terça-feira, 6 de agosto de 2013






O AMANHECER DA ALMA - PARTE2





 

“Não há despertar de consciência sem dor. 
As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo
 para evitar enfrentar sua própria alma; 
ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, 
mas sim por tornar consciente a escuridão”. (Carl Jung)

Quando li essa frase pela primeira vez fiquei imaginando como seria tornar consciente a escuridão. Seria como ir buscar o lado escuro da lua? Algo que não vemos mas sabemos que ali está? Algo que não sentimos mas se faz sentir?

Como seria ir de encontro ao amanhecer da alma? Como enfrentar a escuridão transformadora?

Estaríamos falando daquilo que vem na forma das lembranças de algo já vivido, da saudade de alguém que um dia amamos, de um lugar onde estivemos... ou de sentimentos, vontades e desejos há muito guardados e reprimidos... ou de algo que vem na forma do olfato como o cheiro de uma flor, do orvalho, de um perfume... onde estariam impressas vivências de nós mesmos de uma outra época, de um outro amanhecer? 

Dizem que a alma guarda a nossa essência interior, nossa espiritualidade mais profunda, nossa luz centelha de vida.

Há quem afirme que a alma é imortal e, que nascemos com ela, mas à medida que o tempo passa ela vai anoitecendo, sendo sufocada e reprimida no contato diário com o mundo para dar lugar ao “eu” ideal, àquilo que aparentamos ser e àquilo que os outros esperam de nós. Porém, muito embora permaneça na sombra, ela - a alma - pulsa, vive e se locomove pelo inconsciente. Por isso se diz, que sempre será possível abrir o portal que leva até ela. 

Além disso, ela é livre e viajante do tempo. Isso explicaria porque quando ao passar por um determinado lugar, ao ver uma foto ou conhecer uma pessoa às vezes temos aquela sensação de 'déjà vu': “é como se eu já tivesse estado aqui antes”, “é como se já conhecesse essa pessoa”. A alma não apenas viu, ela de fato ali esteve e conheceu aquela pessoa. Estaria nesse momento a alma sussurrando ao nosso ouvido? Estaria ela entrando em sintonia com o nosso “eu” consciente por uma fresta existente nesse portal?

Uma coisa é certa: A alma sabe e tem consciência de tudo que nos afeta, isso explica os rápidos lampejos e insights intuitivos que vez ou outra temos e sentimos. Aliás, quanto mais estivermos conectados a ela, mais frequentes serão esses lampejos e insights, desde que para isso a porta de nossos impulsos e desejos mais íntimos não esteja fechada. Ela é feita disso. É nossa energia vital. Conhece a solução para cada um de nossos dilemas, porque percorre as indeléveis linhas de tempo e consegue ver e prever o que está por vir.

Por outro lado, o caminho que leva até ela é o da escuridão, é o do enfrentamento daquilo que somos com o que está enraizado nas profundezas do no nosso ser; por mais que isso nos seja dolorido e sofrido, esse é o caminho para chegarmos à nossa totalidade, nosso verdadeiro “eu” subjetivo, em que pese toda a energia gasta para mantê-lo fechado, selado e guardado.

Muitas vezes nos sentimos prisioneiros do tempo presente, dos compromissos acumulados, das formalidades do dia-a-dia, da aparente estabilidade de uma vida mal vivida... de um tempo que não parece ser nosso e que desejaríamos fosse diferente. É a armadilha do tempo. Esse é o portal a ser atravessado.

Enquanto estivermos desconectados estaremos repetindo no presente e no futuro um padrão de comportamento vivido no passado, num círculo vicioso de inquietações na forma de perguntas a serem respondidas. Ocorre que, as respostas reais às grandes questões da vida e aos nossos conflitos mais profundos encontram-se no nosso “eu” interior, não do lado de fora, no mundo. Não somos a vida que levamos, mas o que somos por dentro. 

Tornar consciente algo que está guardado a sete chaves no nosso interior é muito mais do que vir a conhecer algo que não sabíamos sobre nós mesmos, é trazer à luz a compreensão e entendimento perdidos. Esse é o processo de dor e sofrimento a que Jung se refere, pois implica em ter que lidar com os nossos conflitos, inquietações, medos e fragilidades, o que equivale a estar dirigindo numa terra estranha sem rumo mapa ou GPS, à medida que os nossos sentidos deixam de ser guiados pelo “eu” consciente sempre tão apegado ao mundo e ao equilíbrio que ele representa. Daí a afirmação certeira de Jung de que  “as pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar sua própria alma”. Esse é o nada simples processo de conscientização da alma, que geralmente leva a uma mudança de vida, a uma realidade desejada e à possibilidade de que almas gêmeas se encontrem.

Para sermos livres e estarmos em sintonia com a nossa alma não é necessário definir qualquer meta nem alcançar qualquer estado imaginário de ilusão, basta olhar para as correntes que tolhem os nossos movimentos e perceber que a realidade, não é a nossa realidade, mas uma projeção mental daquilo que pensamos que o mundo espera de nós.

Esse é o amanhecer da alma, o seu sentido mais profundo e religioso, o centro divino inerente a nós mesmos quando conseguimos atravessar o portal, essa é a iluminação descrita por Jung.



A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe. (Mário Quintana)


Shadow/Mariasun
 

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