sexta-feira, 3 de setembro de 2010



7 DE SETEMBRO - O BRASIL QUE EU SONHEI




O telefone toca no escritório do Dr. Paulo, pai do Dudu. Ele atende, do outro lado da linha, é o filho, que lhe conta (todo empolgado) ter tirado o primeiro lugar no Concurso de Redação do Colégio, cujo tema era: "7 de Setembro – O Brasil que eu Sonhei".

- Puxa filhão, PARABÉNS, precisamos comemorar!
- Quer que eu mande a Redação pro teu fax?
- Não, vamos fazer melhor! Vê com a mamãe se eu posso te pegar mais tarde, pra gente tomar um sorvetão lá no Viena do Shopping Paulista, aí você traz pra eu ler, fechado?
- Fechado!

Mais tarde, diante de uma taça de sorvete (maior que ele), Dudu entrega a valiosa Redação para o pai, que com satisfação começa a ler....


Eu sonho com um Brasil melhor, livre da dor, da pobreza, da violência, da corrupção, das enchentes e do mau-olhado.

Um lugar onde ricos e pobres possam andar de mãos dadas, sem medo ou preconceito, onde todos se encontrem, se aproximem e gostem de ficar juntos.

Queria muito que a única preocupação dos políticos fosse o bem-estar do povo, e não o tamanho das cuecas, meias e bolsos pra guardar dinheiro.

Quando crescer, sonho em ser um desbravador, feito um Bandeirante, pra me perder nas verdes matas, ver o brilho das riquezas, admirar a beleza dos pássaros, e assim me encontrar no futuro.

Esse é o Brasil dos meus sonhos!

Acho que o meu pai deixou de acreditar que um dia possa ser assim, quando foi que isso aconteceu, eu não sei. Pra ele essa história de “happy after ever” é baboseira até nos Contos de Fadas, eu já não tenho tanta certeza disso. Se alguém tiver algo a dizer, fique à vontade.

Pior que a minha mãe parece ter a mesma opinião que ele, vive dizendo que isto aqui está longe de ser um País das Maravilhas, ainda mais depois que foi assaltada no farol perto de casa. Levaram a bolsa, o celular, o relógio e a correntinha com o crucifixo (que minha avó Nina tinha dado pra ela, e que um dia tinha sido da minha bisavó, que Deus a tenha!). Foi um susto só! Ficou dias sem dirigir o carro, de tanto medo. Tenho certeza de que ninguém faria isso com a Alice, lá no mundo dela.

Tem certas coisas que eu não entendo. Meu pai reclama que o Brasil está virando um Grande Circo, ué e não é que ele tem razão! O outro dia vi o Tiririca na televisão pedindo votos. Ele falava de um jeito tão engraçado! Dizia que não sabe o que um Deputado Federal faz, mas que é pra votar nele, porque depois ele conta pra gente. Eu também não sei o que um deputado faz, daí resolvi perguntar pro meu pai, e ele me respondeu, sem achar a menor graça: Rouba o dinheiro suado dos impostos que eu pago! Eu acho que uma das coisas que ele (o deputado) deve fazer é palhaçada, senão por que é que o Tiririca ia querer voto, não é mesmo? Tenho percebido que o meu pai anda um tanto quanto malhumorado, ouvi ele dizendo pro meu tio Kaká, que esse aí (o Tiririca) vai acabar se elegendo, e que isso dá vontade de chorar. Mas, não é pra rir?

Já a minha mãe anda economizando energia (bem que o meu pai falou que a energia elétrica que a gente paga, é uma das mais caras do mundo), deu agora pra desligar a televisão quando começa o horário político, com a desculpa de que é perda de tempo. Eu não acho. Ela não sabe, mas eu vou pro Youtube e fico vendo por lá, tem cada coisa! É engraçado à beça, muito mais que o Zorra Total ou o Pânico na TV (que eu também assisto escondido dela). Sabe aquelas gostosonas, as tais das Mulheres Fruta, que sabem mexer o popo, pois é, elas também andam pedindo uns votinhos. Acho que querem fazer um pomar lá em Brasília! Eu só fico com pena delas porque, coitadas, não devem ter muito dinheiro pra comprar roupa, ainda bem que tem um tal de Ronaldo Ésper, costureiro (outro que está pedindo votinhos), pois é, quem sabe ele não fica com dó, e acaba fazendo umas roupinhas pra elas quando todos forem colegas no Congresso Nacional?

Acho que Brasília deve ser uma cidade muito divertida, eu gostaria de conhecer, já o meu pai não pode nem ouvir falar, ainda mais depois daquele dia em que ficou doze horas no aeroporto de Congonhas - esperando o avião da Gol, que ia pra lá, decolar - perdeu até uma reunião por conta disso. Nessas horas, não sei por que, ele se lembra da Copa de 2014.

Aliás, essa história de Copa do Mundo pra mim já perdeu a graça. Queria tanto ir ver a Abertura no Morumbi, mas não vai dar! Tinha que vir esse tal de Ricardo Teixeira e sua turma pra atrapalhar; meu amigo Beto me contou com os olhos arregalados, que o pai dele falou, que esse aí é pior que o Ali Babá! Até eu sei que sacanearam e gouraram o novo projeto do Cícero Pompeu de Toledo. Pior que tendo tanto Estádio em São Paulo (vê só: Morumbi, Pacaembu, Parque Antártica, Canindé, Vila Belmiro, Arena Barueri, Parque São Jorge), eles ainda querem construir mais um com o dinheiro do BNDES, e entregar de mão beijada pro Corinthians. Pro meu pai, isso é uma espécie de realidade paralela, tipo uma toca de coelho sem fundo, onde tudo que cai lá, desaparece; já o meu tio Kaká diz que é oportunismo político, por conta dos votinhos corintianos que esse lance vai render. Meu avô se fosse vivo, diria que isso é Maracutaia. Acho tão engraçada essa palavra, mas eu sei muito bem o que quer dizer!

O Kaká, ele é fotógrafo (o melhor do mundo), e acha que todo esse dinheiro que vai ser gasto na construção de um Estádio, que São Paulo não precisa, deveria ser usado na construção de casas populares, hospitais, escolas, saneamento básico, urbanização de favelas, programas sociais, remoção de pessoas das áreas de risco. Ele sabe o que diz. Por conta da profissão, já viajou por esse mundão afora, e diz ter visto coisas que ninguém nem imagina. Isso sim faria deste um grande país, e não a construção de um Estádio pra sediar dois ou três jogos da Copa do Mundo de Futebol, ainda mais em um terreno que é da Prefeitura de São Paulo.

Eu só não entendo como é que alguém pode construir em terreno que é de outra pessoa (o meu pai me explicou que esse terreno é público, portanto, do povo), e depois sair dizendo por aí que é dele (pelo menos foi o que falou o Andrés Sanchez, eca, lá do Corinthians). Como é que ficam os verdadeiros donos do terreno? Por que é que o Prefeito de São Paulo, o Seu Kassab, não usa esse terreno pra construir casas pra esse mundaréu de gente que perdeu tudo na última enchente? O meu tio não é o Boris Casoy, mas diz que isso é uma vergonha! Olha Seu Kassab, o meu pai e a minha mãe votaram no senhor, e não estão gostando nadinha dessa história. Então eu pensei, já que o senhor anda distribuindo terrenos por aí, eu também quero o meu! Não precisa ser muito grande não, basta um onde caiba um campinho de futebol, pra que eu possa jogar bola com os meus amigos. Combinado? Quem sabe assim os meus pais não ficam tão aborrecidos com o senhor.

Desse jeito o País das Maravilhas onde eu gostaria de viver, está mais é pra ficção mesmo. Não queria que fosse assim. O meu pai diz que o pior ainda está por vir! Comenta desanimado que tem até quem foi guerrilheira, sequestrou, roubou e matou pedindo votos por aí. Acho tudo isso muito estranho e confuso. Faz eu lembrar de quando fui pro Parque do Beto Carrero com os meus pais (eles ainda não tinham se separado), a gente estava no trenzinho, quando – de repente - apareceram homens montados em cavalos atirando pra tudo que é lado e gritando. Comecei a chorar, achei que eles fossem me levar ou que a gente fosse morrer ali. Eu era pequeno, não entendia que aquilo era um teatrinho. Acho que as pessoas nunca deveriam pegar em armas, e aquelas que já pegaram ou roubaram deveriam estar presas e não pedindo votos. No outro dia vi na televisão um comboio de homens armados atirando na Avenida principal de São Conrado, no Rio, teve até invasão a hotel. Triste! Queria que fosse tudo de mentirinha, filmagem da Globo pra alguma minissérie, mas não foi. Eu só sei que, por conta disso, a minha mãe falou que a gente não vai tão cedo pro Rio de Janeiro visitar o Tio Zuzu! É como o meu avô dizia, alguém sempre acaba pagando o pato!

Dia 7 de Setembro, o Dia da Pátria, está chegando. Apesar de tudo, eu sonho com dias melhores. Acho que a gente pode sentar e ficar esperando até que as coisas mudem e o país se salve, ou, pode levantar a bunda da cadeira e fazer acontecer, até mesmo porque – como diz a minha avó Nina – nada cai do céu, e quanto mais parado a gente fica, mais chance tem de ficar preso no lugar em que está. É como no futebol, não adianta ficar esperando a bola chegar pra fazer o gol, tem que ir buscar, driblar, desarmar, mirar e chutar.

Então, o meu sonho pra este dia 7 de Setembro, é que todas as pessoas pudessem brincar “de fora da realidade” por alguns instantes, sonhando com o país no qual elas gostariam de viver, afinal cada um faz parte do script e pode escrever o seu próprio roteiro, se não com um “happy after ever”, ao menos, com um final decente.


Ao terminar o Dr. Paulo estava visivelmente emocionado e orgulhoso daquele menino que saboreava tão prazerosamente o sorvete, sem - no entanto - perder o pai de vista.

- Sabe filho, não deixe nunca de acreditar no sonho, na possibilidade de um “happy after ever”, ele é o que nos move, e você acabou de me mostrar e lembrar disso, eu tinha quase esquecido. Obrigado filhão!

Dudu estufou o peito, todo cheio de si, e continuou saboreando o seu sorvetão de chocolate, creme e morango, com calda de chocolate, pedacinhos de castanha do caju e marshmalow.



Lá do alto do Corcovado, que o Cristo Redentor abençoe a todos nós !!!

Shadow




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