domingo, 22 de outubro de 2017




BULLYING: O QUE ESTÁ HAVENDO COM AS CRIANÇAS E OS JOVENS?




Era uma vez um cisne que nasceu em uma família de patos. Era gordo e desengonçado, muito diferente de seus fofos e engraçadinhos irmãos.  Em razão disso, passou a ser rejeitado e hostilizado por sua família e outras aves. Um dia, cansado de ser humilhado, decidiu ir embora. Por onde passava a história se repetia: era mal recebido e humilhado. Veio o inverno, chegou a primavera, e ele continuava solitário. Até que ao ir nadar em um lago onde nadavam outros cisnes, não passou despercebido por sua graça e beleza. Daquele dia em diante, passou a ser admirado como o mais belo cisne do lago.

Essa é a história do Patinho Feio, escrita por Hans Christian Andersen. Ela conversa com a criança, indo ao encontro do universo dos pequeninos. Quem imagina que o mundo infantil é colorido, não consegue ver que nele habitam instintos, conflitos, dúvidas, maldades, capazes de distorcer e desbotar as cores do seu pequeno mundo.

Todos algum dia, em algum momento, nos sentimos como o Patinho Feio: abandonados, criticados, expostos, incompreendidos, mal amados, solitários.

Sair do aconchego do lar para ir à escola, por vezes, pode ser um processo doloroso. As crianças, desde que o mundo é mundo, podem se cruéis e sádicas em suas brincadeiras de mau gosto, gozações e apelidos que criam para os coleguinhas mais tímidos, gordos, estranhos, diferentes. Nem sempre há o revide, a resposta à altura ou a reclamação expressa, porque geralmente isso é feito em grupo, e o isolamento passa a ser a melhor defesa. Mas é observável, em especial pelos professores.

A história do Patinho Feio na vida real traduz a angústia infantil: ele sofre, e ao mesmo tempo sente, que ninguém pode fazer nada por ele.

Atravessar a ponte do mundo infantil para a adolescência nem sempre é fácil. Quantos sentimentos podem estar guardados em segredo, nesse momento de transição tão importante da vida!!!

A forma de compensação muitas vezes é encontrada nos estudos. Por trás daquele que sofre bullying, pode haver um aluno exemplar com boas notas, disciplinado, atento às aulas, fazendo um esforço hercúleo para ser admirado e notado pelos professores, no entanto, com uma grande dificuldade em se enturmar e fazer amigos, o que no fundo ele mais gostaria.

Quando isso persiste, e o jovem se torna vítima e prisioneiro desse ciclo, sem encontrar saída, seu ego imaturo trava uma luta constante com humores e emoções instintivas e primitivas. O cisne se sente sufocar pelo patinho. A depressão se instala, levando - em caso extremos - ao suicídio ou a ataques premeditados e imprevisíveis dirigidos àqueles que culpa por sua dor e sofrimento.


O tema é delicado. O bullying nas escolas hoje é uma realidade. Aliás, ele sempre existiu. Quem não se lembra do “bolacha”, “perna fina”, “cabeção”, “cascão”, “orelhudo”?!? Mas, no passado, aparentemente, as crianças e adolescentes davam conta de seus desafetos e, por vezes, levavam na brincadeira, o que acabava esvaziando o deboche.

Então, o que mudou de lá pra cá???

A grande mudança está na educação contemporânea, no papel da disciplina, dos limites e da punição.

Nos últimos anos passou-se a adotar o conceito de que a criança não pode ser castigada, ela tem que ser livre para criar, o que muitos pais e educadores entendem por deixar fazer o que bem entenda. Nem estudar ou esforçar-se para tirar boas notas ela precisa mais, pois será promovida automaticamente. Os adultos se sentem coibidos de disciplinar e colocar limites às crianças e aos jovens pois, pela nova política educacional, isso causaria traumas, prejudicando o seu desenvolvimento.

Ocorre que, o comportamento daquele que está sendo fiscalizado e pode ser punido, difere muito daquele que não está sujeito a nenhum tipo de castigo ou perda por sua má conduta.

É sabido que as crianças e adolescentes necessitam de modelos positivos, de alguém que lhes mostre os limites entre o certo e o errado, o respeito ao próximo, e isso é tarefa que cabe aos adultos que o cercam, pais e educadores. Somente estes poderão ajudá-los a se tornarem cisnes.

O bullying sempre existiu, mas antes havia um código de ética claro, que se ultrapassado resultaria em castigo e em um pedido de desculpas àquele a quem se magoou ou com quem se brigou. Os pais poderiam ser chamados à escola pelo mau comportamento do filho, que se reincidente seria suspenso; hoje, os professores temem tomar atitudes como essa, por receio da reação dos pais e dos próprios alunos.

Assim é que se um pai vê o seu filho chamando o amiguinho de “mariquinha” e ele ri junto, sem fazer nada para coibir, estará reforçando o comportamento do filho.

O que antes ficava restrito ao ambiente da escola, agora tem o poder de ser replicado nas redes sociais. Infelizmente, a tecnologia acaba potencializando o poder devastador das palavras.

Nas redes sociais, todos se tornam valentes. Um comentário ganha em questão de segundos dezenas de curtidas e compartilhamentos. Antigamente a opinião sobre o coleguinha de classe era partilhado no boca a boca, não havia a exposição, tudo era mais restrito e reservado. E, por isso mesmo, era mais fácil de lidar e controlar.

Some-se a isso, a dificuldade das crianças e dos jovens, que acham que tudo podem, de lidarem hoje com as frustrações, os “nãos”, os conflitos inerentes ao crescimento. O mundo virtual muitas vezes torna-se um refúgio, sendo nessa atividade solitária que ele começa a passar mais tempo. É aí que ele se sente forte, zombando de quem não é seu amigo ou aparentando ser alguém que no fundo não é, relacionando-se com pessoas que zombam e dizem ser o que também não são. Assim é que, quando confrontados com a realidade, alguns sucumbem.

Para lidar com a angústia, tornar-se um cisne, há um caminho a ser percorrido, como ensina o Patinho Feio. Porém, em meio a isso, por vezes surgem atalhos, escolhas que acabam se mostrando perigosas, arriscadas e destrutivas. É o momento em que o patinho, por exemplo, dá lugar à Baleia Azul. Um jogo virtual que foca na desesperança dos jovens e até de crianças, para levar à automutilação e ao suicídio.

O número de suicídios e agressões entre os jovens na faixa dos 15 aos 19 anos cresce de forma alarmante no mundo. A dor é o alerta.

Eles têm uma visão patológica e distorcida do mundo e de si mesmos. Passam a ser dominados pela desesperança, incapacidade em resolver problemas, baixa auto estima. Isso leva ao isolamento, distúrbios do sono, sentimentos de inferioridade, medo, ansiedade e afastamento da vida familiar e social. O que pode ser entendido pelos pais como mudanças no comportamento em razão da idade, na verdade pode ser um quadro de depressão profunda, cujo alívio por vezes é encontrado no álcool, nas drogas, na Baleia Azul, na automutilação ou na falsa ideia de que eliminando seu desafeto encontrará a libertação.

Não há quem não tenha ficado estarrecido com a tragédia ocorrida nesta semana no Colégio Goyases, em Goiânia, quando um aluno de 14 anos, usando a arma da mãe, atirou na sala de aula ferindo quatro colegas e matando  mais dois, sendo um deles, seu único amigo.

Quando o jovem comunica a alguém do seu círculo que sua vida não tem sentido e que sua morte seria um alívio para todos”, ou que Fulano merece morrer pelo que disse e mal que causou”, é preciso prestar atenção ao real significado dessas palavras. Muitas vezes, são um grito de socorro.

Esse jovem necessita de ajuda e acompanhamento. É preciso resgatar o Patinho Feio antes que ele se afogue.

Pais e educadores podem falhar, mas na maioria das vezes acertam. Eles são o fio condutor capazes de mostrar, que apesar de tudo o que os outros possam pensar, o que cada um se torna e é, depende unicamente de si mesmo. Ninguém pode ensinar autoestima, amor próprio, mas pode estender a mão e transmitir confiança e admiração ao outro, valorizando as diferenças que o individualizam, imprimem a sua identidade e faz com que as pessoas se sintam especiais.

O bullying é uma realidade. Ele deve ser combatido, ainda mais porque hoje se estende além dos muros do colégio. A educação precisa cada vez mais ser pautada pelo respeito ao próximo, ética e disciplina. Quando isso falha, a Baleia Azul e outros demônios  ocupam o espaço, traçando tragédias.

O Patinho Feio sempre fará parte da infância e da adolescência, na promessa de aprendizado, superação, beleza e descoberta de si mesmo. A lição que marca a sua jornada e processo de transformação, é o esforço e a força de vontade de não se entregar diante das mágoas e dos próprios medos e, seguir adiante em busca do seu lugar. É necessário enfrentar a dor, a rejeição, os temores, as noite escuras e as estações da alma para alcançar o belo que há em nós. Só assim será possível renascer na forma de um cisne.

Afinal, isso nada mais é que crescimento... 


Quando se chega à vida adulta,
muitos desses dramas são esquecidos, para dar lugar ao grande desafio que é o viver e ser responsável pelo próprio destino... 




Segue a história de Amanda Todd, ela  tinha 15 anos e era canadense. Antes de morrer, ela postou este vídeo:




Shadow/Mariasun Montañés



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