segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012



A MAGIA DO CINEMA NO OSCAR 2012



Alicinha é apaixonada por cinema desde criança. Talvez isso tenha a ver com o Tio Zuzu que, invariavelmente aos domingos, apinhava os sobrinhos no Fusquinha azul, tendo como destino certo o Cine Belas Artes. A surpresa fazia parte da diversão: qual seria o filme? qual a história a ser contada?

Havia magia naquelas tardes, que começava na entrada do cinema ao ver o anúncio do filme, ilustrado com fotos de algumas cenas; a longa fila para a compra do ingresso era amenizada por aquelas imagens, que ficavam atiçando a curiosidade da meninada, na tentativa de desvendar o enredo; entrar na sala refrigerada e pisar no macio carpete vermelho era um momento glorioso, a escolha da poltrona era um ritual à parte, teria que ficar em frente e ao centro da telona, meticulosamente calculado, nem mais nem menos, enquanto Tio Zuzu, lá fora, pra não perder a tradição, comprava os saquinhos de pipoca na manteiga que, em pouco tempo, seriam detonados por todos. Até hoje, para a Alicinha, cinema tem cheirinho de pipoca feita na hora. Burburinho, música, até o lento apagar das luzes prenunciando o início do filme, a deixa para todos ficarem em silêncio e em seus lugares. Sair de casa para ir ao cinema era algo que acabava rendendo assunto pra semana inteira!

Se o filme era de ação, nos moldes de Os Caçadores da Arca Perdida, Alicinha deixava a sala descabelada, cansada, de tantos pulos e gritos na poltrona; se era drama, como em Lado a Lado, saia soluçando e com os olhos inchados de tanto chorar, um choro compulsivo, não dava pra disfarçar nem com óculos escuros, por mais que tentasse; se era de animação, logo encarnava na pele da princesa e saia levitando do cinema sentindo-se a própria Cinderela; se era de ficção, sua imaginação viajava por um bom tempo para outros mundos, como que tentando alcançar a casa de ET – O Extraterrestre; se era romance, saia com uma vontade louca de se apaixonar, assim como Júlia Roberts em Uma Linda Mulher.

Ontem à noite assistindo à entrega do Oscar 2012, vez ou outra sorria, lembrando daquelas tardes de domingo, do emblemático Fusquinha azul e da mágica tela do Belas Artes, que testemunhou cada etapa de sua vida e a encantou com tantas histórias.

Ah, o charmoso Belas Artes, na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação! Em vão foi a mobilização nas redes sociais para salvá-lo. A última esperança era de que fosse tombado como patrimônio da cidade, mas o poder público rejeitou essa possibilidade. O tradicional cinema, um dos mais antigos da Capital, aquele onde em seus porões se viam filmes proibidos na ditadura, sucumbiu com sua história e fechou as portas em 27 de janeiro do ano passado, tal qual aconteceu em Cinema Paradiso, resta saber se será tranformado em estacionamento, como o do filme.

Quase que diariamente, Alicinha passa em frente àquilo que restou do Cine Belas Artes, sem deixar de sentir uma pontinha de tristeza, ao ver suas paredes pichadas e o magnífico prédio abandonado, ele que nos áureos anos, impactou gerações e trouxe uma grande riqueza cultural para a cidade. Terminou, assim, uma história iniciada em 1952. Venceu a visão estreita, mesquinha e tacanha daqueles que não souberam preservar sua memória artística e cultural.

Com a TV a cabo, internet, DVD, locadoras de vídeo, youtube, e diante de uma minguada frequência aos cinemas, outras salas tiveram o mesmo destino do Belas Artes, algumas se converteram em templos de Igrejas Evangélicas e outras simplesmente desapareceram.

Apesar disso, Alicinha continua fiel à Sétima Arte, vira e mexe é possível vê-la circulando pelas salas do Shopping Paulista, acompanhada ou não. Ontem mesmo esteve na sala do PlayArte, que só vende assentos marcados, e como a platéia era apenas de meia dúzia de gatos pingados, rebelou-se, e sentou em qualquer lugar. Coisas de Alicinha! Quem viveu o apogeu do cinema como diversão, como ela, há de sempre lembrar com carinho daquela época!

Em sua intensa e cinematográfica vida, mais de uma vez acordou com a cara da Sandra Bullock, sentindo falta de um romance pirado, com musiquinha de fundo e tudo. É comum ouvi-la falar com convicção: - Na minha vida, os acontecimentos parecem tirados de um filme... fato!!

Certa vez confidenciou a Maria Rita:

- Se a minha vida fosse um filme, o roteiro teria que ser de Charlie Kaufman, uma comédia romântica meio nonsense e cheia de sarcasmo corrosivo, ahahah!

- Ah, e pra manter o clima nonsense mas, ao mesmo tempo, dar um ar meio “cabeça”ao filme, o diretor seria Woody Allen.

Entrando na fantasia, Maria Rita perguntou: - Ok, e quem seria o ator principal?

- Para ser meu par? Ora, não posso pensar em outro que não o George Clooney!

E assim, a arte cinematográfica que surgiu em 1825 com os irmãos Lumière, desde cedo despertou um sentimento de paixão em Alicinha, que não se apagou com o passar do tempo. Para ela, o cinema preenche um vazio aberto em cada um de nós, que se modifica quando somos sugados para dentro da tela pelas histórias, personagens, emoções e mundos criados nos filmes.

- Todos querem viver emoções intensas, se aproximar ao máximo da magia, do sonho, do incrível retratados no cinema. Essa é a sua crença.

Como não poderia deixar de ser, acompanhou atenta à 84ª Cerimônia de entrega do Oscar 2012 e se rendeu à nostalgia da noite, ao ver a consagração de A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, sobre a obra e criação do cinema, e, do francês mudo, O Artista, de Michel Hazanavicius, sobre os primórdios da produção em Hollywood, sendo premiados com cinco estatuetas cada. Dos dois longas que são uma homenagem e um tributo à arte, O Artista ganhou na categoria de Melhor Filme. Aliás, esta foi a primeira vez que a Academia premiou um filme de língua não inglesa.

Muito embora toda sua torcida fosse pelo talentoso, bonitão, charmoso e carismático George Clooney, em Os Descendentes, foi Jean Dujardin, de O Artista, quem faturou a estatueta de Melhor Ator, no papel de George Valentin, um ator do cinema mudo que sofre com a chegada do cinema falado.

Meryl Streep confirmou seu favoritismo e levou sua terceira estatueta por A Dama de Ferro, a primeira foi em Kramer x Kramer (1976) e a segunda por A Escolha de Sofia (1982). Apesar, de Alicinha achar que Glenn Close, há 24 anos sem ser indicada ao Oscar, poderia ter tido a chance de ser reconhecida pelo seu impressionante desempenho em Albert Nobbs.

Achou mais que merecida a premiação dada ao veterano Christopher Plummer, que aos 82 anos, ganhou seu primeiro Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante por seu papel no filme Toda Forma de Amor, após uma vida inteira dedicada ao cinema. Momento emocionante, teve vontade de aplaudí-lo em pé, assim como a platéia presente no Teatro Kodak, em Los Angeles.

O Brasil ficou de mãos abanando, a música Man or Muppet dos Muppets derrotou Real in Rio da animação Rio, na categoria de Melhor Canção Original. Peninha!!! Mas também, concorrer logo com os Muppets, que já se incorporaram à cultura americana como o hambúrguer, Tio Patinhas, beisebol,... fica difícil, né?

Alicinha já começa a organizar seu fim de semana e a preparar a lista pra assistir aos filmes indicados ao Oscar, vencedores ou não. Isso a manterá ocupada nas próximas semanas.


RIO

video

Não foi escolhido para concorrer à categoria de Melhor Animação, concorreu na de Melhor Música Original, não levou. Esse seria o primeiro Oscar da Academia dado a uma produção brasileira. Tem nada não, fica pra próxima!


Shadow/Mariasun



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