quarta-feira, 21 de janeiro de 2015





VERÃO, SOL, SECA E APAGÃO




Verão, férias, areia, praia, sol, mar... isso não poderia faltar no janeiro da minha infância.

As festas de fim de ano passavam e, lá estava ele, separado apenas por algumas curvas da Serra do Mar, pronto para ser usufruído, conquistado.

Andar na praia, pisar na areia, sentir a água roçando nos pés, em ondas suaves, num ir e vir, convidando para um mergulho...

Inúmeros foram os castelos de areia erguidos ali, quase sempre derrubados por pequenas marolinhas, que pareciam incomodadas ao encontrarem diante de si um obstáculo, uma fortaleza, não tão forte assim.

Incontáveis chegaram a ser também as atividades: o frescobol, o vôlei improvisado e até o futebol na areia jogado naquele tempo sem técnica, sem técnico, sem habilidade, sem noção, masssss.... com muito riso, caldo e diversão.

A temperatura era sempre agradável. O sol suportável, tendo a brisa do mar como aliada e, às vezes, com uma chuva suave ao final de tarde para refrescar os corpos já cansados.

Era inimaginável pensar que em tão poucos anos, devido às altas temperaturas, fosse difícil até caminhar descalço naquela mesma areia, sem queimar os pés. Onde foi parar a agradável brisa do mar que batia no rosto, e fazia a gente se sentir livre como uma pequena gaivota?

Hoje é impensável permanecer por um longo período na praia sem um verdadeiro arsenal: protetor solar, óculos escuros, boné, camiseta, chinelo, guarda sol, muito líquido, água de coco, sorvete... E para suavizar o calor, ao invés da chuva caindo no corpo (porque essa parece ter entrado em férias também), o banho rápido e econômico no chuveiro (para não sentir culpa depois pela falta de água em São Paulo), tendo o ventilador ou o ar condicionado como companheiro inseparável.

Aliás, sente-se verdadeira perplexidade ao ver na internet ou na televisão o agravamento no abastecimento de água na capital paulista e municípios vizinhos, no pior cenário de seca antes já visto, com a queda diária dos volumes de água em seus reservatórios.

A insuportável elevação das temperaturas e ar seco, muito acima do normal para o mês de janeiro nas regiões centro-oeste sul e sudeste, com a sensação térmica chegando a 50 graus ou mais em algumas cidades como o Rio de Janeiro, é a causa de desconforto, cansaço e noites mal dormidas para muitos, haja vista que o dia não refresca, não chove, não venta e a sensação de calor é maior do que a temperatura real (que já é elevada); e, pra piorar, nessas mesmas regiões, ainda existe a ameaça de apagão de energia elétrica, como o que atingiu nesta semana dez Estados e o Distrito Federal, por determinação da ONS (Operador Nacional de Serviço Elétrico), devido ao pico no consumo de energia (muito embora, agora queiram nos convencer de que foi obra do acaso ou fatalidade)

Numa reação em cadeia a crise hídrica, além de falta de água nas torneiras, começa a afetar também a distribuição de energia nas regiões mais populosas, ano a ano, mais afetadas pelas altas temperaturas. Com o nível baixo dos reservatórios as hidrelétricas não produzem energia, sem energia não é possível bombear água para a população. O caos generalizado atinge as principais cidades do país devido ao clima e ao descaso do poder público. Voltaremos a ter que tirar água de poço e a iluminar nossas noites com luz de velas e de lampião?!?

O inacreditável parece estar acontecendo rapidamente. Cenas antes somente vistas em filmes sobre o catastrofismo e o apocalipse, que no nosso imaginário pareciam pertencer apenas à ficção, hoje são parte de nossa realidade. Não, não adianta rezar para Deus pedindo chuva, como ontem sugeriu o Ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga. Essa conta é nossa, e, na parte que lhe cabe, a quem deveria governar e administrar este país!

Como deixamos isso acontecer é a pergunta que não quer calar?

Aos poucos os mananciais estão secando. Fato. Especialistas já comentam que o sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da região metropolitana de São Paulo, está irremediavelmente perdido, esgotado. Irá secar, devido à falta de chuvas e ao calor excessivo. Acabaram-se os passeios de barco na represa, a pesca, o banho refrescante em suas águas no final de semana. No lugar da água, o solo rachado e as ocupações irregulares e sem fiscalização feitas às margens dos manancial, causa da destruição da mata ciliar sem qualquer preocupação com os danos ambientais. Como isso é possível? O que está acontecendo com a cidade da garoa?!?

Um dos fatores para toda essa alteração climática nas regiões centro-oeste sul e sudeste, além da falta de planejamento do governo para evitar a crise hídrica e da ausência de políticas ambientais de preservação dos mananciais, é atribuída à degradação e ao desmatamento da Floresta Amazônica, cujas correntes de ar antes chegavam regularmente a essas regiões, na forma de “rios voadores”, mandando umidade e chuva para Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro... A cada árvore derrubada ali, esse “rio voador” vai perdendo a sua força, o seu "leito" diminui e morre. A natureza entra em desequilíbrio.

O desmatamento parece ter encontrado no clima um juiz implacável. Sem floresta não tem água, fonte vital da vida. 
Apesar de sabermos disso, a destruição da maior floresta tropical - da qual o Mundo depende para a regulação do clima no planeta - continua. Lentamente agoniza com a ocupação de madeireiras, garimpeiros, grileiros, pecuaristas, agricultores de soja... Em contrapartida, nascentes estão desaparecendo, espécies de animais são colocadas em risco, clareiras começam a surgir onde antes havia mata e frondosas árvores centenárias; o clima é afetado e a seca se estende para outras regiões por períodos cada vez mais longos: onde antes havia chuva e farta agricultura, hoje há escassez de água e a morte da lavoura e de animais.

Como já cantaram e profetizaram Sá e Guarabira, o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão....

O calor tem aumentado no planeta década a década. Segundo importantes Institutos de Pesquisa, o aquecimento global é uma realidade que tem se agravado nos últimos trinta anos, o que se deve única e exclusivamente à ação do homem, não apenas em razão do desmatamento, mas, muito também em função da emissão de gases de efeito estufa, que afetam a camada de ozônio. A temperatura tem se elevado assustadoramente nos dois hemisférios, o nível dos oceanos subiu mais de 30% entre o século XX e a última década, devido ao derretimento das calotas polares.

Chega a ser paradoxal olharmos para o céu e enviarmos sondas em busca de vida em outros planetas, enquanto consentimos e deixamos a vida morrer em nosso planeta poluindo rios e mares, destruindo e desmatando florestas e emitindo gases na atmosfera, como o dióxido de carbono, causando danos graves e irreparáveis para o nosso ecossistema. Evoluímos aqui porque as condições eram adequadas: não muito quente nem muito frio, e tínhamos água em abundância. Somos um sistema vivo que sobrevive em um ambiente específico. A vida sustenta a vida.
É um ciclo.......

À medida que a temperatura aumenta, mais gelo derrete nos polos.  O nível do mar sobe. Mais calor. Com isso, chuvas intensas aumentam em alguns lugares, alagando e arrasando cidades inteiras, enquanto a seca se intensifica em outros. A Floresta tropical Amazônica com seu cinturão verde, vital para o ciclo das chuvas,  vai dando lugar a regiões cada vez mais desérticas. O solo antes fértil, torna-se árido e impróprio para o cultivo, levando ao aumento da fome e de doenças; nascentes de rios secam, ao igual que aconteceu recentemente com a nascente do Rio São Francisco. Quem diria: a principal nascente do Rio São Francisco, o velho Chico, chegou a secar no final do ano passado!!! Se nada for feito, a certa altura, o sistema de regulação do equilíbrio do planeta parará de funcionar e o clima dará um salto, para uma nova realidade, muito mais quente. Não será o fim do mundo, mas certamente será o fim do mundo e da biodiversidade como os conhecemos.

Está acontecendo.... e rápido demais....  guerra, fome, peste e morte – os quatro cavaleiros do apocalipse criados e alimentados pelo homem. Ainda é tempo de acordar e reverter a situação na busca e investimentos em energias renováveis e em técnicas para a água de reuso; no controle da poluição de rios e mares, e, na contenção da destruição e desmatamento de florestas, em especial, da Amazônica.

Quero voltar a sentir novamente a suave brisa do mar batendo em meu rosto como nos janeiros da minha infância....


  Que o conteúdo da Carta do Ano de 2070 tenha outro teor....


Não deixemos a fonte da vida secar, cuidemos dela....



Shadow/MariasunMontañés



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