segunda-feira, 24 de setembro de 2012

 


A PRIMAVERA EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO




A Primavera chegou. Você não percebeu? Calma: sempre é possível olhar pela janela e ver os jardins em flor ou fazer calar sua voz interior para ouvir o canto dos pássaros.

Apesar do colorido das flores, por muitas razões, tem gente que ainda não se despediu do inverno e está mais dark do que nunca. Dark no visual, dark nos pensamentos, dark nas emoções, dark nas palavras: darkéssimo. Maria Rita é uma dessas pessoas. Nem mesmo ela sabe o por quê... ou... talvez saiba. Ao invés de flores nos jardins vê panfletos de candidatos espalhados pelos jardins e praças, ao invés do frescor das árvores, em cada esquina, vê placas com rostos sorridentes, pedindo seu voto. Sente arrepios da darkice futurista que se aproxima.

- A Primavera não combina com ano eleitoral. Devia ser crime de lesa majestade permitir que políticos fizessem campanha nessa época! pensa, enquanto tenta atravessar a Avenida Paulista em seu carro.

- Aff, a ciclofaixa que leva do nada a lugar nenhum,  causando congestionamento em pleno domingo, só porque é ano eleitoral. Oportunismo, pra dizer que o paulistano agora pode andar de bicicleta! Os políticos dão isenção de IPI pra que as pessoas comprem carro, e depois não querem os carros nas ruas. Vai entender! Melhore-se então o transporte público, para que as pessoas tenham outra opção, oras!!! Aliás, não seria melhor isentar de impostos os artigos da cesta básica? Livros?  Ah, esses não tem o amparo das Montadoras e da Indústria Automobilística!!! 

Em meio à lentidão do trânsito, um sentimento de desprezo vai se apossando dela ao pensar naquela legião de candidatos com sorriso vitorioso no rosto, trocando promessas e juras de amor aos cidadãos e à cidade. Assim, a cada quarteirão, vai ficando mais dark.

Ao chegar ao Parque do Ibirapuera, recosta a cabeça no banco do carro, suspira bem fundo e revira os olhos ao ver através do vidro bandeiras tremulantes com rostos conhecidos e desconhecidos acenando-lhe com a esperança de dias melhores: mais segurança, menos impostos, uma cidade mais humana, próspera e saudável.

Começa a caminhar pelo Parque e ao parar para comprar uma garrafinha de água, a matéria em destaque no jornal lhe chama a atenção: 

"Arquivos alheios, sigilosos e confidenciais de Londres 2012 foram roubados por funcionários do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, que agiram fora da ética e abusaram do "espírito olímpico". O esporte olímpico repete as dúvidas do Mensalão: O chefe, Carlos Nuzman, assim como o Lula já fez no Mensalão, alega que não sabia de nada. Dez foram demitidos, ele continua no cargo". 

- Vergonha alheia!!! Uma nuvem negra parecia pairar sobre ela nesse momento.
  
- Ai meu Deus, ando tão descrente! Gente ganha Ministério lá em Brasília pra apoiar candidato que o Mensalão já derrotou, e que já nasceu derrotado quando ao ser Ministro da Educação, graduou o analfabetismo com diploma universitário pelo sistema de quotas; só agora a Presidente promete reduzir a tarifa de energia elétrica, uma das mais caras do mundo, tentando mostrar que em ano eleitoral se preocupa com o povo; entre os 92 parlamentares que concorrem às próximas eleições municipais, 40% (quarenta por cento) estão sendo investigados pelo Supremo Tribunal Federal por crimes de roubo, apropriação indébita, corrupção, lavagem de dinheiro e até homicídio, podendo vir a se elegerem no cargo de Prefeito; nas pesquisas de intenção de voto em São Paulo, o candidato de plástico está na frente, assinalando que o efeito Tiririca não acabou e continua a se espalhar pela população mais uma vez... Não há esperança que resista a isso!

- Não deveria ter vindo, suspira. Mas já que estou aqui... Continua a caminhar pelo Parque, no que parece ser uma verdadeira corrida de obstáculos, tentando esquivar-se da panfletagem de ocasião.

Após mais algumas passadas, ouve a voz de Alicinha atrás dela. Ao virar-se, sente estar diante da primavera em carne e osso. Lá vem a outra saltitante com uma calça legging corsário com estampas florais, top tamarindo, tênis amarelo e o cabelo preso com uma fita combinando com a estampa da calça. 


- Devia ter ido embora, pensa. Quais seriam as abobrinhas que ela teria pra contar?

- Oi prima! disse uma sorridente e primaveril Alicinha. E logo vai contando:

- Ritinha tive um sonho, massss um sonho tão lindo! Imagina que eu estava escrevendo na mesinha do meu quarto, quando a caneta caiu. Ao puxar a mesa vi, atrás dela, um objeto estranho e reluzente, que eu nunca tinha visto antes. Agachei para pegá-lo. E veja só, sempre que eu chegava perto, o danado parecia ter vida própria e se afastava de mim. Mas, você sabe como eu sou, né? Não desisti, até que vira daqui entorse dali, consegui pegá-lo. Ufa! Só que ao levantar, o quarto já não era mais meu quarto! 

- Era o que?

- Era um lindo e maravilhoso jardim dentro da minha casa, do meu quarto! Tinha flores, riacho, relva, cheirinho de mato,.... Ah!!!

- E daí?

- Daí que eu acordei e vim pra cá. Sabe aquele poema de Carlos Drummond que diz:

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.


- Pois é, acho que agora eu sei o que ele quis dizer!

- Alicinha, confesso que ainda não passei do estágio duvidoso da vida, rsss...

- Nossaaaa, que desânimo! Você está precisando é de um café... e eu também!

Tomando o delicioso café praticamente ao ar livre, Maria Rita sente o vento bater em seu rosto, e ao tocar em sua tristeza dark inexplicavelmente este lhe traz uma sensação de paz, parecendo transportá-la para uma primavera interior.... além do real. Serena, olha para Alicinha, que não para de falar nem para respirar:



- Acho que ao passar pela marquise, vou comprar umas violetas pra colocar no meu quarto.

- Efeito do sonho?

- Sabe aquele poema da Clarice Lispector:

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

- Hoje eu quero ter um jardim no meu quarto, rsss......

- Acho que eu sei qual é esse poema...ele continua assim:

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

- Aê Ritinha... é isso mesmo... e esperança suficiente para fazê-la feliz. É desse pedaço que eu gosto!

Maria Rita sorriu suavemente. Sempre admirou aquele jeito desencanado e descompromissado de Alicinha levar a vida.

A poesia (inexplicável) da vida parecia ter tocado o seu coração, feito sol derretendo o gelo. As cores existem mesmo em momentos darkianos, como o das atuais eleições.

 
Ao sair, passaram pela marquise onde as flores estavam expostas e à venda. Maria Rita fez questão de comprar o vaso mais colorido para presentear Alicinha, e de quebra, ganhou outro da prima, que agora está vistoso em reluzente em sua sala, iluminado pelos raios de sol da Primavera, que teimam em atravessar a janela.




Para tudo na vida, sempre existe um novo dia, um novo sol, um novo luar, um novo recomeço... 
Deixe a vida fazer com você, o que a Primavera faz com as flores.  
(Pablo Neruda) 




Shadow/Mariasun


Licença Creative CommonsO trabalho A PRIMAVERA EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO de MARIASUN MONTAÑÉS foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.


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