terça-feira, 23 de agosto de 2016





O ENCERRAMENTO E O LEGADO DA RIO-2016



Domingo à noite o Estádio do Maracanã se iluminou para dar adeus às delegações olímpicas que participaram da Rio-2016.

Por 17 dias a cidade maravilhosa pôde se sentir maravilhosa sem estar no noticiário policial por conta de sua violência, caos urbano, precariedade dos serviços públicos, poder paralelo que domina os morros.

Por 17 dias, a cidade maravilha mostrou a sua irreverência, descontração, luminosidade, beleza natural, gingado e alegria contagiante, que um dia inspirou versos e músicas, imortalizando musas e poetas.

Talvez por isso, ninguém quisesse que acabasse.

Sob o olhar vigilante do Cristo Redentor, o Rio de Janeiro mostrou o seu melhor e se iluminou para receber os turistas de braços abertos. O verde-amarelo se espalhou por suas ruas e avenidas, os principais pontos turísticos e monumentos passaram a ser vistos em todo seu esplendor, e, até a água do mar pareceu vestir o seu melhor azul.

De fato, da abertura ao encerramento, foi um evento fantástico que encantou, contrariando os mais céticos e as previsões mais pessimistas. O zika, a dengue, a chikungunya, o impeachment da presidente, a convulsão política e econômica, as obras gigantescas inacabadas, os furtos e roubos e, até a ameaça de um ataque terrorista parecem haver sido esquecidos, ou, ao menos, mitigados.

Por fim, os Jogos Olímpicos conseguiram ser realizados com organização e o funcionamento satisfatório dos serviços de mobilidade urbana colocados a serviço dos turistas e da população.

Num momento em que o mundo está sob a ameaça do terrorismo, o saldo foi altamente positivo. O esquema de segurança montado com a Força de Segurança Nacional sob o comando do competente Ministro da Justiça, Alexandre de Morais, foi eficiente e eficaz. Todas as medidas para garantir a segurança dos atletas, dos estrangeiros e dos cidadãos foram tomadas com eficiência absurda. Tudo foi monitorado do primeiro ao último minuto. Medalha de ouro para esses valentes homens que fizeram a diferença.

A Rio-2016 entra para a história como o maior evento esportivo realizado em solo brasileiro e na América do Sul. Em parte o impeachment beneficiou os Jogos Olímpicos. Sem poder ser utilizada como palanque político, a Olimpíada se transformou num evento exclusivo do esporte e do povo.

Se há uma coisa que pode ser dita dos Jogos Olímpicos da Rio-2016 é que estes estiveram voltados para a diversão das pessoas, sem bandeiras ou siglas partidárias, como um evento esportivo dessa magnitude requer.

A torcida brasileira deu um show de espontaneidade, entusiasmo e alegria. Causou polêmica pelos excessos e vaias, muitas vezes exageradas e dispensáveis. Mas, por outro lado, brindou a todos com tiradas impagáveis, como quando diante da luta de boxe sem preferidos, o destaque passou a ser o árbitro brasileiro, Jones do Rosário; cada vez que este interrompia o duelo, a torcida comemorava:Ahhh, Rosário é melhor que Neymar”, “1,2,3,4,5 mil, quem manda é o Rosário do Brasil”, ou, quando, durante a luta do boxeador equatoriano Carlos Mina, a torcida começou a cantar em uníssono a música dos Mamonas Assassinas: “Mina, seu cabelo é da hora...”... Ahahaha... tem coisas que não tem preço e são contagiantes.

Os atletas de todos os países deram um colorido especial à festa, emocionando a todos na busca do sonho olímpico. Muitos foram os testemunhos de superação, grandeza, esportividade, respeito e solidariedade. Exemplo que, espera-se, tenha influenciado futuras gerações de potenciais medalhistas olímpicos.

Subir ao pódio e receber uma medalha é lindo, e, verdadeiramente emocionante quando isso acontece com a bandeira e o hino do seu país ao fundo. Aí, se vai ao delírio. 

A todos os campeões o nosso reconhecimento e gratidão pelo espetáculo proporcionado.

O sentimento hoje transcende à admiração.

Há quem diga que depois dessa Olimpíada o brasileiro resgatou o orgulho de ser brasileiro e deixou de lado o seu complexo vira-lata. Não! Isso é um equívoco!

Os brasileiros sempre tiveram orgulho do seu país e das suas cores. A Rio-2016 é a prova disso, assim como a união das pessoas nas manifestações de rua e grandes eventos.

Uma coisa é o coração do povo, e, outra, são os políticos explorando a pobreza e a submissão por meio de bolsas miséria, criando dependentes funcionais desprovidos de dignidade e amor-próprio, como se o país e os brasileiros pudessem ser reduzidos a isso.

Hoje, na ressaca da Olimpíada, fala-se no legado que os Jogos Olímpicos deixaram em solo brasileiro.

A cidade do Rio fez um investimento absurdo para criar a vila dos atletas e quatro centros olímpicos, os quais contaram ainda com o alto custo em infraestrutura de mobilidade, incluindo o metrô, vias expressas e a revitalização do centro e da zona portuária. A conta foi paga pelo Brasil inteiro e a ela foram acrescentados mais cifrões do que o esperado, num momento em que o país sofre com uma brutal recessão, desemprego, inflação e desconfiança das empreiteiras com suas obras superfaturadas.

Espera-se, ao menos, que diante de um investimento tão ousado, a Cidade Maravilhosa não meça esforços para despoluir a sua baía da Guanabara, respeitando a mensagem de sustentabilidade que defendeu perante o mundo durante a abertura dos Jogos e, que o resultado disso possa ser celebrado pelas gerações futuras.

Afinal um legado transcende a prédios, estádios ou grandes obras, muitas vezes, ele está na nobreza dos pequenos gestos: na solidariedade da atleta que desiste da prova para ajudar a outra que caiu e ficou para trás, ou, na selfie de atletas sul e norte coreanas, numa demonstração inequívoca de que a paz e o entendimento é possível.

Uma Olimpíada tem esse poder. Ela não se alinha com aqueles que se negam a cumprimentar o adversário por sua religião ou etnia, com aqueles que menosprezam o seu oponente, ou, alimentam o preconceito e o ódio, inventam mentiras levianas, ou, fazem uso de substâncias ilícitas para melhorar o seu desempenho.

E... se houve um legado que simbolizou esse poder, este mais uma vez nos foi dado pelos alemães; eles que na Copa do Mundo, já haviam deixado a sua marca na pequena vila de Santo André em Cabrália, na Bahia, com a construção do campo de treinamento e da pousada onde se concentraram e treinaram.

Desta vez, os alemães nos deixaram a vida!!! 

Em meio à dor da perda, a família de Stefan Henze, técnico da equipe alemã de canoagem slalom e ex medalhista olímpico, que teve morte cerebral após um acidente de carro na Barra da Tijuca, autorizou o transplante de seus órgãos; estes foram distribuídos para vários hospitais do Rio de Janeiro. Hoje o coração desse espetacular atleta, bate forte no peito de um brasileiro.

Esse é o pulsar da vida em uma Olimpíada!!!

Vida como a do militar da Força de Segurança Nacional, Helder Andrade, que se foi ao ser baleado por traficantes no Rio, ao entrar por engano no Complexo da Maré.  Ao entrar por engano?!? Não, tem algo errado aí! Como é que alguém pode ser impedido de circular em seu próprio país?

É preciso por um fim ao tráfico, ao crime e ao poder paralelo neste país. 

Chega de fantasiar sobre a cultura da favela que a mídia televisiva glamouriza e difunde como sendo algo positivo e cultural, o que tem lá é pobreza. Chega das autoridades fecharem os olhos à criminalidade e ao tráfico de drogas e armas que prolifera aos olhos de todos nas favelas do Rio, o que existe lá é a violência e o crime, que não respeita sequer os soldados da Força de Segurança Nacional. Chega de chamar de "comunidade", o que favela é.

Que pena!!! Que pena a morte estúpida desse soldado que estava a serviço do nosso país. Ele que trouxe de Roraima para o Rio o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa e de assegurar a realização da Olimpíada em seu país. Que pena!!!

Espera-se que a perda de sua vida não tenha sido em vão, que ele seja um símbolo no combate à criminalidade na cidade maravilha, cidade que tanto encantou a todos por 17 dias.

Se há um desafio que foi vencido nesta Olimpíada, foi o de mostrar que este é um país gigantesco, que é capaz de criar o belo e de ser melhor do que é hoje.




Que venha Tóquio-2020




Shadow/Mariasun Montañés



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