segunda-feira, 16 de novembro de 2015






PRAY FOR THE WORLD: MARIANA E PARIS ESTÃO LOGO ALI - PARTE II





O Brasil é um belo país. Quando Deus decidiu que ele seria parte da Sua criação, a impressão que sem tem é a de que Ele estava de braços abertos abençoando esta terra, tal qual a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. 

E caprichou. Tratou logo de fazer um país de dimensões continentais, soprando sobre ele um clima ameno e agradável, e, na criação de sua flora e fauna fez uma de Suas maiores obras.

Lá do ladinho e um pouco abaixo do mapa do Brasil, mais precisamente ao sudeste, somos levado a crer que Ele realmente se inspirou. É como se admirado com o resultado de Seu feito, tivesse profetizado: “Neste lugar, em meio às montanhas verdejantes riquezas infinitas brotarão e, das águas cristalinas de seus rios, a vida pulsará para dar de beber a quem tem sede e dar de comer a quem tem fome. Há de se chamar Minas Gerais”

De fato, Ele soube derramar suas bênçãos sobre aquele pedaço de chão... Não é por acaso que a mais forte expressão artística e de fé, esteja no esplendor barroco de suas igrejas e na religiosidade do povo mineiro.

As mais belas paisagens serranas brasileiras estão em Minas Gerais emolduradas pela Serra da Mantiqueira, por onde - no período colonial - passaram os bandeirantes desbravando a nova terra, em busca de pedras preciosas.

Desde aquela época, riquezas como o ouro, diamantes, minérios são extraídos de seu solo, que brotam inesgotáveis de suas minas. 

E não parou por aí. Boa parte da riqueza histórica e cultural do Brasil está lá. Ahhh, o encantamento da cidade de Congonhas do Campo com os profetas do Aleijadinho feitos em pedra sabão, como que em agradecimento ao Criador! E a cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica, hoje Patrimônio Cultural da Humanidade. Que orgulho!!!

E a comida mineira então? O feijão tropeiro com torresminho hummm...., o queijo minas feito com o leite das vacas leiteiras que pastam com mansidão pelos prados da região, até se perder a conta, de tantas que são; e,o doce de leite? Coisa boa sô!!! Tudo é tão doce por aquelas terras, que até o Rio é Doce...

Não é à toa que a poesia se encantou e fez morada por lá também. Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Aníbal Machado, Otto Lara Resende são a prova disso.

Razão tinham Tonico e Tinoco ao cantar: Oh, Minas Gerais! Oh, Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais... Oh, Minas Gerais!

Em meio a esse meu devaneio, enquanto escrevo, só consigo pensar na cidade de Mariana. Ela que foi a primeira vila e a primeira capital de Minas Gerais e, chegou a ser a cidade mais rica do ciclo do ouro.

Ao longo do tempo, permaneceu cravada entre as montanhas, crescendo, vendo surgir distritos ao seu redor e pessoas atraídas pela exploração de minério, enquanto as águas do Rio Doce - o nosso Nilo brasileiro - recortava as belas planícies em direção ao mar, rumo à sua foz, no litoral do Espírito Santo.

Até que há dez dias, o inimaginável aconteceu:

O Rio Doce virou um mar de lama trazida em ondas na forma de um tsunami; toneladas de lama misturada a resíduos de ferro despejados em suas águas cristalinas, devastando e sepultando para sempre as cidades de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo; matando pessoas, enterrando histórias e lembranças, soterrando animais, poluindo outros rios e se tornando um dos desastres ambientais mais devastadores do planeta. 

A vida que ali pulsava foi cimentada pela lama misturada com rejeitos da extração do minério de ferro, de forma irreparável e sem volta.

Valente, o Rio Doce, tenta sobreviver seguindo em direção a outros municípios, sem saber que não é mais um rio. Perdeu seu leito. Não mais chegará ao mar. A vida que nele havia e no seu entorno não pulsa mais, acabou, pereceu; ao seu redor restou apenas a devastação do pior desastre ambiental na historia deste país, com danos incalculáveis para a biodiversidade da região. Não mais ali haverá a pesca, criação de gado leiteiro, plantações, casas com crianças brincando no quintal... O mapa geográfico foi alterado, o Brasil agora possui um deserto, um deserto de lama. 

Não há palavras que possam expressar a consternação e o desalento diante de mais uma calamidade, que poderia ter sido evitada. Não, não foi acidente. Não foi fatalidade. Não foi um tremorzinho de terra que ninguém viu ou sentiu, como alguns querem justificar ou desculpar.

Havia uma empresa mineradora, a Samarco, responsável pelas barragens, que estavam operando no limite da sua capacidade, esse é o principal motivo. Uma barragem, uma ponte, um viaduto ou o quer que seja não se rompe por nada e nem de repente. Foi descaso. Foi falta de fiscalização. Foi omissão do poder público. Foi ganância. Foi o famigerado “jeitinho brasileiro”, que está acabando com este país, que ajeita daqui, ajeita dali, até que rompe, como rompeu a barragem. A barragem não, as barragens, foram duas e, uma terceira em vias de se romper!!!

Que país é este???

Bom, que pergunta a minha!!! Todos nós sabemos que país é este, não é mesmo???

É o país que está atolado na lama, um atoleiro tão fundo, que aquela (a lama) já se tornou matéria-prima; cansados, muitos brasileiros já se acostumaram e não reclamam mais. Estão tão anestesiados e habituados com a lama que os sufoca, que sequer conseguem reagir e se indignar diante de uma tragédia como a que atingiu Minas Gerais. 

O rio virou lama, toneladas de lama, ondas de lama que mataram a vida que ali palpitava. 

A lama... o lamaçal... que se espalha por Minas Gerais, é a mesma que se espalha pelo país. A lama de um governo atolado em escândalos; a lama da política do toma lá da cá; a lama das mentiras e discursos vazios para garantir glória e poder; a lama da falta de solidariedade: demorou uma semana para que a Presidente sobrevoasse a área da tragédia e demonstrasse um mínimo de empatia com os inúmeros desabrigados, esquecendo que foi o povo mineiro que a colocou no Palácio do Planalto, porque se dependesse dos paulistas...; a lama da corrupção atirada em todas as direções. 

Deus criou o belo; o homem, a destruição.  Foi assim em Mariana. Foi assim em Paris. Ambas, tragédias tristes e desumanas. Hoje há dores e pesares para todos em um mundo dividido entre a luz, as trevas e... a lama.

                                                         
                       PRAY FOR THE WORLD!!!







Minas não é palavra montanhosa
É palavra abissal
Minas é dentro e fundo
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas. A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem nem a si mesmos o
irrevelável segredo
chamado Minas.
(Carlos Drummond de Andrade)



SHADOW/MARIASUN MONTAÑÉS


 
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