segunda-feira, 12 de abril de 2010




RIO DE JANEIRO, GOSTO DE VOCÊ



Lena sempre foi amante da natureza, paulistana mas carioca de coração. Pessoa inquieta e versátil, que sempre viu no Tio Zuzu uma espécie de amigo-guru pra todas as horas. Ele, jornalista conceituado, hoje desfruta da aposentadoria, sem, no entanto, deixar de fazer o que mais gosta: escrever. Pra quem possa pensar que está desatualizado, ou o subestime em razão das rugas e dos cabelos brancos, só tenho a dizer que o twitter é o seu alimento e o blog, BLOGANDO COM O TIO ZUZU, é o filho que ele vê crescer a cada dia. Lena sempre aparece pra twittar ou palpitar sobre os seus posts.


Ela mora no agito de São Paulo, ele já fez parte disso, agora voltou para as suas raízes. Mora no Rio de Janeiro, ao lado do Parque da Tijuca, numa casa lá no alto da serra, cercada de verde, de onde se pode avistar o mar e até um pequeno ribeirão; quando em silêncio é possível avistar animais nativos ou num passeio pelo jardim colher frutos silvestres. A algum tempo, os vizinhos começaram a migrar para a Barra da Tijuca, colocando à venda suas suntuosas casas (a dele sempre foi uma das mais modestas) em busca de melhor infraestrutura como comércio, transporte, segurança. Foi assim que Tio Zuzu tornou-se um verdadeiro ermitão, distante de tudo e de todos, sem contar que não sai dali por nada, enquanto Lena não vê a hora de se bandear por lá sempre que sobra um tempinho.

Foi o que aconteceu agora, na Páscoa. O que era para ser um feriado, acabou se prolongando por mais uma semana.


Em todas as épocas do ano, ali se registram as menores temperaturas da cidade do Rio, e com o início da semana, vieram também os primeiros pingos de chuva.

“Águas de março em abril, nada melhor pra esfriar a cabeça!”, Lena pensou. Deliciou-se com o cheiro de mato, com a chuva caindo no telhado, com o frescor que a natureza nos traz.

Não tardou para aqueles tímidos pingos de água se tornassem uma enorme tromba d’água. As horas foram passando, sem saber precisar o tempo, quando ela se deu conta o ribeirão ao lado da casa, ganhou volume, força, correnteza e uma cor amarronzada, assumindo os contornos de uma densa cachoeira, foi inevitável não lembrar de Tom Jobim....

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

é peroba do campo, é o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira
é madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo, é o queira ou não queira

Ah, Tom, a natureza primitiva que você descreve em Águas de Março! Lena conseguia ver através da janela molhada o pau, a pedra, o toco, sentir o cheiro da peroba do campo, do nó da madeira, foi o dia, veio a noite, era impossível não deixar de admirar tudo que a natureza é capaz de dar.


Enquanto isso Tio Zuzu, naquele entardecer, acompanhava estarrecido as primeiras fotos e vídeos dos alagamentos na cidade do Rio, entrelaçando-se aos pensamentos de Lena que faziam ciranda com caingá, candeia, Matita Pereira.

“é tão lindo tudo que a natureza nos dá sem a intervenção ou ação do homem...”

Tio Zuzu permaneceu em vigília durante a noite e madrugada atualizando seu blog: Túnel Rebouças interditado, Lagoa Rodrigo de Freitas invade a avenida Epitácio Pessoa, carros são arrastados pelas águas nas principais avenidas do Rio, Defesa Civil em alerta, pessoas são resgatadas de suas casas pelos Bombeiros, Ponte Rio-Niterói fechada, desmoronamento e soterramento na Rocinha, no Morro da Mangueira, dos Prazeres, do Beltrão....

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã


Lena nunca vira nada parecido, apesar de São Paulo também ter sofrido este ano, ou melhor, sofrer todos os anos com as chuvas, as enchentes e os alagamentos. São as águas de março em abril, pensava ela. O projeto da casa desfeito, feito papel, ladeira abaixo; os corpos soterrados sob a lama (quantos seriam?); a água represada no concreto transformada em lama, é um resto de nada, de carros, de casas e de pessoas atoladas no asfalto, na luz dessa triste manhã de abril. Ela e Tio Zuzu tomaram o café, ao lado do laptop, em respeitoso silêncio, cada um perdido em seus pensamentos e divagações.

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma ponta é um ponto Lena

Olhava angustiada para tudo ao redor. Do Alto da Boa Vista, lá estava a Cidade Maravilhosa, cartão postal do Brasil, coberta de lama, de dor, de lágrimas. Será o fundo do poço? O fim do caminho? Abril de 2012 (2010) não é coisa só da ficção? Na busca dessas respostas, na home page, lá estava o rosto, o desgosto daqueles que perderam tudo.

É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira

Não, não era o fundo do poço, ele ainda estava por vir no Morro do Bumba, em Niterói. Não o Bumba Meu Boi, ao qual Tom poderia ter feito referência juntamente com Caingá, Candeia e Matita Pereira. Ali a natureza e o folclore perderam para a intervenção do homem e o descaso político. Ah, a natureza perdida, modificada e mortificada num aterro sanitário! Casas, Igreja, creche, escola, um bairro inteiro construído e, o que é pior(!), urbanizado pelo pelo poder público sobre um lixão, transformado agora numa enorme cratera, da qual transborda um fétido e escuro chorume, ao invés do pulsar da vida! Como isso é possível?, Lena lamentava.

Tio Zuzu não suportou ser apenas um mero espectador, sentiu que também era parte daquilo.

Com a ajuda de Lena começou a separar alimentos da despensa, cobertores e roupas, ensacou tudo, pôs o laptop debaixo do braço, não esqueceu da máquina fotográfica (coisa de jornalista), e saiu com a sua picape anos 80 recolhendo pelo caminho roupas, alimentos não perecíveis até chegar ao Posto de Arrecadação de ajuda aos desabrigados mais próximo. Não tardou, outros mais se juntaram a eles. No trajeto documentou cada detalhe do que ia encontrando pela frente e postava no blog. Novos comentaristas apareceram contando suas histórias e desventuras, parabenizando-o, opinando, desabafando,... Tio Zuzu tentava levar alento, informação e respostas em cada post, enquanto passava a integrar a equipe de mutirão daquele modesto galpão (juntamente com a Lena), separando e ensacando as doações.

Em determinado momento ela parou, olhando ao redor para aquela enorme quantidade de roupas e mantimentos vindas de todos os lugares e partes do país. Ficou abismada com o que via. Foi quando se deteve para observar aquele homem de óculos e cabelos grisalhos já ralos, incansável, parando apenas para tomar um gole de água, organizando a distribuição de tudo quanto ali chegava, como se fossem dádivas caídas do céu. Era sem dúvida um líder. Quanto o admirava! Não tinha como não sentir um nó na garganta ou deixar de emocionar-se. Seu coração ficava apertado ao pensar naquele que sempre a motivara e incentivara a viver seus sonhos mais absurdos e desatinadas loucuras. Todo mundo deveria ter um tio como ele.

Lena não tardou a fazer amigos por lá. Era incrível! Pessoas vindas da Barra, do Leme, Botafogo, Macaé, Juiz de Fora, Vitória e...até de São Paulo.

Quanto tempo, horas, dias ficou ali?

Difícil dizer. O que se sabe é que Tio Zuzu (o ermitão) ainda continua acampado por lá, sem deixar de convocar voluntários e doações por meio do seu twitter e blog. Lena precisou voltar neste final de semana para São Paulo, em razão do trabalho. Subiu no avião sentindo-se diferente, algo havia mudado dentro dela, o dia não estava resplandescente como em outras ocasiões, mesmo assim, lançou um último olhar à cidade como a dizer-lhe até breve, e sussurrou baixinho: Rio de Janeiro, gosto de você!, mergulhando nas lembranças dos acontecimentos dos últimos dias.

O avião decolou. Pôs-se a olhar pela janela enquanto ele subia cada vez mais alto, lá estavam casas, um quadrado verde, um pedaço de terra avermelhada, o mar revolto por trás de um véu de neblina cada vez mais denso.


São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

Tio Zuzu e pessoas como ele, são a promessa de vida, pensou enquanto uma aborrecida sonolência se apossava dela, fruto do cansaço.




Esta é a minha homenagem à Maravilhosa Cidade do Rio de Janeiro hoje tão arrasada e devastada pelas águas e pelo descaso de seus governantes. Pena que em cidades como o Rio, São Paulo e outras tantas com graves problemas de saneamento básico, construções irregulares em áreas de risco, a água da chuva traga a cada ano, caos, enchentes e morte. Aliás, disso a chuva não tem a menor culpa. A proteção da população está (ou ao menos, deveria estar) a cargo de seus dirigentes, urbanistas e engenheiros.

Nas Águas de Março de Tom Jobim há um apego a elementos variados, o desejo de fazer o inventário de um mundo já meio fantástico e distante do homem urbano, para quem saci e índio têm algo em comum: a inexistência ou serem coisas do passado. Diante do que, não há como deixar de pensar no preço pago pelo homem moderno ao afastar-se de suas raízes mais primitivas, da natureza, do ciclo natural do dia e da noite, que são o oposto do projeto, do cálculo, do "carro enguiçado" na lama, do tijolo chegando, do resto de mato antes mata frondosa. Tudo isso banhado pelas águas de março, que fecham o verão.

Nesse espaço dividido entre natureza, cultura e desenvolvimento. Natural nada mais é do que aquilo que não tem calçamento ou veículos atolados, e que, ao mesmo tempo, vai sendo modificado pela ação do homem. É um mundo intermediário, de lama e de projeto, onde a chuva deveria cair como uma bênção, e o anzol representasse apenas a boa pesca em razão do maior volume de água, e não a destruição, morte e devastação.


Creio que a lição a ser internalizada, é a necessidade de respeitar a natureza, o ciclo natural, afinal, como sabiamente canta Tom, só é possível começar de fato a construção da casa ("é o tijolo chegando") quando cessarem as chuvas. Não é possível desafiar a natureza. Somente com a terra seca e o outono, uma nova vida poderá lançar as bases, para que as águas de março, agora de abril, não sejam promessa de morte mas de vida. Vida que começa com o espírito de solidariedade, numa corrente de união que tudo pode e supera.


Até o momento foram registrados 229 mortos no Rio de Janeiro, 100 pessoas estão desaparecidas, sendo que o total de desabrigados e desalojados passa de 11 mil.


Shadow/Mariasun Montañés




Participe de mais essa Campanha, agora para ajudar aos desabrigados do Rio de Janeiro, seja uma promessa de vida você também:
O QUE DOAR
Alimentos não perecíveis - Água mineral - Agasalhos e roupas em geral - Roupas de cama, toalhas de banho e colchonetes - Material de higiene pessoal, como sabonetes e pasta de dentes - Material de primeiros socorros - Material de limpeza, como vassoura, sabão em pó, rodo, pano de chão, detergente - Fraldas descartáveis - Brinquedos e livros


DOAÇÕES EM DINHEIRO
Banco do Brasil - SOS Rio Agência: 2234-9 Conta corrente: 10.000-5 – em nome da Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil
Banco do Brasil – Viva Rio Ag.: 1769-8C/c.: 411396-9CNPJ: 00343941/0001-28
Banco do Brasil - SOS Niterói Agência: 4767-8 Conta corrente: 50.000-3 - em nome da Prefeitura Municipal de Niterói

PONTOS DE DOAÇÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E DO BRASIL
Banco do Brasil – As doações de alimentos não perecíveis, água potável, material de higiene e de limpeza já estão sendo recebidas nas agências do Banco do Brasil no Estado do Rio
Grupo Pão de Açúcar - As lojas no estado do Rio de Janeiro - ABC CompreBem, Sendas, Extra Hipermercados, Assaí e Pão de Açúcar – estão recebendo alimentos não perecíveis, roupas e cobertores. A campanha cai até o dia 16 de abril. Todo material arrecadado será entregue para a Defesa Civil
Wal Mart - A rede montou postos de arrecadação para as vítimas afetadas pelas chuvas no estado do Rio em todos os hipermercados, instalados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. As lojas estão recolhendo alimentos, água, material de limpeza, agasalhos e cobertores. Todo material arrecadado será destinado à Defesa Civil


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