sexta-feira, 4 de setembro de 2015



AYLAN KURDI, ELE SÓ QUERIA VOLTAR A BRINCAR E A SONHAR...



“Não atirem nas crianças, nós somos como pequenos pássaros, ainda não aprendemos a voar...”. Esta frase foi encontrada num muro de Berlim, após a Segunda Grande Guerra. Foi escrita por um menino de 13 anos.
A primeira vez que a li estava fazendo uma pesquisa para uma palestra sobre a violência contra a criança e nunca mais a esqueci. Por algum tempo me perguntei por onde andaria aquele menino: Teria escapado dos horrores da guerra? Teria tido a chance de aprender a voar? De maneira simples, ele resume o olhar de uma criança diante da guerra e da crueldade do homem.
Sim, as crianças são como pequenos pássaros... só necessitam de uma árvore e de um ninho seguro para estender suas pequeninas asas, cantar e nos encantar a cada manhã.
Assim era Aylan Kurdi.
Ele nasceu na Síria. Damasco é a capital, a cidade mais antiga do mundo, a rainha das águas do céu bendito, a esmeralda do deserto como foi chamada desde a antiguidade. Nas ruas estreitas, pátios com laranjeiras, mesquitas, palácios e lares herdados através dos séculos com o aroma fresco das flores que exala dos jardins. A vida pulsou por ali durante milênios.
Fora dos muros da cidade antiga, onde uma linha de trem determina a fronteira com a Turquia, está Kobani, cidade curda-síria, onde o pequeno Aylan viveu até os três anos de idade, juntamente com seu irmão, Galip, de cinco anos, e seus pais, Abdullah e Rehan.  Era ali que estavam seus sonhos de menino. 
Sim, a infância é feita de sonhos, esperança, música, risos e abraços. Talvez por isso, quando crescemos e nos tornamos adultos, seja tão reconfortante ver uma criança brincar dando vida ao seu mundo imaginário, correr de braços abertos em nossa direção, sorrir quando elas sorriem de suas travessuras, encantar-se ao vê-las dormir serenas como que embaladas por um anjo, emocionar-se quando crescem e começam a reconhecer o mundo à sua volta com o prazer da descoberta.
Pena que num mundo imperfeito construído por homens imperfeitos, nem sempre essa descoberta seja uma experiência tão prazerosa assim. O pior que pode acontecer a uma criança é, desde a mais tenra idade, descobrir que a vida é feita de riscos incompreensíveis, que o bicho-papão pode ser a realidade, que armas matam, que braços nem sempre acolhem, que a desesperança existe, que um pequeno barco pode naufragar numa noite sem luar....
Mas... as crianças... ah esses pequenos pássaros, mesmo nas condições mais adversas, ainda conseguem manter a inocência, a esperança e a fé. E isso é contagiante. Talvez seja esse resquício da infância a força vital que nos move quando adultos nos momentos de dificuldade, e, tenha sido determinante na decisão do pai de Aylan, Abdullah, de deixar tudo para trás e fugir de Kobani e das atrocidades do Estado Islâmico, com a mulher, Rehan, e, as crianças. 

No final do ano passado, o céu de Kobani era chamas, fumaça e tiros. Certamente, Aylan podia ver e ouvir tudo isso da janela de seu quarto azul. Os extremistas islâmicos avançavam sobre a cidade espalhando o medo e o terror. Rescaldo da guerra civil que devastou a Síria em 2012, cujo principal adversário era Bashar AL-Assad. Passados dois anos, um adversário muito mais temido e sanguinário, intitulado de Estado Islâmico, ganhou forma e passou a ameaçar os curdos da região, realizando execuções em massa com o fim de aniquilá-los. Kobani, símbolo da resistência contra o avanço dos jihadistas,  hoje é uma cidade em ruínas e devastada pelos extremistas islâmicos. Os curdos são a maior minoria étnica em busca da independência e de um Estado próprio. Esse é o seu sonho, essa é a sua luta.
 


"A série de violações e abusos cometidos pelo 'Estado Islâmico' e grupos armados associados é estarrecedora e muitos desses atos devem ser contados como crimes de guerra ou crimes contra a humanidade", afirmou o alto comissário para os Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad al Hussein, por meio de uma nota.
Nesse contexto, o êxodo sírio tomou o rumo da Europa. Os europeus entre surpresos e atônitos viram colunas de refugiados sírios, avançar sobre seu território.
Quando as crianças já não conseguem mais brincar nas ruas, ir para a escola estudar, alimentar-se adequadamente, dormir sem acordar aos sobressaltos, estar seguras em seus lares, e, os pais se sentem impotentes para protegê-las,  é porque algo está muito errado com a humanidade e é preciso mudar.
“- Pai, nós estamos vivos e isso é tudo. Nós queremos viver”...
Pela família, apenas por ela, vale o risco de lançar-se num pequeno bote ao mar. Foi isso que o pai do pequeno  Aylan pensou. Sós, completamente sós na vastidão e silencio do mar em busca de um novo horizonte.
É difícil dimensionar o desespero, o sofrimento e a dor daqueles que arriscam a própria vida e a daqueles a quem mais amam, numa travessia muitas vezes sem volta e sem porto de chegada.
A situação poderia ser menos caótica se países ricos do Oriente Médio como o Iêmen, Arábia Saudita, Bahreim, Emirados Árabaes, Dubai, Catar, acolhessem esses refugiados, que tentam apenas escapar da lenta agonia de uma morte certeira. Afinal, são países irmãos, vizinhos, estão ao lado sem a barreira, as agruras e as armadilhas do mar, filhos da mesma cultura, língua e religião. O profeta Maomé certamente diria que abandonar um irmão à própria sorte, vai contra os ensinamentos de Alá.
Por que esses países vizinhos fecharam suas fronteiras e seus líderes os olhos e o coração para o drama que está acontecendo em seu próprio quintal? É inexplicável.
Sem saída, o único caminho é arriscar-se nas águas traiçoeiras do Mar Egeu até chegar à Grécia, porta de entrada para a Europa, a nova Terra Prometida, sob um céu escaldante sem nuvens, num calor de quase 40 graus, com pouca água e comida para todos.
Que diferença faz morrer na Síria ou no mar?”, disse um dos refugiados.
Falando em morrer, todos nós morremos um pouco ontem ao ver a foto de Aylan deitado de bruços em uma praia turca. O pequeno barco que não era de papel, naufragou. Aquele menino, tão pequenino, parecia dormir, colocado delicadamente ali por mãos divinas para chamar a atenção do ocidente. A foto percorreu o mundo, virou manchete dos principais jornais, viralizou nas redes sociais e foi o assunto mais comentado em meio à consternação e à sensação de impotência.
Aylan e sua família não chegaram ao destino sonhado. Dos quatro, só restou um pai arrasado e destruído. O menino não mais aprenderá a voar. Suas pequenas asas se transformaram provavelmente nas asas de um anjo. E, com apenas três anos de idade, assim como outras crianças na historia da humanidade, tornou-se um símbolo, o símbolo da dor, da agonia e da crise migratória.
Segundo a guarda costeira turca, nos primeiros cinco meses de 2015, 42 mil pessoas foram resgatadas no Mar Egeu. O mar é o cemitério de outros tantos. Traficantes de pessoas, os coiotes, lucram e se alimentam do drama, do desespero e do fio de esperança daqueles que estão em busca da paz e de uma vida melhor. Tudo isso é muito triste!!!


Cure o mundo
Faça dele um lugar melhor
Para você e para mim
E toda a raça humana...


Shadow/Mariasun Montañés


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