sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

SÃO PAULO E A VIDA NO CONCRETO



É bem comum ouvir gente de fora e até mesmo daqui de São Paulo falar do quão dura é a vida nesta cidade. E realmente a metrópole não dá moleza a quem não a entende ou não procura se adaptar logo a seus excessos e contrastes. Certa vez, parado no trânsito na Avenida Salim Farah Maluf, me chamou a atenção um girassol que nascera no espaço entre a tampa de concreto de um bueiro e a calçada de cimento do canteiro central. O calor naquele dia era intenso. E a planta de poucos centímetros de altura apontava diretamente para o Sol, impulsionada pela luz que a transformou de semente em flor. 

Aquele pequeno girassol não tinha escolha. Apenas nascer, tirando o melhor proveito das condições aparentemente adversas e, sobretudo, aproveitando as raras chances oferecidas pela cidade grande.

Ver plantas que desafiam o cimento não é tão difícil. Estão espalhadas por aí. Basta observar com mais atenção as construções mais antigas, viadutos, prédios, pontes e outras tantas obras viárias. A pista central da Avenida do Estado, as muretas do Elevado Costa e Silva e a estrutura do Viaduto Grande São Paulo são alguns dos exemplos mais presentes na minha memória neste instante. Mas há centenas de outros.

Diversas edificações paulistanas abrigam, agarradas a seus esqueletos de concreto e aço, pequenas árvores que de tão pouco espaço para crescer se atrofiam, ficam miniaturizadas. Sobreviventes que incrivelmente conseguem se criar em meio a fissuras abertas, provavelmente, pela ação combinada do tempo e da água.

Mas como a oferta de nutrientes parece não ser assim tão farta e a terra para aprofundar a raiz é praticamente inexistente, essas plantas não vão muito além do que alguns centímetros — com sorte, ultrapassam um metro. Formam bonsais naturais, fixados firmes o bastante para viverem por muito tempo. Conheço há anos alguns dos exemplares. Talvez por achá-las tão teimosas — e tão bem-sucedidas — é que desde menino fico de olhos atentos a procurar outros modelos de teimosia. 

E este meu interesse peculiar me fez pesquisar para descobrir que a espécie mais comum nem do Brasil é. Tendo sido trazida da Ásia, mais precisamente da Índia, a fícus microcarpa, árvore da família do figo, foi introduzida no passado para arborizar ruas e praças.
Da mesma forma enxergo as pessoas que persistem em vencer os obstáculos apresentados pelas terras paulistanas. Isso porque há quem não teve muita escolha. São Paulo se apresentou como a única saída, a chance singular de vencer. E é uma tarefa relativamente fácil encontrar quem insista em viver aqui. Gente a enfrentar o concreto como fazem as plantas aéreas da capital paulista, localidade que quase sempre insiste em nos repelir e a complicar nossa existência.

Há momentos em que até o mais apaixonado pela cidade chega a odiá-la. Sou desse grupo de cidadãos. Tomo como exemplo a minha própria relação com a metrópole. Quando vejo uma exposição interessante, assisto a filmes bacanas, visito parques, encontro a beleza escondida entre os prédios, fico a me imaginar trocando São Paulo por qualquer um dos lugares do mundo onde já estive ou vivi. “Jamais a trocaria!”, penso nesse instante.

Por outro lado, às vezes me enfureço a ponto de querer sumir deste lugar sempre que perco tempo precioso no trânsito, sofro com a violência incontrolável, fico ilhado em mais uma enchente monstruosa…

Dura e implacável, São Paulo faz muitos desistirem. A cidade não dá muitas brechas para nos agarrarmos, muito menos facilita a nossa sobrevivência. Tudo nesta metrópole chega a ser extremo. Mesmo assim, aqui estamos, a aprender a gostar e a amar esta cidade que, acima de tudo, é espetacular.
(Júlio César Barros)




São Paulo é a maior cidade da América Latina, centro cultural e da vanguarda brasileira, conhecida por sua diversidade cultural durante todo ano. Moderna, tem o mérito de acolher vários povos. Nela uma meia dúzia de paulistanos significa um espanhol, um japonês, um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão. 
Hoje, 25 de janeiro, festeja 459 anos. PARABÉNS SÃO PAULO!!


Shadow/Mariasun

Licença Creative CommonsO trabalho SÃO PAULO E A VIDA NO CONCRETO de MARIASUN MONTAÑÉS foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.




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