sábado, 9 de abril de 2011




O RIO CHORA POR SEUS FILHOS

 


Quando ainda era um menino, Tio Zuzu viveu os efeitos da Segunda Guerra. Na sua mocidade foi influenciado pelas idéias de liberdade “On the Road” (livro de Jack Keurouac, 1957), movimento que se propagou nos anos 60, causando mudanças de comportamento como a contracultura e o pacifismo do final da década. Viu várias ditaduras irem caindo, inclusive a
Militar, aqui no Brasil, da mesma forma que o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim.

Acompanhou a globalização do Mundo na ascensão do Mercado Comum Europeu. O sonho! Um mundo sem fronteiras, seu sonho de juventude.

Enquanto essas mudanças aconteciam, a tecnologia avançava. Os computadores chegaram para substituir as máquinas de datilografar. Como bom jornalista, logo se adaptou ao novo modismo, sem esquecer, no entanto, da sua Olivetti. Quem entra pela primeira vez em seu escritório repleto de livros, equipado com o mais avançado material de informática, computadores com webcam, impressoras, não deixa de notar sobre uma mesinha envernizada, no canto da sala, o pequeno dinossauro, a tal da Olivetti, aparentemente deslocada naquele ambiente; como a ler pensamentos, Tio Zuzu simplesmente sorri, relembrando talvez velhos momentos: Ah, se a minha Olivetti falasse!

Foi assim com a chegada do celular. Ele foi um dos primeiros a comprar aquele tijolo, sim era um tijolo. O valor da conta era altíssimo, na época morava em São Paulo, e o tal do aparelho era de Jundiaí. Moral da história: todas as ligações que fazia eram interurbanas. Mas, ele lá ia se importar com isso! Sempre foi fascinado pelas novidades e adepto de tudo aquilo que pudesse trazer conforto e praticidade, sem se importar com o custo.

Quando foi apresentado à internet, então. Meu Deus, parecia uma criança com o primeiro brinquedo! E foi exatamente isso o que fez. Brincar! Ele mesmo dizia: Não tem mistério, pra conhecer é só navegar!

Com todos esses recursos, à disposição de todas as pessoas nos quatro cantos do mundo, passou a acreditar que o futuro do homem poderia ser escrito sem as dificuldades, o sangue, as lutas e a violência do passado, que ele um dia viveu e conheceu. Agora, não era apenas um mundo sem fronteiras, mas um mundo sem distâncias ou fuso horário.

Tio Zuzu não teve filhos, mas ao olhar para os sobrinhos, sempre teve fé e esperança em dias melhores para aquelas crianças, vivendo num mundo livre, sem fronteiras, preconceitos ou guerras. Não conseguiu, agora a esperança se volta para os sobrinhos-neto.

Com a chegada da aposentadoria, mudou para o Alto da Boa Vista no Rio, indo ao encontro de seu reduto de paz, cercado de verde por todos os lados. Um pedacinho do Paraíso, como ele bem o define.

Lá do alto, no seu refúgio verde de paz e contemplação, não ficou alheio aos dramas humanos, e logo foi percebendo que toda essa tecnologia, ao invés de aproximar as pessoas, afastou-as de si mesmas.

O planêta hoje agoniza. Está sendo lentamente destruído pela ação do homem: geleiras derretem em ritmo mais acelerado, florestas são devastadas (em especial a Amazônica, o pulmão do Mundo), rios e mares poluídos, animais em vias de extinção, usinas nucleares espalhando radioatividade na terra, água e ar.

O homem do século XXI, o futuro sonhado nos anos 60 se desumaniza, ao invés de evoluir acaba involuindo para a barbarie. Está perdendo os valores, em especial, o respeito à vida. Os níveis de violência e intolerância nos grandes centros têm aumentado a cada dia: pessoas morrem por rivalidades esportivas, por terem religiões diferentes, por discussões banais no trânsito ou no barzinho, por assaltos onde o delinquente não satisfeito em roubar, mata friamente a vítima indefesa.

Matar virou banalidade, a vida virou um bem supérfluo.

Com o coração apertado, Tio Zuzu vinha constatando isso, ao mesmo tempo que escrevia posts no seu blog, abordando a necessidade das pessoas redescobrirem os valores fundamentais para a vida em sociedade e o respeito à vida e ao próximo.

Foi com abissal perplexidade, que no último dia 7, ao abrir a homepage do computador, defrontou-se com o ataque desolador à Escola Municipal no Realengo.

Essa tragédia entra pra história. O Brasil chora a perda estúpida e brutal de 12 brasileirinhos, todos entre 12 e 15 anos, que foram se juntar a tantos outros, vítimas de balas perdidas, sequestros e assaltos por todo o país, em especial, Rio de Janeiro e São Paulo.

Todos nós perdemos com essa fatalidade. Entre eles poderia estar o médico-pesquisador que iria encontrar a cura definitiva para o câncer ou a Aids, a professora que guiaria o futuro das crianças de 2030, a medalhista da Olimpíada de 2016, o futuro Presidente da República, a Elis Regina, Raquel de Queiroz ou Tarsila do Amaral da nova era.

Dez garotinhas e dois garotinhos, doze talentos interrompidos, doze famílias chorando a perda de seus filhos, irmão e netos, junto com toda uma Nação.

Em seu blog o desabafo:

De nada adianta o minuto de silêncio, o luto oficial, o discurso do Governador do Estado e do Prefeito, diante da calamidade que se instalou no Rio de Janeiro.
 
A questão nem mesmo é o desarmamento, como especialistas ou metidos a experts querem nos fazer acreditar. É o tráfico de armas. Estima-se que no país haja 14 milhões de armas com civis, a maioria tendo entrado clandestinamente pela fronteira e aeroportos, hoje, verdadeiros corredores de tráfico de drogas e armas.

É inaceitável que esse arsenal, que só tende a crescer, esteja nas mãos de pessoas, que um dia poderão fazer uso delas. Quantas pessoas são assassinadas por armas de fogo por semana em todo o país? O número é alarmante, apesar das estatísticas maquiadas. Existe o Estatuto do Desarmamento, ele é cumprido? Ah, sei, tem um grupo que adora proteger assassinos e terroristas. Pois é, tente entrar em algum acampamento do MST para constatar a quantidade de armamento que você vai encontrar.

E me perdoem aqueles que tentam dar um efeito placebo ao que foi visto em Realengo por todos. Não é possível achar que só porque esse tipo de atentado já aconteceu em outros países, devemos aceitar aqui. Isso não pode acontecer em nenhum Estado. É uma insanidade tão grande quanto à do Wellington, o doente mental de Realengo, querer justificar isso como inevitável ou possível, relembrando a tragédia com fatos ocorridos em outros países. Pode até acontecer, mas NÃO É NORMAL. 

Isso tem que acabar. Enquanto ficamos no minuto de silêncio e pessoas achando que esse tipo de tragédia pode acontecer por ser imprevisível, o nosso país nunca mudará.

É bem simples: se esse rapaz mentalmente perturbado, não tivesse tido facilidade em adquirir DUAS ARMAS de poder letal e farta munição, a troco de alguns caraminguás, ESSA TRAGÉDIA NÃO TERIA ACONTECIDO.

Cabe à policia investigar e punir quem forneceu essas armas, a munição e treinou um insano no manuseio de armas. Sim, porque um leigo não consegue recarregar a arma com a rapidez e agilidade com que ele o fez, tanto mais um transtornado, e, muito menos ter a pontaria e conhecimento para atingir órgãos vitais: cabeça e tórax. Atente-se que pelas informações da perícia, a maioria dos tiros foram certeiros. Algo difícil de acontecer apenas com informações técnicas fornecidas pela internet, é preciso ter tido treinamento com arma de fogo para ter firmeza nas mãos e saber direcionar a mira. Essa apuração se impõe. Assim como tentar recuperar as informações contidas no computador do atirador, nem que seja com a ajuda dos avançados equipamentos do FBI nos Estados Unidos.

É de arrepiar pensar que no orkut, o massacre foi anunciado com a antecedência de alguns dias! A internet sendo utilizada para o anúncio e prática de crimes! É o fim. O brinquedo virou arma de destruição em massa e vingança, onde torcidas rivais combinam emboscadas nas estações do metrô, a intimidade de namoros desfeitos vai parar no youtube, a perversão é estimulada em sites de pedofilia, crimes são agendados com dia e hora pra acontecer,... Onde está o controle nessa terra de ninguém, que reúne um monte de anônimos por trás de um nick name? A impressão que dá é que a conexão com o mundo virtual, está levando cada vez mais as pessoas ao isolamento e alheamento de si mesmas, do outro e do mundo, como se vivessem de fato numa realidade paralela, no espaço sideral, que não tivesse consequências.

Enfim, uma desgraça que não permite falar mais nada.

 
Hoje Tio Zuzu se sente mais velho e desolado.





HEAL THE WORLD - CURE O MUNDO

Certas músicas não precisam de tradução, basta ouví-las e deixar seus acordes penetrarem na alma para entendê-las. Assim é Heal The World.

Uma música que é quase uma prece, um alerta, um hino, uma utopia, um sonho ou um mix de tudo isso junto.


Shadow/Mariasun


Licença Creative CommonsA obra O RIO CHORA POR SEUS FILHOS de MARIASUN MONTAÑÉS foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

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