segunda-feira, 21 de junho de 2010




O EVANGELHO NO FUTEBOL SEGUNDO
SARAMAGO



José Saramago era apaixonado por futebol.
Pouca gente lembra disso.
Certa vez, depois de uma derrota da seleção portuguesa.
Saramago sentenciou ao jovem Luís Figo:


"O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas.
O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas..."


Figo guardou as palavras e sorriu.
Durante suas visitas secretas ao Estádio da Luz ou ao Estádio das Antas.
Saramago filosofava sobre os heróis nas arquibancadas.

Pois o que é o torcedor de futebol senão o próprio elogio da cegueira?


Ao ver a multidão repetir o sinal da cruz.

Pedindo aos céus a vitória.
Saramago respondeu ao amigo que lembrava o ateísmo do escritor:


"Mas todo dia eu procuro um sinal de Deus.
Pena que não o encontro!"

Saramago que fazia o sinal da cruz em segredo.
Por via das dúvidas.




Foi assim, driblando memoriais dos clássicos e dos conventos.

Habitando espaço e memória.
Que José Saramago construiu na literatura seu Maracanã.

Seu Palácio de Mafra.



Saramago que torcia em resguardo pelo time de sua paixão.
Sem vestir camisas.

Sem gritar refrão.


Pois cada um deve seguir seu caminho, seu coração.
Qualquer tentativa de convencer o próximo.
É mera colonização.
Futebol, Deus, Comunismo, Dom João.


Tudo são apenas formas.

Porque ao final dos 90 minutos de letra e bola rolando.
Escritor, leitor, fiel e ateu.
São todos prisioneiros de um conto desta ilha desconhecida.


Chamada vida...

Por ROBERTO VIEIRA

Em meio à Copa do Mundo, Saramago se foi, aos 87 anos, tal qual um craque que disputou diversas partidas em campo e sagrou-se vitorioso. Alcançou a glória mais desejada, foi o primeiro Nobel de Literatura em Língua Portuguesa. Nesse ínterim, tomou alguns cartões vermelhos é certo, erguidos pela censura do Governo Português. A postura ranheta do velho ateu e esquerdista, até o fim, lhe valeram isso.

Nunca mudou de lado, mas soube mudar de opinião. Não deixou de se calar, por exemplo, diante das barbaridades cometidas em Cuba ou em nome do Comunismo. Digamos que, foi aperfeiçoando o toque de bola, os dribles diante dos adversários e adversidades. No fundo, estava acima de todo ou qualquer rótulo, era um humanista por excelência. Comunismo é política, Humanismo é filosofia.

O primeiro livro dele que li, foi “Ensaio sobre a Cegueira”. Confesso que não foi tarefa fácil, naquela época, teria sido mais simples dominar a bola, driblar e chutar a gol. Como decifrá-lo? Só o tempo me mostrou, que era preciso interpretá-lo a partir de sua própria técnica e da forma como a bola rolava em sua cabeça.

O ritmo de Saramago é diferente, idéias jorram concatenadas, tal como passes numa partida de futebol e sentimentos são expressos em frases e parágrafos longos, separados apenas por dezenas de vírgulas, sem ponto final, sem pausa para intervalo.

É de tirar o fôlego! Mas chegar ao fim do livro é algo glorioso!

“No plano da existência humana, tudo concorre para a obstrução da luz. Necessidades, desejos, vaidades, poder, a busca do prazer bloqueiam a passagem da luz. Não somos cegos de nascença, mas, de repente, ficamos. E há épocas em que a cegueira se torna verdadeira epidemia”.

Um pensamento desses, é gol ou não é?

Agora, fico aqui imaginando, como terá sido o encontro de Saramago com Deus:

Deus: - Então tu me renegaste, durante todo esse tempo?
Saramago: - Mas Senhor, eu sempre acreditei em Vós. Nunca neguei a Tua existência, Pai! Eu apenas Vos humanizei.

Ao final, Deus sorri satisfeito, por ter ao seu lado esse Filho tão amado, pra ficar batendo uma bola.


Shadow/Mariasun



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