quarta-feira, 7 de março de 2012




A VIDA DA GENTE




O outono se aproxima. Mais um ano, Maria Rita olha através da janela para ver a Quaresmeira que fica na esquina de sua casa. - Ela já floriu!, constata. Em breve aquelas flores arroxeadas começarão a cair, formando um tapete de pétalas ao seu redor.

- As flores desabrocham para continuar a viver, pois reter é perecer. Naquele momento, não poderia ser mais verdadeiro o pensamento de Khalil Gibran.

Maria Rita está mudando, florindo como aquela Quaresmeira. Hoje, não é a mesma de um ano, um mês, uma semana atrás, está mais introspectiva, mais antenada consigo mesma. Quem pensa que ela está fissurada no BBB se engana, cansou. - Perda de tempo!, costuma dizer de forma breve, aos comentaristas do blog que querem saber sua opinião sobre este ou aquele participante.


Se há uma obra na televisão que mereceu sua atenção nos últimos tempos, foi A Vida da Gente, o que talvez se deva ao seu atual estado de espírito. Ao chegar em casa, depois do trabalho, a primeira coisa que fez nos últimos meses foi ligar a TV para acompanhar a saga de Ana (Fernanda Vasconcellos), Rodrigo (Rafael Cardoso) e Manuela (Marjorie Estiano).

Capítulo a capítulo, a obra de Lícia Manzo, foi aos poucos ganhando seu interesse numa crescente cumplicidade com os personagens; eles que com suas virtudes e defeitos, dúvidas e certezas acabaram construindo uma ponte entre a tela de LCD e o sofá de sua sala.
Logo no início ficou imaginando como seria permanecer cinco anos em coma, longe, ausente, distante e alheia aos acontecimentos ao redor.

E sua primeira constatação, foi perceber que a vida segue, não importa o que aconteça; ela não te espera, não tem pena, ela só continua; o que certamente a marcou de forma indelével.
 
Maria Rita é uma sonhadora, assim como o eram as personagens Ana, Manu e tantas outras o são na vida real. Busca o seu lugar ao lado do Kaká, dos amigos, da família, no trabalho,... sem fazer idéia da dimensão e do significado real disso.

Isso é transformar-se. E transformar é saber usar a vida para conhecer a natureza humana em suas virtudes e fraquezas. Nesse contexto não existe a perfeição. Aliás, foi essa a temática da novela do seu início ao fim, fechando um ciclo incomparável na teledramaturgia brasileira. Na história não havia vilões ou mocinhos, o herói e o seu antagonista, mas pessoas com suas dificuldades e idiossincrasias.

A Vida da Gente foi marcada pela simplicidade, mas sem deixar de ser intensa e dramática em vários momentos, pois a vida é feito disso. A novela mostrou que não é preciso lançar mão de tramas mirabolantes, da perua histérica, do gay afetado, inventar mistérios, crimes, vilões maquiavélicos ou mocinhas sofredoras para prender a atenção do público. Contentou-se em retratar situações que poderiam acontecer com qualquer um de nós. Afinal, na vida real, ou melhor, na vida da gente, não há mocinhos ou vilões, todos estão sujeitos a errar e acertar, aliás, na maioria das vezes, as pessoas erram achando que estão fazendo o seu melhor, tentando não magoar, não machucar, buscando quase sempre acertar. Isso é aprendizado!

O texto refinado, bem cuidado e o ritmo de seriado foram a marca de A Vida da Gente, ao contar uma história capaz de tocar o coração do público, sob a perspectiva de que todos têm uma história que poderia virar novela. Maria Rita que o diga!

Lícia Manzo foi a responsável por diálogos primorosos, catárticos que decantaram e escancararam sentimentos, conflitos, angústias, dúvidas, sentando os personagens no sofá da sala, e fazendo do público ouvinte e confidente, numa época em que falar ou expor as emoções parece ser cada vez mais difícil.

Pais são estranhos aos seus filhos, filhos aos pais, cada qual no seu mundo sem dividir sua história, seu passado, suas angústias, sua experiência numa realidade cada vez mais individualista e imediatista; o diálogo interno ou o ato de falar consigo mesmo, muitas vezes acabam sendo canalizados para as redes sociais. Uma das principais causas da depressão, angústia e solidão é o alheamento de si e do outro. Daí outra constatação: você só encontra a si mesmo e ao outro quando dialoga e expõe aquilo que sente. Rir, chorar, errar, desculpar, perdoar tem muito mais impacto sobre nós mesmos do que calar, se ocultar ou ser alguém que não se é no twitter.

Os personagens mostraram como isso pode ser catártico! Riram, choraram, erraram, se omitiram, se revelaram a partir das próprias contradições, emoções e sentimentos. Aliás, a sutileza que os atores imprimiram a cada um deles, foi algo memorável. O desempenho do elenco como um todo foi primoroso.
A delicadeza que permeou a relação das duas irmãs, o triângulo amoroso vivido entre Rodrigo, Ana e Manu, marcado pela paixão juvenil nunca concretizada da ex-tenista, se contrapondo ao companheirismo e relacionamento construído entre Manu e Rodrigo, foi conduzido com maestria e catalisado na emblemática Carta de Rodrigo a Ana:
“Dizem que o amor acaba, termina. Mas não é verdade. Nada acaba, tudo muda, transforma… Depois da nossa fuga de casa, vem o nosso medo, vem a nossa coragem, vem o salto sem rede… Vi você indo embora, sendo levada de diferentes formas, tantas e tantas vezes. E depois vi você voltando… O que tinha sido vivido, o que tinha ficado para trás, era parte de uma mesma história, de uma mesma vida, de um mesmo sentimento… o amor. E foi, então, que eu vi nós dois juntos rompendo fronteiras”.
A doença da pequena Júlia (Jesuela Moro), metaforicamente, veio para curar a todos. Estava selada a paz para seguir em frente, mesmo quando tudo parecia conspirar contra. Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança. Essa a lição a ser aprendida!
Dona Iná (Nicete Bruno) com seus bailes em Gramado, trouxe o frescor da terceira idade ao lado de seu companheiro Laudelino (Stênio Garcia) e amigos. As alegrias de um relacionamento na maturidade foram reveladas a cada capítulo, mostrando que não há fronteiras para viver um grande amor. Amar é bom demais, e, para isso, não importa a idade.

Impossível não se admirar com a experiência, sabedoria, serenidade de quem muito viveu e quer continuar vivendo intensamente, mesmo sabendo que já percorreu mais da metade de sua jornada. Ao final do último capítulo, o discurso de Dona Iná sobre o tempo foi de arrepiar e emocionar, uma homenagem ao tempo, tema de abertura da novela, criando uma introdução para Oração ao Tempo com Maria Gadú, enquanto flashes dos personagens iam passando, sem necessariamente terem um desfecho ou um final, como acontece na vida da gente.



Foram mostrados, cada um, iniciando uma nova fase. Nanda (Maria Eduarda) e a possibilidade de se abrir para um novo amor; Angela (Silvia Massari) administrando a vida de Jonas (Paulo Betti) sem que ele tenha mudado seu jeito de ser; Cris (Regiane Alves) voltando a ser personal trainer na esperança de encontrar um marido velho e rico; Marcos (Ângelo Antonio) acompanhando a filha aos treinos de natação em busca de uma mulher provedora; Celina (Leona Cavali) iniciando o sonho de ser mãe ao lado de Lourenço (Leornado Medeiros) e Eva (Beatriz Nogueira) a mesma mulher intransigente, rancorosa e solitária, por ser incapaz de aprender com a vida. Aqueles que não aprendem com o passado, estão condenados a repetí-lo. Essa é a mensagem contundente.
Assim é a vida da gente....



"Quem teve o privilégio de viver muito sabe que o tempo é um mestre muito caprichoso. Às vezes as suas lições são tão repentinas que quase nos afogam. Outras vezes elas se depositam devagar, como a conta gotas, diante da avidez de nossas perguntas. E por isso, quem teve o privilégio de viver muito tempo, aprende a olhar com serenidade o turbilhão da vida. Amores ardentes se extinguem, urgências se acalmam, passos ágeis alentam. Enfim, tudo muda. Muda o amor, mudam as pessoas, muda a família, só o tempo permanece do mesmo modo, sempre passando... E é por isso que eu queria esta noite, erguer um brinde a ele, que esculpiu no meu rosto e na minha alma a sua marca, da qual eu tanto me orgulho. Então, ao tempo...'' (Da. Iná, personagem de Nicete Bruno)



Shadow/Mariasun Montañes


Licença Creative CommonsO trabalho A VIDA DA GENTE de MARIASUN MONTAÑÉS foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.



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