segunda-feira, 28 de junho de 2010




A COPA DO MUNDO EM TEMPO DE ARRAIAL





Leninha ainda lembra dos bons tempos de quermesse na escola e na rua de casa. O vestido rodado xadrez, feito por Dna. Rosa, sua mãe, com remendos em forma de balões costurados,
sardas pintadinhas no rosto e fitas coloridas nas mariachiquinhas.

Era uma época em que São João fazia a alegria da criançada, das moças, dos velhos. Em cada rua tinha o calor da fogueira, com muita batata-doce e pinhão assando no braseiro. Canjica, pé-de-moleque, paçoca, milho, bolo-de-fubá, correio elegante e quadrilha também não podiam faltar. Êta tempo bão, sô!


Há alguns anos atrás, Tio Zuzu escreveu um editorial para o jornal onde trabalhava, dizendo, em tom nostálgico, que numa cidade como São Paulo as tradições vão morrendo uma a uma. Resultado do progresso e do crescimento. Será?

 Algumas coisas mudaram, tudo muda com o tempo, é certo, mas não a essência.

Leninha, sua sobrinha, é uma daquelas pessoas apegadas às tradições, como as da pequena vila no Bixiga, antigo Morro dos Ingleses, onde cresceu e mora até hoje. Lá não tem como não festejar a Achiropita, Santo Antônio, São João, São Pedro.

Ela, desde menina, sempre gostou das festas feitas na rua. Hoje, da janela do seu quarto é possível ver bolas, balões e bandeirolas verdes e amarelas enfeitando cada centímetro do lugar. Ao centro, ao invés dos carros, uma imensa fogueira ardendo, nesse início de tarde enregelada e garoenta. A cara da São Paulo da garoa. "Fragmentos do passado", pensou. Foi irresistível não bater algumas fotos e mandar pro Tio Zuzu.

Tio, lembra da folia nas noites juninas, da fogueira, das vezes em que a gente se reuniu ao seu redor pra dançar quadrilha, comer batata-doce e vocês (os adultos) tomar quentão ou vinho quente? Pois é, olha só. A fogueira queimando, as bandeirinhas, a vizinhança vestida com as cores da bandeira...Lá no cantinho, perto da casa da Dna. Amália, tem os estandartes verde-amarelos em homenagem a Santo Antonio, São João e São Pedro, dá pra ver? O de Santo Antonio já anda meio ensebado, de tanto as solteiras aqui do pedaço passarem a mão no coitado! O Santo tem que ter uma paciência!

Isso não te faz recordar alguma coisa?


Daqui a pouco eu vou lá, me esquentar bem pertinho do fogo e tomar quentão, hoje em dia feito pela filha da Dna. Nicota, que Deus a tenha. Lembra dela?

Mais tarde vai ter até foguetório, iluminando o céu de cores e formas, feito
chuva de estrelas cintilantes, caindo em pedacinhos e desaparecendo devagarinho no ar.

Por enquanto todo mundo está em frente da casa do Seu Nicola, assistindo ao
Jogo da Copa. Ele está todo proza porque já ganhou dois bolões, e jura que o próximo ele fatura também. O filho dele, o Betinho, aquele que faz Jornalismo, descolou um telão. Foi o que bastou. Veio gente de tudo que é lugar aqui da redondeza. É um tal de Uh! Ah!, que dá até pra acompanhar o jogo de longe. Quando tem gol, então? É um tal de vuvuzela, corneta, apito e rojão pra sacudir qualquer um, até defunto. Animação só! Queria que o senhor estivesse aqui.

Ainda lembro daquele seu artigo tão festejado sobre as tradições da velha gente paulista, mas olhe, Tio, por aqui elas (as tradições) não morreram não. Podem ter mudado, mas ainda continuam vivas no coração das pessoas.


Vixe, mais um gol pelo visto!
Lá vai o Seu Manoel pra janela, acender mais um
a vez o tubo de papelão, e é rojão indo pro alto fazendo o maior estrondo, numa disputa insana com o barulho das vuvuzelas e bombinhas da criançada. Mal consigo ouvir os meus pensamentos. Será que foi gol do Luis Fabiano? Eu sei que ele está longe de ser o Pelé, e que a Seleção do Dunga está longe de empolgar como a de setenta. É, Tio, o futebol arte parece ser coisa do passado, ele (o futebol) também mudou, mas sei que o seu coração torcedor continua verde-amarelo, e que agorinha mesmo deve ter acabado de soltar os seus rojões por aí, na Quinta da Boa Vista. Aliás, o céu do Rio de Janeiro deve ter ficado todo iluminado. Acertei?


Lembra do Tião? Pois é, o filho dele, o Tavinho, aquele que faz Agronomia em Piracicaba, veio festejar com a gente. Precisa ver como está mudado, o tempo lhe fez bem, tem um sorriso cativante e encantador! Nem parece aquele moleque marrentinho, que ficava soltando balão em dia de São João e buscapé na roda das meninas. Adivinha só! É ele quem cuida do som, é o Dj, Tavinho do Forró, pelo menos, é assim que a turma resolveu chamá-lo. E não é que o cabra é bom! Forró, xaxado e baião direto. O senhor precisava ver! Bom, ver e ouvir, né? Nem naquelas lindas festas de São João, feitas com tanto fervor, tinha um somzinho assim! Cada um à sua moda acaba caindo no arrasta-pé, coração à solta, seja criança, ou até mesmo, gente como o Seu Tião. Dá pra imaginar o barulho das cornetas e vuvuzelas com o som do forró? Aqui é assim. Cada torcedor é um forrozeiro e vice-versa, numa combinação perfeita, sabia?

O engraçado é ver São João vestido de verde-amarelo. Ele agora também é canarinho! É Fogueira Queimando e Bola Rolando num arraial sem igual.


Hummm, tem um cheirinho de pipoca subindo por aqui! Deve ser coisa da Dna. Emília. A criançada adora quando sai gol, pois a cada gol, tem uma nova baciada. Claro que, com o time retranqueiro que o Dunga armou, tem tido menos pipoca pra molecada, eles tem ficado meio ressabiados, mas não adianta reclamar com a coitada, porque disso ela não tem a menor culpa.

São João agora já vai abrindo passagem pra São Pedro, amanhã - dia 29 - ele chega, e por ser o último Santo, deve ficar por aqui até o final da Copa, pra fechar a festa com chave de ouro.

Eu sei que as suas lembranças vem de muito longe. Mas fique certo de que as tradições não morreram por trás dos arranha-céus de São Paulo. Sabe por que? Porque o melhor da festa é o calor humano. E isso, por aqui, tem de sobra.
 

E-mail enviado e música rolando lá fora. O Jogo acabou com mais uma vitória da Seleção. Em meio aos rojões, vuvuzelas, cornetas, bombinhas, o som do forró comandado pelo Tavinho. Sem muito pensar, Leninha foi até a janela, seu olhar encontrou com o do novo Dj do pedaço, que sorria pra ela. "Ah, ele ainda me mata com esse sorriso!", pensou. Foi quando parou pra ouvir a música que tocava ao fundo: 

Ainda me lembro do seu caminhar, seu jeito de olhar, eu me lembro bem...

"É, eu nunca me esqueci do seu caminhar e travessuras, aliás esse seu jeito de olhar continua o mesmo...


...O tempo todo eu fico feito tonto, sempre procurando, mas ela não vem...

Às vezes, me pego à procura de alguém como você...

 
...E esse aperto aumenta meu desejo, e eu não vejo a hora de poder lhe falar...

Você não imagina o quanto fico feliz por vê-lo aqui...

 
Por isso eu vou na casa dela, ai, ai, falar do meu amor pra ela, vai.
Tá me esperando na janela, ai, ai, não sei se vou me segurar
.
Por isso eu vou na casa dela, ai, ai,...tá me esperando na janela...


E eu aqui na janela...Tavinho, como eu gostaria que essa música fosse pra mim!", um mix de pensamentos da Lena a cada acorde.

De repente, Tavinho começou a acenar pra ela. "Leninha você vem pra cá, ou eu vou ter que ir até aí?"

Por isso eu vou na casa dela, ai, ai,...tá me esperando na janela...


Sem pestanejar, ela desceu as escadas do sobrado e saltitante foi pro arraial, parecia ter voltado à infância. Ele não conseguia tirar os olhos dela, parecia hipnotizado por sua faceirice.


"Vamos começar o arrasta-pé minha gente!
" Foi quando se aproximou de Leninha, pegou-a de jeito pela cintura e começaram a dançar coladinho, no ritmo e balanço do forró. Bão demais, sô!

Na pressa de ir pro arraial, Leninha deixou de ler um e-mail que acabara de chegar:

"Eu que não vou ficar aqui perdendo essa festança, me aguarde que estou chegando junto com São Pedro. Abraços, Tio Zuzu".



Shadow/Mariasun



 
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A COPA DO MUNDO EM TEMPO DE ARRAIAL by MARIASUN MONTAÑÉS is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License.

 


COPA SOLIDÁRIA:

As chuvas que castigam a região Nordeste do Brasil provocaram
enchentes de proporções catastróficas. Os estados de Pernambuco e Alagoas foram os mais afetados e a região da divisa entre os Estados é a mais castigada. Em Pernambuco já são 24 mil desalojados e 17 mil desabrigados. Em Alagoas, são outros 47 mil desalojados e 26 mil desabrigados. Cidades inteiras ficaram submersas. Algumas delas foram praticamente varridas do mapa. Branquinha, em Alagoas, teve 90% de seus edifícios completamente destruídos.


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Bradesco
O banco Bradesco abriu duas contas para a Defesa Civil de cada Estado afetado.
Pernambuco- C/C 600.000-2 / Agência: 3201-8 (Recife-Centro)
Em nome da Defesa Civil de Pernambuco
Alagoas - C/C 10.000-5 / Agência: 389-1 (Maceió-Centro)
Em nome da Defesa Civil de SOS Nordeste
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Além das contas correntes disponibilizadas, outros donativos como alimentos não perecíveis, água, roupas, colchonetes, calçados, cobertores e produtos de higiene pessoal poderão ser feitos nos seguintes locais:
Grupo Pão de Açúcar
Todas as unidade do pão de Açúcar em São Paulo, e as unidades do Assai, Extra e Pão de Açúcar em Maceió, Recife e Fortaleza receberão as doações.
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São Paulo
Em frente ao Shopping Center 3, na Av. Paulista, 2064, quase esquina com a Rua Augusta, há um posto de doações para as vítimas das enchentes das 10 às 21h. O shopping fica próximo à Estação Consolação do Metrô.




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