segunda-feira, 15 de agosto de 2016


O QUE UM ATLETA NECESSITA PARA ALCANÇAR A MEDALHA DE OURO OLÍMPICA? - PARTE II



Durante uma competição como as Olimpíadas muitas são as histórias contadas, as emoções vividas do choro à alegria incontida numa catarse coletiva que envolve e aproxima, com tal intensidade e profusão de imagens que chega a ser difícil escolher o melhor momento ou a melhor partida ou o gesto mais emocionante.

O evento olímpico é mais que uma disputa para laurear os melhores atletas, premiar os vencedores, coroar os maiores e mais extraordinários talentos. Ele vai além. Traz o espírito olímpico com ele, expondo o que podemos fazer de melhor, quando desejamos ser o melhor. E nesse sentido, a Olimpíada Rio-2016 já escreveu algumas histórias inesquecíveis, mesmo o resultado não tendo sido o pódio ou a conquista da tão sonhada medalha olímpica.

No último dia 09, o brasileiro Athos Schwantes e o tcheco Jiri Beran se encontraram na esgrima. O duelo estava equilibrado ponto a ponto. Seguiu para o tempo complementar depois do empate por 3 a 3 no período regular. Os dois adversários buscavam passar para a próxima etapa. Athos abriu o caminho com 5 a 3, quando um ponto foi marcado para Jiri Beran. A disputa poderia haver prosseguido. Na esgrima muitas vezes os pontos são marcados, mas os esgrimistas não sentem onde foi o toque. Os dois estavam entrando na linha de guarda, com o placar em 5 a 4, quando o esgrimista tcheco disse ao árbitro: “Toquei em mim mesmo por acidente”.  O placar voltou a ficar em 5 a 3. Logo a seguir, Jiri Beran fez o quarto ponto. De arrepiar!!! Terminado o tempo, o brasileiro passou para a fase seguinte por 8 a 6. Jiri Beran foi eliminado. Mas, nesse caso, o placar pouco importou.

O esgrimista tcheco teve uma atitude que poucos teriam, verdade seja dita. Essa é uma passagem que merece ser lembrada. Uma Olimpíada não é feita apenas de recordes e daqueles que sobem ao pódio. Ela é feita do espírito olímpico. E essa é a lição que Jiri Beran deixa para muitos. Abandonou a disputa de cabeça erguida, sem trapacear, com a certeza de que cumpriu o seu papel, lutou com dignidade e foi superado por alguém que naquele dia e naquele momento pontuou mais. Isso é ter cultura esportiva. Um campeão, sem dúvida!!!

Em época de Olimpíada, o espírito olímpico se traduz não apenas no esforço gigante para conquistar uma medalha, mas, nas atitudes pautadas, no respeito ao adversário, na solidariedade e na integridade de caráter.

Nesse sentido, o que dizer então da história da amazona holandesa Adelinde Cornelissen e de seu cavalo Parzival!!!

Na manhã de terça-feira, dia 09, um dia antes da competição, ao chegar ao estábulo para treinar com seu cavalo, Adelinde notou que o animal não estava bem. Parzival estava com febre de 40°C e dificuldades para engolir. Após consulta com os veterinários, estes concluíram que ele havia sido picado por um inseto, aranha ou algum tipo de animal que produz toxinas. Depois de receber soro e de ser submetido a exames, o tratamento aplicado começou a produzir efeitos. Parzival teve uma melhora gradual ao longo das horas seguintes até ser liberado para competir pelos veterinários e pela federação.
A dupla conquistou em Londres-2012 as medalhas de bronze em equipe e prata, na modalidade individual. 

A delegação holandesa chegou a pedir para a Federação Equestre Internacional (FEI) o adiamento da prova que envolvia sua participação por mais um dia para que ele tivesse mais tempo para se recuperar. Porém, a solicitação foi negada.
Diante disso, Adelinde passou a viver um dilema: "O que fazer? Ele está apto agora, mas eu sei o que aconteceu ontem e o que ele passou... Ninguém do meu país para me substituir caso eu desista...". Preservar o cavalo de 19 anos e deixar a equipe na mão, ou, entrar na arena e competir?
No dia da competição, Adelinde e Parzival, se apresentaram para disputar a prova de hipismo de adestramento. A amazona fez uma saudação respeitosa ao público e, a seguir, deixou a arena. Adelinde optou por desistir de uma medalha quase certa e proteger o animal, a competir e colocar em risco a sua saúde.  Foi assim que ela e Parzival se despediram da Rio-2016.
Postou ela em sua rede social:
“Quando nós entramos, eu senti que ele estava dando o seu melhor, e sendo o lutador que é, ele nunca desiste... Meu amigo, meu parceiro, o cavalo que me deu tudo por toda a sua vida não merece isso. Então eu deixei a arena... #doiscorações”. 
Com a ausência de Adelinde Cornelissen e de Parzival, a Holanda terminou a prova na quarta colocação. Se competisse, poderia ter conquistado uma medalha. Mas a amazona não tem a menor dúvida de que tomou a decisão correta. “Dois corações”. Adelinde saiu de cena deixando para todos nós uma linda lição de amor aos animais.
Haverá gesto mais representativo do espírito olímpico? Adelinde não apenas emocionou ao abandonar os Jogos Olímpicos para poupar Parzival, seu companheiro de jornada e vitórias, mas demonstrou que há outros valores que se sobrepõem a uma disputa, medalha ou pódio. Um verdadeiro campeão também é feito de gratidão e respeito.
Assim como também é feito de superação.
Ontem, dia 14, foi um dia especial para a ginástica artística brasileira. Dois de nossos ginastas subiram ao pódio. Diego Hypolito - após três Olimpíadas - conquistou a sua primeira medalha olímpica: a prata, e, o sargento Arthur Nory - em sua primeira Olimpíada - conquistou a de bronze, a primeira medalha da FAB. Guerreiros!!!
A trajetória de Diego Hypolito para chegar à prata não foi nada fácil. Pode-se dizer que essa foi a medalha da virada de oito anos de espera, frustração, descrédito e determinação. Em 2008 quando disputou sua primeira Olimpíada em Pequim, ele era o franco favorito ao ouro e à primeira medalha olímpica na modalidade para o Brasil. Trazia com ele o título de bicampeão mundial e havia se classificado em primeiro lugar nas eliminatórias para a prova de solo. Parecia não haver adversário à sua altura. O que poderia dar errado? 

No entanto, no último movimento de sua apresentação e da pressão para ser o melhor do mundo, desequilibrou-se e caiu, perdendo o pódio e a tão sonhada medalha. Tenaz, continuou a treinar tentando superar a frustração da derrota. Assim, chegou à Olimpíada de Londres em 2012. Mais uma vez, agora na fase classificatória, no momento derradeiro, voltou a cair, ficando fora da final. A partir de então, Diego Hypolito começou a declinar. Sobrevieram duras críticas ao seu desempenho, foi demitido do Flamengo onde treinou por 19 anos e mudou-se para São Paulo para poder continuar treinando “de favor”, no Clube Pinheiros. Afastado da família e dos amigos, entrou em estado de depressão, chegando a ser internado.

Para seguir em frente Diego Hypolito teria que renascer das cinzas como a Fênix. Com o apoio da família, do técnico e companheiros do novo clube voltou a reinventar-se, ganhou confiança e esperança no sonho de medalha, desta vez, na Olimpíada a ser realizada em seu país. Preterido por muitos, viu sua redenção começar no Mundial de Pequim em 2013, quando escalado como segundo reserva e ante a contusão de dois dos principais atletas da ginástica, ele alcançou o bronze. Era a sua primeira medalha depois de tantos reveses e dificuldades, havia chegado o momento da virada! Mesmo assim, poucos apostavam no atleta, tendo sido o último nome confirmado para a Rio-2016.

Até que, neste domingo, Diego Hypolito fez uma apresentação primorosa na final do solo, limpa, sem erros, escorregões ou quedas. Oito anos após a caída que lhe tirou o favoritismo e o ouro, o sonho realizado, a medalha de prata com gostinho de ouro. Seu sonho a partir de agora? A Olimpíada de Toquio-2020.

O espírito olímpico também é feito de coragem, fé e determinação.

No entanto, a vitória de Diego Hypolito foi empanada pela falta de cultura olímpica da torcida brasileira. Torcer e vibrar pelos atletas do seu país é algo muito diferente de vaiar os adversários ou de comemorar os erros cometidos pelos outros atletas, como se viu ontem na apresentação dos ginastas e se tem visto em outras modalidades. Que espetáculo lamentável!!!

Isso é feio, é ser tacanho, é ter falta de educação, é ter falta de civilidade e de fair play. Como se poder ver pelas histórias aqui contadas, uma Olimpíada reúne os melhores do mundo em cada modalidade. Todos eles, sem exceção, se dedicaram à exaustão, enfrentaram dificuldades, treinaram horas a fio para chegar a participar do maior evento esportivo do planeta e merecem ser aplaudidos.

Uma torcida que vê no gesto de Jiri Beran uma atitude burra ao invés de ver a força do seu caráter; que comemora a desistência de Adelinde ao invés de ver a grandeza de sua atitude; que vaia os adversários, ao invés de reconhecer que estão tendo o privilégio de ver os melhores do esporte de cada país e de saudá-los pelo lindo espetáculo; ou, que “tira onda”, menospreza, urra de satisfação quando o ginasta estrangeiro erra o movimento, ao invés de enxergar e de sensibilizar-se com os anos e anos de treino, esforço e de preparação que aqueles jovens amantes do esporte tiveram para chegar até ali; uma torcida dessas, só denigre o país anfitrião e demonstra o quanto os brasileiros têm que aprender sobre o verdadeiro espírito olímpico. 

Ver os oponentes dos brasileiros como inimigos é ter uma visão muito estreita do que seja competir. Os Jogos Olímpicos por si só representam a integração dos povos, a paz. As contendas não são de vida e morte, mas, de adversários que se enfrentam para ser o melhor dentre os melhores, sendo que, por vezes, nem sempre o melhor é premiado com a medalha ou o pódio.



Há sempre a motivação de querer ganhar. Todo mundo tem isso. 
Mas um campeão precisa, em sua atitude, uma motivação muito além do desejo da vitória.


Shadow/Mariasun Montañés


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