda, com o placar em 5 a 4, quando o esgrimista tcheco disse ao árbitro: “Toquei em mim mesmo por acidente”.  O placar voltou a ficar em 5 a 3. Logo a seguir, Jiri Beran fez o quarto ponto. De arrepiar!!! Terminado o tempo, o brasileiro passou para a fase seguinte por 8 a 6. Jiri Beran foi eliminado. Mas, nesse caso, o placar pouco importou.

O esgrimista tcheco teve uma atitude que poucos teriam, verdade seja dita. Essa é uma passagem que merece ser lembrada. Uma Olimpíada não é feita apenas de recordes e daqueles que sobem ao pódio. Ela é feita do espírito olímpico. E essa é a lição que Jiri Beran deixa para muitos. Abandonou a disputa de cabeça erguida, sem trapacear, com a certeza de que cumpriu o seu papel, lutou com dignidade e foi superado por alguém que naquele dia e naquele momento pontuou mais. Isso é ter cultura esportiva. Um campeão, sem dúvida!!!

Em época de Olimpíada, o espírito olímpico se traduz não apenas no esforço gigante para conquistar uma medalha, mas, nas atitudes pautadas, no respeito ao adversário, na solidariedade e na integridade de caráter.

Nesse sentido, o que dizer então da história da amazona holandesa Adelinde Cornelissen e de seu cavalo Parzival!!!

Na manhã de terça-feira, dia 09, um dia antes da competição, ao chegar ao estábulo para treinar com seu cavalo, Adelinde notou que o animal não estava bem. Parzival estava com febre de 40°C e dificuldades para engolir. Após consulta com os veterinários, estes concluíram que ele havia sido picado por um inseto, aranha ou algum tipo de animal que produz toxinas. Depois de receber soro e de ser submetido a exames, o tratamento aplicado começou a produzir efeitos. Parzival teve uma melhora gradual ao longo das horas seguintes até ser liberado para competir pelos veterinários e pela federação.
A dupla conquistou em Londres-2012 as medalhas de bronze em equipe e prata, na modalidade individual. 

A delegação holandesa chegou a pedir para a Federação Equestre Internacional (FEI) o adiamento da prova que envolvia sua participação por mais um dia para que ele tivesse mais tempo para se recuperar. Porém, a solicitação foi negada.
Diante disso, Adelinde passou a viver um dilema: "O que fazer? Ele está apto agora, mas eu sei o que aconteceu ontem e o que ele passou... Ninguém do meu país para me substituir caso eu desista...". Preservar o cavalo de 19 anos e deixar a equipe na mão, ou, entrar na arena e competir?
No dia da competição, Adelinde e Parzival, se apresentaram para disputar a prova de hipismo de adestramento. A amazona fez uma saudação respeitosa ao público e, a seguir, deixou a arena. Adelinde optou por desistir de uma medalha quase certa e proteger o animal, a competir e colocar em risco a sua saúde.  Foi assim que ela e Parzival se despediram da Rio-2016.
Postou ela em sua rede social:
“Quando nós entramos, eu senti que ele estava dando o seu melhor, e sendo o lutador que é, ele nunca desiste... Meu amigo, meu parceiro, o cavalo que me deu tudo por toda a sua vida não merece isso. Então eu deixei a arena... #doiscorações”. 
Com a ausência de Adelinde Cornelissen e de Parzival, a Holanda terminou a prova na quarta colocação. Se competisse, poderia ter conquistado uma medalha. Mas a amazona não tem a menor dúvida de que tomou a decisão correta. “Dois corações”. Adelinde saiu de cena deixando para todos nós uma linda lição de amor aos animais.
Haverá gesto mais representativo do espírito olímpico? Adelinde não apenas emocionou ao abandonar os Jogos Olímpicos para poupar Parzival, seu companheiro de jornada e vitórias, mas demonstrou que há outros valores que se sobrepõem a uma disputa, medalha ou pódio. Um verdadeiro campeão também é feito de gratidão e respeito.
Assim como também é feito de superação.
Ontem, dia 14, foi um dia especial para a ginástica artística brasileira. Dois de nossos ginastas subiram ao pódio. Diego Hypolito - após três Olimpíadas - conquistou a sua primeira medalha olímpica: a prata, e, o sargento Arthur Nory - em sua primeira Olimpíada - conquistou a de bronze, a primeira medalha da FAB. Guerreiros!!!
A trajetória de Diego Hypolito para chegar à prata não foi nada fácil. Pode-se dizer que essa foi a medalha da virada de oito anos de espera, frustração, descrédito e determinação. Em 2008 quando disputou sua primeira Olimpíada em Pequim, ele era o franco favorito ao ouro e à primeira medalha olímpica na modalidade para o Brasil. Trazia com ele o título de bicampeão mundial e havia se classificado em primeiro lugar nas eliminatórias para a prova de solo. Parecia não haver adversário à sua altura. O que poderia dar errado? 

No entanto, no último movimento de sua apresentação e da pressão para ser o melhor do mundo, desequilibrou-se e caiu, perdendo o pódio e a tão sonhada medalha. Tenaz, continuou a treinar tentando superar a frustração da derrota. Assim, chegou à Olimpíada de Londres em 2012. Mais uma vez, agora na fase classificatória, no momento derradeiro, voltou a cair, ficando fora da final. A partir de então, Diego Hypolito começou a declinar. Sobrevieram duras críticas ao seu desempenho, foi demitido do Flamengo onde treinou por 19 anos e mudou-se para São Paulo para poder continuar treinando “de favor”, no Clube Pinheiros. Afastado da família e dos amigos, entrou em estado de depressão, chegando a ser internado.

Para seguir em frente Diego Hypolito teria que renascer das cinzas como a Fênix. Com o apoio da família, do técnico e companheiros do novo clube voltou a reinventar-se, ganhou confiança e esperança no sonho de medalha, desta vez, na Olimpíada a ser realizada em seu país. Preterido por muitos, viu sua redenção começar no Mundial de Pequim em 2013, quando escalado como segundo reserva e ante a contusão de dois dos principais atletas da ginástica, ele alcançou o bronze. Era a sua primeira medalha depois de tantos reveses e dificuldades, havia chegado o momento da virada! Mesmo assim, poucos apostavam no atleta, tendo sido o último nome confirmado para a Rio-2016.

Até que, neste domingo, Diego Hypolito fez uma apresentação primorosa na final do solo, limpa, sem erros, escorregões ou quedas. Oito anos após a caída que lhe tirou o favoritismo e o ouro, o sonho realizado, a medalha de prata com gostinho de ouro. Seu sonho a partir de agora? A Olimpíada de Toquio-2020.

O espírito olímpico também é feito de coragem, fé e determinação.

No entanto, a vitória de Diego Hypolito foi empanada pela falta de cultura olímpica da torcida brasileira. Torcer e vibrar pelos atletas do seu país é algo muito diferente de vaiar os adversários ou de comemorar os erros cometidos pelos outros atletas, como se viu ontem na apresentação dos ginastas e se tem visto em outras modalidades. Que espetáculo lamentável!!!

Isso é feio, é ser tacanho, é ter falta de educação, é ter falta de civilidade e de fair play. Como se poder ver pelas histórias aqui contadas, uma Olimpíada reúne os melhores do mundo em cada modalidade. Todos eles, sem exceção, se dedicaram à exaustão, enfrentaram dificuldades, treinaram horas a fio para chegar a participar do maior evento esportivo do planeta e merecem ser aplaudidos.

Uma torcida que vê no gesto de Jiri Beran uma atitude burra ao invés de ver a força do seu caráter; que comemora a desistência de Adelinde ao invés de ver a grandeza de sua atitude; que vaia os adversários, ao invés de reconhecer que estão tendo o privilégio de ver os melhores do esporte de cada país e de saudá-los pelo lindo espetáculo; ou, que “tira onda”, menospreza, urra de satisfação quando o ginasta estrangeiro erra o movimento, ao invés de enxergar e de sensibilizar-se com os anos e anos de treino, esforço e de preparação que aqueles jovens amantes do esporte tiveram para chegar até ali; uma torcida dessas, só denigre o país anfitrião e demonstra o quanto os brasileiros têm que aprender sobre o verdadeiro espírito olímpico. 

Ver os oponentes dos brasileiros como inimigos é ter uma visão muito estreita do que seja competir. Os Jogos Olímpicos por si só representam a integração dos povos, a paz. As contendas não são de vida e morte, mas, de adversários que se enfrentam para ser o melhor dentre os melhores, sendo que, por vezes, nem sempre o melhor é premiado com a medalha ou o pódio.



Há sempre a motivação de querer ganhar. Todo mundo tem isso. 
Mas um campeão precisa, em sua atitude, uma motivação muito além do desejo da vitória.


Shadow/Mariasun Montañés


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domingo, 14 de agosto de 2016




O QUE UM ATLETA NECESSITA PARA ALCANÇAR A MEDALHA DE OURO OLÍMPICA? - PARTE I



A cada quatro anos os melhores atletas do mundo se encontram para competir em várias modalidades.

Por algumas semanas sob o tremular da bandeira olímpica com seus cinco anéis entrelaçados, simbolizando a união dos cinco continentes, os melhores esportistas do mundo conseguem dar um show de superação, respeito, tenacidade, motivação, e acima de tudo, de fraternidade. Não tem como ficar impassível ou deixar de admirar o grande espetáculo esportivo que se desenha por duas semanas em tatames, quadras, areia de praia, mar, traves, cavalos...

É como se um portal se abrisse para irmanar as Nações dos quatro cantos do planeta sob um mesmo teto: sem guerras, sem conflitos, sem diferenças raciais ou religiosas, apenas, o duelo e o combate de forças para saber quem é o melhor dentre os melhores.

Muitas são as histórias que vão se revelando durante a competição, porém, todas elas envolvem horas e horas de treino, sacrifícios, dedicação, garra e determinação. Nesta Olimpíada já é possível destacar alguns momentos que, sem dúvida, serão inesquecíveis...

O adeus das piscinas do extraordinário Michael Phelps após haver conquistado cinco medalhas na Rio-2016 (quatro de ouro e uma de prata), um recordista de pódios e títulos, que acumulou em cinco Olimpíadas, outro recorde, um total de 27 medalhas olímpicas (22 de ouro). Apesar de ser o melhor de todos os tempos, nunca foi visto como um atleta individualista ou alheio à sua delegação, pelo contrário, sempre foi participativo e colaborador, sem fazer questão de ser líder. Sem dúvida um MITO, um exemplo de grandeza, carisma e de humildade, que encantou o público. Um grande atleta, um grande homem.

Enquanto uns dão adeus, outros chegam para ficar.

A pequenina ginasta Simone Biles. Ela não apenas se movimenta com graça, leveza e agilidade, ela voa. É simplesmente extraordinária! Conhecendo-se um pouco mais da história dessa jovem atleta, fica-se ainda mais admirado. Quando tinha apenas três anos de idade sua mãe perdeu a guarda dos quatro filhos para o Estado, por seu envolvimento com álcool e drogas. Simone e outra irmã foram morar com os avós, sendo separadas dos irmãos mais velhos, que ficaram sob os cuidados de outra pessoa da família. Aos seis anos de idade já fazia espontaneamente alguns movimentos que encantavam e sinalizavam para o seu futuro promissor. Naquela menina despertava o sonho de um dia ser uma grande ginasta. Não tardou a ser descoberta pela técnica que está com ela até hoje. Após anos e anos de treino, dedicação e milhares e milhares de repetições para alcançar os movimentos perfeitos, entre um duplo mortal com o corpo esticado e um giro em rotação, alcançou a sua consagração na Rio-2016.

A história de Simone Biles poderia ser a história de muitos atletas olímpicos brasileiros, que também passaram por várias dificuldades para chegar entre os melhores de seu país e encontraram forças para seguir em frente e superar os obstáculos da vida. Muitos de nossos atletas também escaparam de caminhos tortuosos e nebulosos, perseveraram na busca de um sonho e deram a volta por cima, apesar da falta de incentivo do Estado e de patrocínio. São mais que atletas, são sobreviventes do esporte!!! Se hoje Biles brilha com suas medalhas no peito, é porque apesar de todas as agruras, ela vive em um país que acredita e investe em políticas voltadas para a educação e desenvolvimento de práticas esportivas.

No Brasil, os atletas vivem mendigando por patrocínio para poderem participar de competições ou até mesmo comprar um tênis para poder treinar. Muitas vezes eles conseguem seguir em frente porque a família se mobiliza na vizinhança e nas redes sociais para levantar algum dinheiro com os comerciantes do bairro ou incentivadores do esporte e, com o valor arrecadado, poder fazer uma viagem para competir em outro Estado ou até mesmo almoçar durante as competições. A distância entre a rotina e estrutura de treinamento de atletas brasileiros com atletas de outros países é abissal.

O quadro de medalhas do Brasil, país sede da Olimpíada, é um reflexo disso. E, muito embora a imprensa escrita e televisiva esteja omitindo, até agora os medalhistas brasileiros não são atletas comuns, são militares, que muito nos orgulham. É dentre os muros das Forças Armadas que eles têm condições de treinar com equipamentos adequados e de desenvolver o seu talento. Até o momento além de Rafael Silva, bronze no judô, têm-se também as judocas Mayra Aguiar (bronze) e Rafaela Silva (ouro, na foto), além de Felipe Wu, prata no tiro. Das quatro medalhas ganhas pelo Brasil na Olimpíada até aqui, as quatro são de jovens atletas militares, portanto, a nossa Rio-2016 está mais para Jogos Militares.

Tudo indica que seremos ouro na categoria de pior desempenho de um país a sediar uma Olimpíada.

Este é um país onde o foco para o esporte está errado. Investem-se altas cifras no futebol, porque como o mundo sabe e pelo que se viu das investigações envolvendo a FIFA e a CBF rouba-se muito: jogos são fraudados, árbitros são comprados, resultados obedecem aos interesses das bolsas de apostas; dirigentes cartelizaram o esporte num esquema criminoso de fraudes, lavagem de dinheiro e extorsão. E, é nessa modalidade “altamente lucrativa” que o Brasil investe em detrimento das demais modalidades esportivas que hoje penam em busca de apoio e patrocínio. É assim, porque esta é uma Nação de corruptos que não valoriza os verdadeiros talentos que têm, pelo contrário, cuida de endeusar ídolos de barro, jogadores de futebol que jogam no exterior, faturam o que querem até com publicidade e estão cada vez mais distantes de seu país.

Sem patrocínio, muitos de nossos atletas dependem da premiação em torneios para bancar as viagens e das “vaquinhas” entre familiares, amigos e simpatizantes; exceção feita àqueles que têm a sorte de ir para o exterior jogar numa NBA ou Liga de vôlei italiana. Se eles perdem, para continuar, têm que tirar o dinheiro do próprio bolso. A dificuldade de manter a rotina de treinos e competições faz com que o sonho de uma medalha na Olimpíada fique cada vez mais distante. Para quem não entendeu ainda porque estamos em 26º. no quadro geral de medalhas sendo o país sede dos Jogos Olímpicos, essa é a explicação.

O que um atleta necessita para alcançar a medalha de ouro olímpica?

Necessita acima de tudo respeito, investimento, apoio,  incentivo do seu país e de uma política nacional voltada para o esporte, porque o sonho, ah.... o sonho, a vontade de superação, a garra, a dedicação, a determinação, esses ele já têm.

"No esporte, existem campeões e existem heróis. Campeões vencem porque são bons no que fazem e tiram proveito particular de suas vitórias. Heróis vencem quando menos se espera, superam seus próprios limites, e quando recebem os louros dividem suas vitórias com uma nação inteira..." (AUGUSTO BRANCO)




Dos filhos deste solo És mãe gentil,
Pátria amada, Brasil!



Shadow/Mariasun Montañés


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