quarta-feira, 5 de setembro de 2012




PARALIMPÍADAS, QUANDO O IMPOSSÍVEL É APENAS A PRÓXIMA ETAPA






Os olhos de Leninha percorrem a sua home page na internet, e eles se detém na matéria sobre Daniel Dias, atleta brasileiro com má-formação congênita nos braços e perna direita, medalhista de ouro na natação nas Paralimpíadas de Londres:
Daniel Dias bate recorde mundial na categoria 100m peito e conquista o terceiro ouro para o Brasil”.

Ele lhe traz lembranças de Rafaela, sua amiga de infância. A menina que aos dois anos de idade teve poliomielite e perdeu o movimento das pernas. Leninha talvez nunca tenha conseguido expressar o tanto de admiração que sentia por aquela sua companheirinha de aventuras.


Rafaela era alegre, inteligente, desencanada, brincava de pega-pega com a turma “pilotando” sua cadeira de rodas, cadeira que os amiguinhos apelidaram de Pégasus; jogava bola, basquete, queimada, cada dia parecia superar um pouco mais a si mesma. Para ela, a pequena cadeirante transformara-se num referencial de determinação, a prova viva de que é possível percorrer os caminhos além de nossos limites.

Jamais esquecerá o dia em que Rafaela chorou. Era a formatura do Ensino Fundamental e todos preparavam uma apresentação de dança para os pais. Sem pensar, alguém comentou que ela não poderia participar por não poder dançar. Com os olhos ainda vermelhos, aproximou-se dos colegas e em tom grave disse que a dança não é apenas o movimento das pernas, é antes de tudo sentimento, e ela seria capaz de cantar, dançar, e até sapatear se quisesse. Era a mais pura verdade. No dia da apresentação, comovidos e extasiados, todos a viram deslizar pelo tablado em sua cadeira de rodas, com os braços em movimento parecendo asas e um sorriso vitorioso no rosto. Diáfana, uma luz parecia irradiar de seu corpo a cada evolução.


Naquele momento Leninha se deu conta de que é possível ser fã de gente anônima. Bom, anônima de maneira genérica, porque Rafaela era mais do que famosa e conhecida pelo coração.

Hoje, diante da tela do computador, ela se detém no espetacular desempenho de Daniel Dias nas piscinas de Londres, e se pergunta:

O que move alguém a ultrapassar os próprios limites?


O esporte é pródigo dessas histórias. Contemplativa relembra a maratonista suíça que nas Olimpíadas de Los Angeles, cruzou cambaleante e à beira da exaustão a linha de chegada. Ela não venceu, chegou em último lugar. Aliás, pouco importou a sua classificação. O que realmente marcou foi a imagem de alguém que contrariando as dores e limites físicos, buscou forças para concluir a prova e chegar. Mais recentemente, não tem como esquecer a emoção pelo bicampeonato olímpico da seleção feminina de vôlei do Brasil, que estando em desvantagem, foi em busca da medalha de ouro diante das favoritas.

Persistir sempre, esse é o segredo, conclui.


Daniel Dias é um exemplo da vida real, pena que em seu próprio país muitas pessoas não saibam quem ele é. Esse espetacular atleta nasceu em Campinas, passou a infância e adolescência na cidade de Camanducaia, Minas Gerais, e descobriu a natação aos dezesseis anos. Destacou-se nas Paralimpíadas de Pequim batendo recorde atrás de recorde, conquistando sete medalhas (seis de ouro e uma de prata). Em 2009 recebeu o troféu Laureus, espécie de “Oscar do Esporte”, como melhor atleta paralímpico de 2008. Mostrou que é possível ter alta performance vencendo as próprias limitações. Um exemplo de vida.


Do que é feito um campeão? O que torna todas essa pessoas tão especiais?

O segredo está no entusiasmo que vem do espírito. Algo que os gregos já conheciam e chamavam de "sopro divino". No popular: ter paixão por aquilo que se faz.

O mesmo entusiasmo e paixão que os nossos atletas paralímpicos levaram na bagagem para Londres. Sem esquecer que o atleta com qualquer deficiência antes de competir a nível nacional ou internacional, teve que competir com ele mesmo, vencendo as barreiras da descrença, do preconceito e do coitadismo.


Cada atleta paralímpico carrega dentro de si uma história de determinação e superação, que daria para escrever vários capítulos de um livro: há aqueles que nasceram com deficiências físicas ou mentais congênitas, outros que adquiriram a deficiência em decorrência de doenças degenerativas ou acidentes que resultaram em lesão na medula, amputação de pernas e braços, perda da visão. Todos sem exceção tiveram que adaptar-se às exigências de um mundo que cobra a perfeição das pessoas, de lutar para quebrar estigmas, reorientar perspectivas e expectativas.


As Paralimpíadas são disputadas a cada quatro anos, nos mesmos locais onde são realizadas as Olimpíadas.

As primeiras modalidades competitivas para deficientes físicos surgiram nos Estados Unidos e na Inglaterra, na forma de esporte adaptado, após a Segunda Guerra Mundial, para soldados com mutilações.

Hoje, os Jogos Paralímpicos nos causam emoção e admiração ao vermos o extraordinário desempenho de atletas em cadeiras de roda jogando basquete, cegos correndo atrás de uma bola com guizo no futebol, ou, sem pernas e braços competindo na natação ou no atletismo.


A maior glória das paralimpíadas não consiste apenas na conquista de medalhas, mas no exemplo de vida e superação que esses atletas representam para todos nós.

A meta da delegação brasileira é a de ficar entre os sete melhores países no quadro de medalhas. A marca está sendo atingida. Até o momento o Brasil conquistou um total de 20 medalhas, sendo 10 de ouro, 7 de prata e 3 de bronze, o que lhe garante um honroso sétimo lugar no ranking.



O IMPOSSÍVEL só existiu até o dia em que inventaram a SUPERAÇÃO

Shadow/Mariasun Montañés



O Brasil encerrou os Jogos Paralímpicos de Londres na sétima posição do quadro geral de medalhas, com um total de 43 medalhas, sendo 21 de ouro, 14 de prata e 8 de bronze, sua melhor colocação na história. Subiu duas posições em relação aos jogos paralímpicos de Pequim.
Daniel Dias foi um dos grandes responsáveis pelo bom desempenho brasileiro, conquistando a primeira colocação em todas as provas de que participou. Foram seis ouros em seis competições, fazendo a impressionante marca de 15 (quinze) medalhas em duas Paralimpíadas disputadas.
A meta foi atingida. Que venha 2016!!!




Licença Creative CommonsO trabalho PARALIMPÍADAS, QUANDO O IMPOSSÍVEL É APENAS A PRÓXIMA ETAPA de MARIASUN MONTAÑÉS foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.



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