segunda-feira, 5 de dezembro de 2016




DOMINGO DE CHAPECOENSE CAMPEÃ E DE POVO BRASILEIRO CONTRA A CORRUPÇÃO



Pensar no futebol como sendo um meio transformador, que ultrapasse os limites do campo de futebol para mudar as pessoas, é algo que nos parece utópico e distante demais.

As transformações decorrem da cultura, da educação e até das manifestações do povo nas ruas, afirmam os especialistas.

No entanto, o triste acidente aéreo com a Chapecoense e a perda irreparável de praticamente todo o time, dirigentes, jornalistas; a acolhida comovente de nossos irmãos colombianos aos que partiram; as manifestações de carinho aos brasileiros, vindas de todas as partes do mundo; as homenagens nos campos de futebol reverenciando os jogadores da Chape; a iniciativa do Atlético Nacional de entregar o título de Campeão Sul-Americano à Chapecoense, é o testemunho de que o esporte pode ser um agente transformador e catalisador de amor e união. "Él fútbol no tiene fronteras", dizia a faixa estendida no Estádio Atanasio Giradort. Na verdade, aprendemos que a solidariedade não tem fronteiras.

Num momento tão difícil como o que o Brasil vive hoje, com o total descrédito na classe política e o espírito exacerbado de boa parte da população, às vezes até de ódio incontido, essa corrente de amor que se formou em torno da tragédia, paradoxalmente, foi um alento para os brasileiros. De repente, percebemos que não estamos sós e que a descrença pode dar passagem para a esperança, a dor pode se sentir agasalhada pelo amor e o luto pode ser amparado pelo manto da comunhão.

Até recentemente seria impensável imaginar o encontro das quatro maiores torcidas organizadas de São Paulo em frente ao Estádio do Pacaembu sem se digladiarem, xingarem, cuspirem, estapearem, desdenharem... pois ontem, isso foi possível. Lá estavam elas reunidas, confraternizando no mesmo espaço, para homenagear as vítimas do acidente: São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos.

Quando o país luta para ser ouvido e deposita seu último alento e resto de confiança na Operação Lava Jato, conduzida pelo juiz Sergio Moro e sua Força Tarefa e se depara com o descaso e escárnio dos políticos, a tragédia inesperada com o voo da LaMia nos faz meditar em silêncio sobre a nossa finitude e o legado que queremos deixar para as gerações futuras. Isso nos coloca diante de uma nova perspectiva, mais ampla e transformadora.

Neste domingo, mais uma vez, os brasileiros foram às ruas em repúdio às alterações feitas pela Câmara dos Deputados ao projeto de lei das Dez Medidas Contra a Corrupção que contava com a assinatura de 2,4 milhões de pessoas. Um sentimento de indignação e traição se espalhou por todo o país, resultado da indiferença e do descaso de deputados e senadores para com o povo. Contrapondo-se a isso,  nos deparamos com a “não indiferença” e demonstrações de afeto do mundo aos brasileiros diante do acidente aéreo. Um bálsamo que aquietou e aqueceu os corações indignados. Essas mensagens de solidariedade tiveram o efeito de amenizar a dor pela perda e de nos fortalecer na luta pelo reconhecimento.

Reconhecimento que buscamos no dia a dia, pois na vida somos muito mais Chape do que Flamengo, São Paulo, Barça, Arsenal... Vivemos de sonhos. Estabelecemos metas para alcançar vitórias que ainda não temos, e que muitas vezes parecem ser muito maiores que nós. Lutamos pela vida como a Chapecoense lutava pelo seu primeiro título internacional. Buscamos ser valorizados. Diante de qualquer pequena conquista festejamos e saímos para comemorar com os amigos, como se fosse a maior conquista do mundo... É... Chape somos nós... Talvez por isso as mensagens de carinho vindas de todos os lugares tenham sido tão emblemáticas e reconfortantes. É como se o mundo nos dissesse: - Vocês são campeões!!! - Vamos vamos Chape...

É possível que esse seja o efeito dominó de que tanto se fala: uma peça cai tocando a outra, que cai tocando a outra,... até que ao final todas juntas acabam formando um único desenho.

A verdade é que o amor e a solidariedade de cada pessoa tem o dom transformador sobre a outra.


Foi esse o sentimento quando o Atlético Nacional abriu mão do título para entregá-lo à Chapecoense. Um gesto nobre, ético, que nos faz lembrar o que é o espírito esportivo. Eles não se importaram em ter mais um título em sua bem sucedida história de conquistas ou no substancioso prêmio que é dado em dinheiro ao clube campeão. Tiveram fair play, honraram a camisa do time e o seu país, e com isso valorizaram todas as vitórias que tiveram até aqui. Mostraram ao mundo que glória e triunfo podem transcender aos campos de futebol. Isso é transformador.

No momento em que a torcida do Atlético Nacional da Colômbia, vestida de branco, lotou o Estádio Atanásio Girardot para homenagear a Chapecoense no horário marcado para o jogo, e que outras milhares de pessoas estavam nas ruas em tributo e respeito pelos que se foram, isso nos comoveu e choramos junto.

O esforço do povo colombiano para partilhar a perda e confortar as famílias, amigos e todo um país, nos irmanou para sempre. Sim, fazemos parte de um todo, o que acontece aqui, repercute no universo. Nosso viver é descobrir que não estamos sós, estamos todos irmanados, e que carregamos em nós o ontem, o hoje e o amanhã. O acolhimento do povo colombiano aos nossos campeões até a volta pra casa calou fundo em todos nós, nós que andávamos tão descrentes diante da corrupção, do desemprego, da recessão, da falta de perspectiva que assolou o país nos últimos tempos.

Sábado, 03/12/2016, foi o dia da volta pra casa... Não era como esperavam voltar, mas a chegada foi emblemática e dificilmente será esquecida. Uma chuva densa e incessante os recebeu. A cidade de Chapecó, ainda incrédula, ocupou as ruas e avenidas para num último abraço, se despedir daqueles jovens vitoriosos cheios de sonhos. Dizem que a água simboliza uma nova vida. Talvez, a chuva tenha sido a forma que Deus encontrou de nos dizer que eles estão bem, iniciando uma nova jornada logo ali, no outro lado do caminho.

Alguns deles foram enterrados neste domingo, ao tempo em que as manifestações contra a corrupção se espalhavam pelo país....

A dor, a perda, o luto, fazem parte da vida; assim como a luta, o inconformismo, as escolhas fazem parte das mudanças. Seguir em frente é preciso....

Carlos Drummond de Andrade, escreveu:

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo, é renovar as esperanças na vida e o mais importante, acreditar em você de novo... Porque somos do tamanho daquilo que vemos, e não do tamanho da nossa altura...”.
O sonho da Chape era conquistar a América, acabou conquistando o mundo. Que o Deus misericordioso ampare as famílias e amigos. E que em breve a história continue a ser contada... pois tudo é renovação nesta vida.

O sonho dos brasileiros é acabar com a corrupção e ver seu país crescer, seu desejo foi levado às ruas.

Ao final, todos sabemos que nada mais será como antes amanhã ou depois de amanhã....





Shadow/Mariasun Montañés



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