quinta-feira, 21 de abril de 2011



A PÁSCOA DE CADA UM




Bia está ao lado da Val, não tira os olhos dos ovos de chocolate coloridos, um maior que o outro, dependurados na loja. Huummmm tão gostoso!

Enquanto isso, Val pensa: Nossa estão custando os olhos da cara, e os diet então? Mais caros ainda! Passado o susto, acaba comprando alguns ovos. Um enfeitado com fitas e detalhes em rosa, para a pequena Bia; outro diet para Leninha, sua irmã; outros para as primas, professora da Bia e amigos; mais outro para o Dudu, e, um bem especial, para o Tio Zuzu, que deverá chegar do Rio para passar a Páscoa com ela.

Tão bom presentear com chocolate! Oferecer carinho envolto em celofane colorido, pensava a Val. Reminiscências de sua infância.

Ainda lembra, com muito carinho, das reuniões em família na chácara do Tio Zuzu em São Pedro, interior de São Paulo, quando as crianças abriam os ovos de chocolate com todo cuidado para não rasgar o papel colorido, revelando as delícias que havia dentro do ovo, quase sempre pequenos e deliciosos bombons, rapidamente devorados. Será que ainda é assim pra todos? Pra Leninha, pra Alicinha, pra Maria Rita, pro Paulo? 

Quando menina, ganhar ovo de chocolate não era o objetivo principal da data, ele era dado como um complemento à Páscoa. Hoje, há uma obrigatoriedade abusiva no consumo de colombas e ovos de Páscoa. Bia, apesar dos esforços da Val, certamente não vê essa comemoração da mesma forma que ela a via.

A Páscoa era uma festa em que se celebrava a alegria da Ressurreição de Cristo após a sua morte. Foram inúmeras as vezes em que se sentiu extasiada ao imaginar aquela cena (a da Ressurreição), torcendo para que o nono e a nona também pudessem subir ao céu. À medida que o Tio Zuzu contava a história do Redentor que havia vindo ao mundo para salvar a humanidade de todos os pecados, sentia-se grata e, ao mesmo tempo, protegida.
 
A tradicional bacalhoada da Sexta-Feira Santa não podia faltar, especialidade do anfitrião, regada a muito azeite, batatas cozidas com folhas de louro, pimentões vermelhos, azeitonas verdes, no melhor estilo da culinária portuguesa, acompanhada de um arroz bem seco e branquinho, com muito suco de uva para os pequenos e vinho para os adultos. Bom demais! 

Sábado à noitinha, a procissão ao redor da Igreja Matriz da pequena cidade era um acontecimento imperdível. Val e as crianças participavam com grande alegria carregando velas acesas, protegidas por copinhos feitos de cartolina, simbolizando a caminhada de Jesus ao Monte das Oliveiras. Ao entrar na Igreja, somente a luz das velas ao redor da imagem coberta por um pano, em vigilía. Após a leitura da escalada de Jesus rumo ao Calvário, o toque da trombeta, o clarão e o pano caindo, revelando a imagem de Jesus ressuscitado. As pessoas aplaudindo, entoando cânticos de louvor, acordes gregorianos... Como a Val chorava naquele momento, era difícil conter a emoção! A festa do Jesus vivo e renascido no coração de todos.

No Domingo de Páscoa havia também a caça aos ovinhos escondidos na varanda e canteiros da chácara. Momento aguardado com enorme ansiedade pelas crianças. Quem encontraria mais ovos? Cada palmo do jardim era cuidadosamente revirado em busca dos ovinhos coloridos deixados pelo coelhinho. Essa a forma do Tio Zuzu presentear os sobrinhos, época que ficou para sempre no imaginário da Val. Talvez não fosse assim em todas as famílias, mas na dela era algo muito especial e até hoje inesquecível.

Aquele era um tempo romântico e cheio de fantasia, quando as meninas se deslumbravam com a fita que enfeitava o ovo de chocolate para colocar no cabelo, e fazer um belo laçarote nas tranças ou no rabo de cavalo. Coisa antiga e desconhecida das meninas como a Bia, hoje mais preocupadas com os brinquedos escondidos dentro do ovo.

Lembranças que a Val guardará para sempre.

De alguma maneira, ela tenta repetir essa mágica experiência com a Bia. No Domingo de Páscoa esconderá com a ajuda da Leninha ovinhos coloridos nos sapatos, cuidadosamente espalhados pelo apartamento no dia anterior para a vinda do coelhinho. No almoço não faltará a tradicional bacalhoada em família feita por ela mesma, se não igual à do Tio Zuzu, certamente terá como tempero as doces e ternas recordações da infância da Val. Ao entardecer, a Missa na Igreja São Luis Gonzaga na Avenida Paulista, fechará a Páscoa de todos, trazendo um pouco do passado, guardado no coração como um tesouro e resgatado pela saudade.






Com ou sem ovos de chocolate, com ou sem azeite e bacalhau, que a comemoração Pascal esteja em cada um de nós. Que seja um rito de passagem para um tempo novo, revigorado, valorizando a Vida e as relações fraternas, legitimamente fraternas, preparando-nos para um renascer interior, de crença numa humanidade melhor e verdadeiramente justa.


FELIZ PÁSCOA!

Shadow/Mariasun


Licença Creative CommonsA obra A PÁSCOA DE CADA UM de MARIASUN MONTAÑÉS foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

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