sábado, 23 de setembro de 2017




SOS RIO DE JANEIRO



Sou paulistana, da terra não mais da garoa, mas dos belos edifícios, do trabalho e das infinitas possibilidades de lazer nos inúmeros parques, teatros, cinemas, shoppings, barzinhos... A praia não está longe, é descer a serra, que num instante se chega a Santos, Guarujá ou Bertioga.

Na infância tinha o sonho secreto de conhecer o Rio de Janeiro. Viajávamos muito de carro nas férias escolares. Conheci vários lugares deste Brasil tão imenso e com tanta diversidade, porém, nunca me esqueci do impacto e encantamento ao chegar pela primeira vez ao Rio. Entrar no bondinho do Pão do Açúcar, subir e subir, o frio na barriga ao sentir o céu mais perto do que o chão, e depois, estar aos pés do Cristo Redentor agradecendo por estar ali. Que vista deslumbrante é a da Cidade Maravilhosa lá do alto!!! Certeza absoluta de que a Mão de Deus recortou aquele pedaço do Brasil.

Os anos passaram e voltei algumas vezes ao Rio ou a caminho dos Grandes Lagos, quase sempre de carro. Apesar do meu fascínio por aquela região tão bela, com o tempo foi possível ir sentindo a sua deterioração. Em uma dessas viagens, na Avenida Brasil, um carro emparelhou com o nosso dando sinal para que parássemos. A princípio, não ligamos. Mas ele foi nos seguindo, com seus ocupantes acenando e dando sinal de luz, como se houvesse alguma coisa errada. Até que acabamos parando. O motorista desceu, abaixou-se rapidamente ao lado da roda traseira, dizendo que estava saindo fumaça. Graças ao Bom Deus, o lugar onde paramos era enfrente a uma unidade da Polícia Militar. O bom samaritano havia colocado óleo de mamona na roda de um jeito que o carro não conseguia sair do lugar, e quando já se oferecia para dar uma carona até o mecânico mais próximo, feito o The Flash foi embora, ao ver que um policial se aproximava. Foi a sorte e, no íntimo, um choque pra mim. Havíamos escapado de um sequestro. Um pedaço do Paraíso se quebrara ali.

De lá pra cá, tudo piorou muito no Rio.

Hoje dá medo até se deixar guiar pelo GPS e desavisadamente cair em uma zona proibida. Sim, zona proibida. Tem isso lá no Rio. Espaços da cidade onde ninguém pode entrar, nem a policia, senão é recebido à bala. Como é possível que em solo brasileiro, haja lugares onde as pessoas não podem circular livremente???

Ao ver as imagens e vídeos da Rocinha postados nas redes sociais nos últimos dias, com tiroteio e rajadas de metralhadora pra todos os lados, inevitável não parar pra pensar: O que fizeram com uma das cidades, geograficamente, mais belas do mundo???

Paralelamente, foram divulgadas imagens do diamante amarelo transformado em um par de brincos no valor de R$ 1,8 milhão, caprichosamente encomendado por Adriana Ancelmo; e, da luxuosa casa de praia de Sergio Cabral, em Mangaratiba, que será leiloada pelo lance inicial de R$ 8 milhões. O casal, que nesta mesma semana, foi condenado pelo competente Juiz Marcelo Bretas da 7ª. Vara Federal do Rio; ele a 45 anos de prisão e ela a 18 anos na Operação Calicute deflagrada pela Polícia Federal... que apurou a movimentação de quase R$ 40 milhões no Brasil e mais de R$ 318 milhões no exterior, entre depósitos em contas, diamantes e quilos de ouro guardados em cofres.

É aí que as imagens se fundem... e a gente se dá conta da gravidade do que está ocorrendo no Rio e no país.

A corrupção na política, o crescimento da criminalidade e a violência urbana caminham juntas. A corrupção não é apenas um crime de desvio de verbas públicas que enriquece o bolso de alguns, é um crime violento que torna a população refém do submundo. A criminalidade se espalhou no Rio nas três esferas do Poder assim como nos morros.

A Cidade Maravilhosa ao longo dos anos foi entregue aos bicheiros e traficantes que agora lutam e se matam pelo poder, a fim de galgarem status e reconhecimento na criminalidade nacional e... internacional. Em algumas regiões, os médicos estão se tornando especialistas em ferimentos à bala, como se fossem médicos de guerra.

Uma guerra que ocorre longe da Síria e da Faixa de Gaza, em uma das cidades mais visitadas pelos turistas e palco de grandes eventos como as Olimpíadas e o Rock in Rio, onde ao invés do desfile das escolas de samba, nos últimos dias, assiste perplexa ao desfile dos tanques do Exército. A cidade cujo asfalto está manchado com o sangue de mais de cem policiais, só neste ano, que - corajosos - enfrentam diariamente traficantes e bandidos, numa luta desigual. Quando vestem a farda, eles só contam com a proteção de Deus e a oração de seus familiares.

A corrupção consegue até isso. Acabar com os recursos para armar a polícia. O combate ao crime e ao tráfico exige armas e equipamentos de última geração, para que a batalha seja justa, de igual para igual.

O crime organizado hoje possui armas de alto poder letal, dinheiro para comprar pessoas em todas as esferas do Poder e inteligência, por isso ele é organizado e está sempre à frente de qualquer ação policial.

E para piorar o caos, a maior emissora do país leva ao ar, em horário nobre, uma novela que glamouriza o tráfico, mostrando a personagem central rindo deitada em pilhas de dinheiro, fazendo selfies empunhando armas como se fossem brinquedos, participando "empoderada" em camarote vip de bailes funk com um bando de gente dançando erguendo fuzis, porque ela é Bibi Perigosa, a mulher do chefe do tráfico. Olha que lindo!!!... Essas imagens entram em milhares de lares todas as noites. A Rede Globo omite o horror das pessoas que vivem nos morros cariocas cercadas e subjugadas pelos traficantes, que são obrigadas a comprar nas vendinhas que eles indicam, pagam pedágio para subir o morro e chegar em casa, choram pelas crianças baleadas nas escolas ou antes de nascer,  tomam tranquilizantes para poder dormir em meio aos constantes tiroteios que atingem suas casas e tiram a sua paz... e rezam todos os dias para um dia poder sair dali.

Nos últimos dias, o trabalho conjunto do Governo do Rio com o Ministro da Defesa e as Forças Armadas, é o de enxugar gelo, não nos iludamos. O crime já se enraizou não apenas na Rocinha como em outros morros. A ajuda chegou tarde demais!!! A ausência de um poder firme, de uma autoridade responsável e presente, deu margem a isso. Quando o Governo se ausenta ou é conivente com o tráfico e a marginalidade, nesse espaço o Poder Paralelo se instala e propaga.

Esse foi o resultado da desastrada política de Segurança Pública de Sergio Cabral e Beltrame, que não passou de um carro-alegórico para reeleger o Governador. A chegada das UPPs sem antes prender os bandidos, contribuiu para espalhar e fortalecer o tráfico e fez surgir as milícias, para achacar e acuar ainda mais a população. Os traficantes que fugiram e foram filmados em fuga pelos helicópteros das redes de televisão se amoitaram na Baixada Fluminense, onde a criminalidade cresceu assustadoramente. Nunca foi verdade que as UPPs acabariam com o tráfico de drogas e armas, até mesmo porque os traficantes continuaram no comando e se fortalecendo, circulando livremente com fuzis nas mãos diante da "polícia pacificadora". A única política de segurança eficaz, é a que prende os bandidos e corta o dinheiro do tráfico.

Agora Inês é morta. Eles tiveram tempo para se organizar em células. Prende-se ou mata-se o líder, imediatamente surge outro para ocupar o seu lugar. Nem as Forças Armadas são capazes de devolver ao Estado o controle de áreas dominadas pela criminalidade. Isso exige uma Política de Segurança Pública séria, sem improvisações, juntamente com um Sistema Prisional eficaz, que coíba chefes do tráfico e quadrilhas orquestrarem crimes de dentro das cadeias, ainda mais desde presídios tidos como de segurança máxima. Pelamor!!!

Os cariocas estão pagando um preço alto pela pilhagem aos cofres públicos e a má gestão do Rio nos últimos Governos, desde a era Brizola. Aliás, não apenas os cariocas... os brasileiros também estão pagando um preço alto, desde a era Sarney...

Vivemos a falência e a desmoralização da política feita na base do compadrismo e da troca de favores ao longo de décadas. 
É preciso fazer a faxina e recomeçar do zero, senão sucumbiremos!!! 

O poder só emanará do povo, quando entenderem que consciência política é uma questão de sobrevivência. (JR.MESQUITA)





Shadow/Mariasun Montañés


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