domingo, 13 de junho de 2010



 

DIA DOS NAMORADOS EM CLIMA DE COPA DO MUNDO OU VICE-VERSA



Algumas pessoas me perguntam por onde anda Maria Rita, a Ritinha, terá reatado com o Kaká, será que a prima Alicinha tomou jeito? 


De tanto falarem, até eu acabei ficando curiosa: O que terá sido feito dessas três pessoas?

Sabe-se que quando Alicinha pulou as setes ondinhas no Guarujá na virada do ano, tinha plena convicção de que este ano seria diferente, a começar por sua vida amorosa. Foi-se o verão, veio o outono e o inverno já começa a bater na porta, sem que nada de novo tenha acontecido, continua só, sem um par. Ela bem que tentou mudar o rumo da história twittando, mas, apesar de ter encontrado pessoas interessantes, a empolgação não conseguiu passar do primeiro segundo do primeiro minuto.

A própria Maria Rita, a Ritinha, mais estável que ela, deixou escapar o Kaká, aquele semideus, perfeito em todos os sentidos.

A verdade é que nestes últimos meses, Kaká esteve fora do Brasil. Não é a primeira vez que isso acontece. Ele, fotógrafo profissional, tem a sorte de ir para os lugares mais incomuns e inusitados do mundo, fazendo registros impressionantes. É muito respeitado e festejado na área. Agora está de volta. Só que desta vez, ao retornar, sentiu-se desorientado, faltava alguém, a Maria Rita. Desde que se conheceram ela nunca havia deixado de ir pegá-lo no aeroporto, sempre esfuziante e com um sorriso cativante, que o fazia esquecer o cansaço das longas horas de viagem.

Ao entrar no taxi, vacilou quando o motorista lhe perguntou para onde era a corrida. Quase deu o endereço do kitinete da Ritinha, mas, teve que se conformar com o do seu estúdio, enquanto sentenciava em silêncio: "O coração é um caçador solitário".

Alheia à chegada do Kaká em São Paulo, Maria Rita, acordou com o vento batendo na janela do quarto, olhou para o relógio (é cedo ainda), enquanto ele – teimoso - continuava soprando, soprando... Hipnotizada pelo som do vento, levantou e foi até a janela. Do outro lado, pequenas gotas de orvalho caiam, molhando tudo ao redor naquela manhã fria. "É o prenúncio do inverno", pensou. Queria voltar pra cama, mas não conseguia. Permaneceu parada em frente à janela por um longo tempo. Sentia que os finais de semana estavam se tornando mais longos. O outono se foi, assim como o Kaká, pensou. "Por onde andará? O que estará fazendo?"

"O inverno, o vento que vem de todos os lados, nos envolve num abraço gelado e nos deixa encolhidos e solitários. É no frio que sentimos falta das pessoas que um dia nos aqueceram o coração. O inverno tem dessas coisas...Vixe, filosofia da Alicinha", pensou e sorriu ao lembrar da prima.

Aliás, Alicinha já estava terminando o café da manhã, quando o interfone tocou. Era Seu João, o porteiro, dizendo que tinha uma entrega de flores pra ela. "Pra mim? Manda subir!" A alegria tomou conta dela! Quem teria mandado? Algum antigo namorado, talvez. Um admirador secreto, bom demais! O coração parecia sair pela boca. E aquele entregador que não chegava com as flores. "Seu João, cadê o rapaz? Já subiu". E a campainha que não toca. "Ufa, até que enfim!" Ao assinar o comprovante de entrega, parou! "Moço, é Alice ou Aline que está escrito aqui? É Aline dona". Queria nunca ter atendido o interfone. Seu João, aquele incompetente, ia ver só. "Também quem é que gosta de rosas vermelhas, ainda se fossem amarelas?" "Olhe o senhor errou o andar, a Aline mora no de baixo".

Já no táxi, Kaká olhava para a cidade amanhecendo. Não deixou de notar as bandeiras em algumas janelas e nos carros que passavam por ele, as vitrines enfeitadas de verde-amarelo, assim como as ruas, os postes, out doors,... "É a Copa do Mundo chegando", pensou. Esse clima de oba-oba e ufanismo sempre o aborreceu um pouco. Não o futebol em si, mas o uso e abuso da chamada “paixão nacional” pela mídia: a exploração da infância pobre dos jogadores, a glória nos campos europeus, os melhores (e não tão melhores) lances narrados e repetidos à exaustão pelo indigesto, pernóstico e chato Galvão Bueno, editados em efeitos especiais; roteiro básico para mexer com a emoção do torcedor, levando as pessoas a viverem - nos próximos dias - somente em função da Copa. Para Kaká, não havia o menor nacionalismo ou patriotismo nisso, mas a busca de uma felicidade momentânea e fugaz, associada ao fato e à euforia de poder enforcar o trampo em dia de jogo da seleção. “O circo alienante, em época de Copa todos nós perdemos a noção de realidade”, pensou. Foi então que parou para ouvir a música de Gabriel, o Pensador que tocava no rádio do táxi:

“No país do futebol o sol nasce para todos, mas só brilha para poucos, e brilhou pela janela do barraco da favela, onde morava esse garoto chamado Brazuca...”

Maria Rita resolveu ir até o Cyber Café do Shopping Paulista para tomar o café da manhã, consultar seus emails e comprar um livro sobre Relações Humanas na Saraiva, que iria utilizar na próxima palestra, tendo como tema “As Dez Maneiras de Manter um Bom Relacionamento”. Enquanto caminhava pelos corredores, não deixou de notar aquele ir e vir de casais abraçados ou de mãos dadas, que cruzavam sorridentes por ela, ou, aquele monte de almofadas e corações vermelhos espalhados pelas vitrines num chamamento para a compra do melhor presente do Dia dos Namorados: “Para Ele e para Ela”, “Ser Namorado é ter Dedicação Total”, “Para Namorados que não desgrudam da Economia”. "O que não se faz hoje em dia para aumentar as vendas, o amor agora virou artigo de comércio, objeto de consumo, eca!" Blasfemou, enquanto não via a hora de voltar pra casa e daquele sábado terminar.

Alicinha, invejando a sorte da vizinha, decidiu que não iria ficar ali moscando, não nesse dia 12 de Junho, ah não! “Quem não tem cão caça com gato; e quem não tem namorado caça com Copa!”. Dito isso, foi até a 25 de Março. Era uma multidão só, empurrão de lá esbarrão de cá, mas em momento algum lamentou a infeliz idéia de ter se aventurado por lá numa manhã de sábado, Dia dos Namorados e início de Copa do Mundo. Após muita garimpagem, voltou sacudida e amarrotada - mas feliz - com quatro ou cinco sacolas recheadas de bandeiras, bonés, cornetas, vuvuzelas, camisetas e perucas verde-amarelas.

Kaká, por sua vez, ao sair do banho, foi consultar os emails, atualizar o Facebook com as fotos da viagem, e de repente, como num estalo, lembrou da Ritinha, dos momentos compartilhados, dos passeios, da conversa jogada fora, das carícias trocadas, do último Dia dos Namorados que passaram juntos, daquele tempo onde o simples fato de estarem juntos era, por si só, um programão e tanto. "Por que foi que a gente se afastou? Houve motivo bastante pra isso?" E num impulso catártico postou o seguinte vídeo no Facebook:





E embaixo acrescentou:
Alguém que você não pode ver, manda um beijo que você não pode sentir... mas que a ama de um jeito que você pode imaginar!

Maria Rita acabara de chegar em casa, e antes de entrar no seu blog, o “Candinha de Corpo e Alma”, resolveu dar uma espiadinha no Facebook do Kaká. Ao ver o vídeo e a mensagem ficou paralisada, sem ar, seus olhos embaçaram, coração aos pulos. Vontade de responder, de ligar, dizer que sentia muito a falta dele, quando o interfone tocou. Era Alicinha, quem mais? "Sempre aparecendo nas horas mais impróprias. É impressionante!", pensou Maria Rita.

Ao abrir a porta, Ritinha mal conseguia disfarçar sua contrariedade. Queria estar só, vendo e revendo aquele vídeo postado pra ela, sim unicamente pra ela, A Rita. Quase não acreditou ao ver Alicinha esparramando-se no sofá da sala, cercada de um monte de sacolas repletas de cacarecos. Estaria sonhando?

Não. Essa era a prima Alicinha em clima de Copa do Mundo. Se estivesse namorando certamente não teria lembrado da Ritinha e nem estaria ali. "Mas é muito sem noção mesmo", pensou enquanto tentava se livrar dela. "Será que virou moambeira agora?" Foi então que, a tresloucada, disse estar convocando todas as pessoas conhecidas e avulsas (solteiras), iguais a ela, para se encontrarem no Bar do Ernesto (espaço criado em homenagem a Adoniran Barbosa), point da turma a algum tempo. "O lance é dar uma rasteira no Dia dos Namorados e de quebra assistir aos melhores momentos dos primeiros jogos da Copa. Tem sete telões pra gente não perder nenhum lance", comentou. Sem prestar muita atenção, Maria Rita concordou, disse que mandaria alguns emails avisando o pessoal, pegou as sacolas, entregou-as à prima, abriu a porta e se despediu dizendo que se encontrariam por lá, tudo sem que Alicinha tivesse tempo de piscar.

Diante do computador, entrou na página do seu blog e postou um vídeo (na certeza de que Kaká passaria por lá):

Ká está minha resposta pra você, A Rita.



"A física diz que duas pessoas não podem ocupar o mesmo espaço, a não ser que sintam muito frio e paixão!"
Em tempo: Feliz Dia dos Namorados para todos meus amigos e comentaristas, Candinha.

Como Maria Rita previra, Kaká deu uma passadinha pelo blog da Candinha, ao ver o vídeo, sentiu que era chegado o momento de uma reaproximação. Já se preparava para aparecer e fazer uma surpresa romântica, algo especial e inspirador só para dois, quando viu um email da Alicinha em sua caixa postal. Da Alicinha? É ela mesma, nele ela dizia:

"Você faz parte da Seleção que foi escalada pra participar de várias rodadas de pizza e chope no Bar do Ernesto, a partir das 20h00. PS: todos deverão vir a caráter, vestindo verde-amarelo".

Mais essa! Kaká acabou retornando o email da Alicinha, queria saber se a Maria Rita estaria por lá ou se tinha alguma coisa a ver com aquela mensagem. Não tardou veio a resposta. “Ela foi a primeira a ser escalada, ficou super animada, não irá faltar. Acho que acabei enviando um email sem querer pra você rsss, mas tudo bem se quiser aparecer, só não venha acompanhado. Não se esqueça de vir a caráter, fique tranquilo que ninguém estará de dourado, rsss”. (numa nítida referência ao Dourado e BBB, motivo de sua separação da Ritinha).

O humor negro, a falta de diplomacia e tato da Alicinha era algo que o incomodava profundamente. Fazer o quê? Ela fazia parte da família da Rita, já tinha se acostumado, portanto, nada o impediria de reencontrá-la, até mesmo de ir ao Bar do Ernesto vestindo as cores da nossa Seleção, em dia de jogo e de vitória da Argentina. Isso estava muito longe de ser o que ele definiria como algo sensato ou romântico, mas enfim.... Mal sabia ele que o plano da Maria Rita era ficar sozinha em casa, abrigada do frio, tomando um delicioso chocolate quente, enquanto preparava a próxima palestra e aguardava que o Kaká talvez, quem sabe, aparecesse no blog. Será que ele já o teria acessado e visto o vídeo? Teria entendido a mensagem? Então por que não deixou um comentário ou um olá?

Perdida em seus pensamentos, não sentiu o tempo passar. Tinha anoitecido quando o celular tocou. "Onde você está? Em casa. Ainda? Com este frio não tem lugar melhor. Tem sim, vaaaai por mim!" Esse vai por mim atiçou a curiosidade de Maria Rita. "Ah, não falo não, venha conferir por você mesma. Garanto que não vai se arrepender!"... Odiava quando Alicinha fazia isso, agora não iria sossegar até chegar na Vila Olímpia. E não deu outra, pra lá foi ela.

Ao entrar não percebeu que alguém, com uma cabeleira verde-amarela, a seguia com os olhos. Cumprimentou uns amigos e saiu à procura da Alicinha. Foi encontrá-la no meio da torcida Argentina, vestindo as cores da bandeira nacional e umas anteninhas coloridas na cabeça. Uma figura! "Eu posso saber o que você quis dizer com aquele vai por mim? Hermanos esta es mi prima Ritita. O que é isso? Esto es fruto del Mercosul. Foi pra isso que você me tirou de casa? Mira allá, e apontou na direção da cabeleira verde-amarela. Teve que franzir e esfregar olhos para decodificar e ter a certeza de que aquele era o Kaká, no maior estilo torcedor canarinho. Simplesmente inacreditável! 

Aqueles foram os segundos mais intensos de sua vida. O coração batia, as mãos tremiam, os olhos lacrimejavam, as pernas bambeavam, não sabia se acenava, sorria, corria para abraçá-lo. Não foi preciso. Quando deu por si, Kaká já havia entrelaçado os braços ao redor do seu corpo e lhe sapecado um beijo de tirar o fôlego (como diria a Alicinha). Um beijo sentido e cheio de paixão. A noite estava só começando pra eles dois.

E quanto a Alicinha? Bom, nada como as relações de boa vizinhança com nuestros hermanos argentinos! Não é mesmo?



Shadow/Mariasun


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