segunda-feira, 8 de novembro de 2010



UM DIA DAQUELES




Você já reparou que tem dias em que nada dá certo, tudo em que botamos a mão parece desandar, as coisas e as pessoas parecem conspirar contra, e nada simplesmente funciona?
A gente briga com quem ama, desaponta quem se importa, leva bronca do chefe, discute com quem não tem nada com isso, esquece de compromissos importantes, perde momentos imperdíveis. Nesses dias dá vontade de ficar na cama debaixo do cobertor, hibernando. Ah, se dá!


Os mais místicos chamam isso de inferno astral ou maré de azar. Talvez não passe de dias ruins, "daqueles" nos quais você se sente só, num mundo literalmente acabado.

E o pior é que nem precisa muito pra começar um dia desses... A Alicinha que o diga!

Na última sexta-feira ela acordou -ainda- sob os efeitos e ressaca das eleições e do feriado prolongado. Sentia dores no corpo inteiro, fato que atribuiu à Dilma. Como é que pode? Dilma a futura presidente do país! Sem currículo, sem carisma e sem ética, meditava em sonhos ou, até mesmo, em estado de vigilia.

Também pudera, a Alicinha passou as últimas semanas no comitê do Serra, panfletando, twittando, indo a comícios e sentindo o coração palpitar cada vez que chegava perto do Airton, pessoa responsável pela campanha na região.

Agora tudo acabado, feito quarta-feira de Cinzas!!!

Somente caiu na real naquela manhã, ao entrar debaixo do chuveiro e sentir a água fria caindo. Isso aqui não vai esquentar não? Molhada e pingando saiu do banheiro para ver o aquecedor. Não está esquentando! As pilhas que ligam o timer tinham acabado e ela não tinha outras para efetuar a troca. Que droga, vai com água fria mesmo!

Não tinha tempo a perder, já estava atrasada para ministrar o workshop no Centro, juntamente com o Dr. Waldemar (conceituado especialista em psicodrama), trabalho que havia conseguido por indicação do Airton. O despertador não tocara naquela manhã. Bom, ao menos isso é o que ela diz, quem a conhece sabe que é bem possível tenha esquecido de programá-lo ou não tenha acordado quando ele tocou. Enfim, o fato é que estava atrasada, e -convenhamos- chegar atrasada a esse compromisso não seria nada abonador para ela aos olhos do Airton.

Saindo do banho, foi preparar o café. Que café? Tinha acabado! Vou tomar na padaria pra não perder tempo! Foi até o quarto vestir-se. Ao colocar a meia, uma carreira inteira desfiou. Mais essa! Vai sem meia mesmo!

Ao pegar o material do workshop, deu pela falta do pen drive. Onde estará? Podia jurar que estava tudo junto! Foi um tal de esvazia gaveta dali, tira tudo da bolsa acolá, até que encontrou o pequeno objeto dormitando no bolso do seu casaco.

Já bem atrasada, foi pegar o elevador. Mas, sabe como é, sete horas da manhã, todo mundo circulando pelo prédio no mesmo horário: gente saindo pro trabalho, crianças indo pra escola, empregadas chegando pro serviço, outras indo pra padaria comprar o pão, madames saindo com seus cãezinhos para o passeio matinal,...e nada do elevador chegar!; até que depois de longa espera ele parou no sétimo andar. Ufa, até que enfim! Lotado. Aguarde a próxima viagem!, gritou alguém.

A estas alturas sem a menor paciência, Alicinha tirou os sapatos e começou a descer a pé a longa escadaria. Isso aqui não acaba nunca!, reclamava com o pouco fôlego que lhe restava. Térreo, graças a Deus! Enquanto se recompunha, percebeu que as chaves do carro haviam ficado sobre o console da sala. Não acredito, não acreditoooo! Recusando-se a fazer o trajeto de subida a pé, resolveu esperar pelo elevador. E dá-lhe espera! Ao tentar subir uma senhorinha acompanhada de seu pequinês a alertou: Moça tá lotado! Sem cerimônia, Alicinha se agachou, pegou o nada simpático, rosnante e fedido cão no colo e sentenciou: Agora lotou!

Uma vez no sétimo andar e com a roupa amassada e cheia de pêlos, foi até o console. Aqui estão vocês! Antes de sair, mentalizou pra ver se não estaria faltando mais nada. Tudo em ordem!

Respirou fundo ao chegar na garagem. Calma, as pessoas não costumam ser pontuais, dá tempo pra tomar um café! Sentia que sem tomar algo quente, não teria o mesmo rendimento e desempenho. Ao passar pela Bella Paulista, não resistiu. Pit stop para tomar o café da manhã. O que ela não esperava é que todos os paulistanos (bom, quase todos) tivessem tido a mesma idéia.

Fila pra ser atendida, nem uma mesinha ou cantinho no balcão pra ficar...Depois do sufoco pra estacionar, não saio daqui sem a minha média e o pãozinho com manteiga, ah não! Nem é preciso dizer que, se houve demora para fazer o pedido, mais ainda para ser servido. Ô moço eu pedi o café da manhã, não o lanchinho da tarde! Após muita insistência, a final, viu-se diante de uma deliciosa xícara de café, cheiroso e fumegante, e de um suculento e apetitoso pãozinho quente na chapa. Que delícia! Por alguns instantes, Alicinha, pareceu ter esquecido os contratempos daquela manhã, até que um desastrado ao passar por ela, esbarrou no seu braço, derramando boa parte do café no seu colo. Nem é preciso dizer que a blusa branquinha, ficou com uma enorme mancha de café na parte da frente. Não olha por onde anda não, hein, Mister Magoo? Em vão foram as desculpas do outro. Ô moço, vê um paninho úmido pra mim! E lá se foi o garçom pegar o tal do paninho. Quanto mais Alicinha esfregava, mais borrada ficava a mancha escura do café. Não tem jeito, agora é vestir o blazer, deixar ele abotoado, e torcer para que faça frio.

Triste ilusão! Aquele foi um dos dias mais quentes em São Paulo.

Sair da padaria também não foi tarefa fácil. Apesar dos seis eficientes caixas, a fila pra pagar não era nenhuma brastemp. Após intermináveis minutos, finalmente chegou ao caixa. Sua comanda por favor. Ai moça, sei lá, ninguém me entregou nada, olha tô com pressa e super atrasada; eu pedi uma média e um pãozinho com manteiga. Acontece que, sem comanda, nada feito! Resignada saiu da fila e voltou pro balcão, pronta pra mandar aquele garçom incompetente pro paredão. Moço você não me deu a comanda, perdi o maior tempão na fila, você precisa prestar mais atenção no que faz! Dona eu entreguei, a senhora é que esqueceu em cima do balcão, olha ela aí do seu lado, disse com todo tato e cuidado para não enfurecer ainda mais a cliente.

A essas alturas Alicinha já tinha se arrependido de ter parado na padaria pra tomar café.

Ao entrar no carro, percebeu que o seu tinha sido trancado pelo carro da frente. Mania que esse povo tem de estacionar carro grande em vaga pequena! Não quero nem saber! E foi um tal de acelera pra frente e pra trás, engata primeira e ré até que -milagrosamente- o poderoso Nissan conseguiu desvencilhar-se, antes que os donos dos outros dois carros aparecessem.

Como se isso não bastasse...quando olhou pra frente, o desespero bateu. Tudo parado. A Avenida da Consolação neste horário nem pensar, numa manobra inesperada e já no sinal vermelho, saiu da esquerda e dobrou à direita. Foi um tal de buzina tocando, pedestre xingando, guarda apitando. Não quis nem saber, seguiu em frente pela Avenida Paulista. Bom, seguiu em frente é modo de dizer, porque pra frente, pra trás, pros lados, também estava tudo parado. Oito horas, e agora?

Pegou o celular pra avisar que chegaria um pouquinho atrasada. Sem sinal. Bateria descarregada. Tinha esquecido o pequeno portável ligado na bolsa durante a noite. E essa agora? Tentou programar o GPS pra uma outra rota, mas foi em vão.

Passados trinta e cinco minutos do horário marcado para o início do workshop, estacionou o carro na esquina mais próxima na esperança de que todos ali tivessem pego o mesmo trânsito e engarrafamento, inclusive o Dr. Waldemar. Após cadastrar-se para entrar no prédio e de longa espera pelo elevador, a final, apertou o botão do 17. andar. No trajeto até lá, olhou-se no espelho. Cruz credo, tô acabada! Ajeitou o cabelo, a roupa, a maquiagem como pôde. Lá chegando deparou-se com uma nada simpática secretária, que a fez se lembrar da Dilma. Parece encosto! Sinto muito mas a reunião começou às oito horas em ponto, o Dr. Waldemar assumiu os trabalhos. Veja se consegue avisá-lo de que eu cheguei e posso assumir, devem estar no cafezinho agora. Só quando der o intervalo eu vou poder falar com ele, são ordens. Não tem problema, eu espero. Sua abominável, você não perde por esperar!, pensou.

Após interminável hora e meia, lá veio a clone da Dilma: O Doutor diz que dará continuidade ao worshop, ele dá conta sozinho, pediu pra você preencher esta ficha. Tendo interesse, entra em contato para o próximo. É que eu realmente gostaria de falar com ele. Hoje não será possível, pediu para dizer que terminando aqui vai sair pra uma consulta, e não sabe se volta.

A partir daí os fatos que se seguiram foram os mais estranhos na vida da Alicinha.

Quem foi que disse que pior que tá, não fica?
O celular de Maria Rita tocou, quando esta se preparava pra almoçar com o Kaká.

- Ritinha, aqui é a Alicinha, me acuda, levaram meu carro, tô na delegacia, o delegado não foi com a minha cara, acho que ele vai me prender, liga pra aquele primo do Kaká que é advogado,...

- Alicinha calma, eu não tô entendendo nada. Levaram o teu carro?
- Foi, respondeu aos prantos.

- Você tava junto?
- Tava, agora aos soluços.

- Meu Deus Kaká, parece que sequestraram a Alicinha, levaram o carro e ela tava junto!
- É. E eles deram o telefone pra ela te ligar. Essa é mais uma das histórias da tua prima. Fica tranquila, não tem sequestrador que aguente ficar com a Alicinha, é devolução garantida.

- Kaká é sério, ela tá ligando da delegacia!
- Viu só, não falei?

- Ela quer que você ligue pro pai do Dudu, pra ir até lá, parece que ela tá tendo problemas com o delegado.
- Não esquenta, se ele tiver juízo, logo logo a libera!

- É assim. Então você vai almoçar sozinho, que eu vou pra delegacia!
- Arre! Me passa o celular, deixa eu falar com ela.

- Kaká, graças a Deus, aqui é a Alicinha, me acuda, levaram meu carro, tô na delegacia, o delegado não foi com a minha cara, acho que ele vai me prender,...já totalmente descontrolada.

- Alicinha, devagar, o que foi que aconteceu, levaram o teu carro?
- Foi, e eu nem terminei de pagar ainda, caindo de novo no choro.

-Agora você tá na delegacia?
- Tô, mais soluços.
- É bem simples. Faz o Boletim de Ocorrência e depois aciona a seguradora.
- Não é nada simples. A pessoa que levou o carro tá dando queixa de mim.

- Ué, não tô entendendo! Tá dando queixa por quê?
- É meio complicado, já falei. Acho que o delegado vai me prender. Liga pro teu primo, pleeeease.

- Você bateu no cara? É isso? Alega legítima defesa.
- É um pouquinho mais complicado que isso. O delegado não me ouve, mandou eu calar a boca várias vezes, só quer ouvir um lado da história.

- Mas, isso é abuso de autoridade!
- Ele tá falando que é pra eu desligar, chama teu primo, e diz pra ele que eu sou inocente.

Sem entender o que estava acontecendo, mas pressentindo que havia alguma coisa errada na história da Alicinha, Kaká resolveu ligar pro Dr. Paulo, pai do Dudu.

- Kaká, eu tô indo viajar com o Dudu pra Riviera. Mas antes eu vou ligar pro delegado pra saber o que está acontecendo, ok? Diz pra Maria Rita ficar tranquila, deve ser algum malentendido.

Passados vinte minutos.

- Kaká, é o Paulo. Estou passando aí pra gente ir pra Delegacia. A coisa tá meio que complicada.
- Mas você não tava indo viajar?
- Vou mais tarde.


Em que confusão será que a Alicinha se meteu desta vez?

Para entender melhor veja as imagens, as câmeras de monitoramento da CET captaram tudo, confira:



O MEU CARRO O SENHOR NÃO LEVA!!!!

Pra encerrar com chave de ouro: na pressa, Alicinha escostou o carro no primeiro espaço que encontrou, na esquina, onde é proibido estacionar. Foi o que bastou. O resto vocês já sabem.

Como a história acaba?

Alicinha ficou sem o carro no final de semana. Ele foi apreendido, dependendo a sua liberação do recolhimento das multas e do pagamento do valor referente ao período de estadia no pátio da CET.

Paulo foi para a Riviera com o Dudu. Tarde da noite é certo, mas conseguiu ir.

Kaká ficou pensando em como a sua vida seria bem mais simples se a Alicinha não fosse prima da Maria Rita.

Maria Rita ficou horas no celular contando o acontecido pra toda a família, amigos, conhecidos,... achando tudo aquilo -no final das contas- muito engraçado.

O agente da CET chegou à conclusão de que no exercício da função de fiscal do trânsito, o adicional de insalubridade lhe é devido a cada mes.


E você também já teve um dia daqueles?!?


Shadow/Mariasun



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