quinta-feira, 27 de maio de 2010




LOST - UM ÉPICO DO SÉCULO XXI



 
Isabela ou Bela para os mais chegados, ao contrário da prima Maria Rita, a Ritinha aquela que é fissurada no BBB (lembra?), se amarra mesmo é num bom seriado. Já foi tiete de Jornada nas Estrelas, não perdeu um só evento ou encontro com fãs da série. E dizem por aí que o seu namorado na época era tão fanático quanto ela, na avaliação de alguns, sujeito andrógeno e esquisito.

Então veio ArquivoX. Não é preciso dizer que virou fã de carteirinha da série. Em mais de uma ocasião, desejou ter sido a Scully para desvendar todos aqueles enigmas e mistérios ao lado do charmoso Mulder. No entanto, é quase certo, que ela seria mais atirada e menos cética que a personagem e que, ao seu lado, ele (Mulder) não seria tão aprumado e certinho.

Quando parecia imune a toda essa tietagem, eis que surge Lost. Foi paixão arrebatadorra logo no primeiro capítulo. Pronto! Havia sido sugada irremediavelmente para a misteriosa Ilha. Sem contar que, naquele pedaço de terra, um semideus havia caído do céu, Sawyer (Josh Holloway), parecia tão irreal quanto a ficção, mas todas as semanas ele ali estava, em sua telinha. Ah, aqueles enigmáticos e profundos olhos verdes! Mulder, coitado, não teve a menor chance.

Ao longo dos últimos seis anos, Bela, como uma náufraga, dividiu as angústias, conflitos, conquistas e tragédias com todos os
personagens, em especial, com o sedutor Sawyer. Chorou quando Charlie se sacrificou pelo grupo, prendeu a respiração quando ao término da contagem Locke não apertou o botão, desesperou-se ao ver o garoto Walt sendo levado da jangada pelos Outros e ser separado do pai, invejou o beijo ardente de Sawyer em Kate (e como invejou!!!), ficou desorientada quando o grupo se separou e viajou para diferentes épocas; seu coração ficou em mil pedaços quando Sun e Jin morreram de mãos dadas, após terem vencido tantos obstáculos... Cada capítulo era sagrado, ficava a semana inteira à espera do próximo. Ai de quem ousasse interrromper aqueles cinquenta minutos tão especiais!

Ontem às vinte horas em ponto sintonizou o AXN, não sem antes montar um verdadeiro acampamento na sala: travesseiro, cobertor, suco, salgadinho. Tudo pronto, para não perder nenhum lance dos momentos finais.


Foi com lágrimas que ela se despediu de Lost.

Quem é que nunca se sentiu perdido ou desejou estar em um outro lugar para recomeçar?


Até que ponto a ilha desconhecida com todos os seus enigmas e quebra-cabeças está distante dos desafios do nosso cotidiano?


Bela sentiu, desde o início, uma grande identificação com os personagens em todas as suas mazelas. Cada um com os seus demônios internos e o seu jeito solitário de ser, tal como os dela. Jack, Kate, Locke, Hurley,... eram gente como a gente. Nem mocinhos nem vilões, nem covardes nem heróis, nem anjos nem demônios, apenas pessoas tentando sobreviver diante das adversidades, aprendendo a viver, a partilhar, a dividir, a transcender.

A cada nova temporada Isabela foi percebendo que independente das escolhas feitas ou dos caminhos escolhidos, são os erros e os acertos que ajudam a dizer quem de fato somos.


E se fosse eu naquela Ilha, o que faria?, Isabela se perguntava.


Houve momentos na vida onde ela se sentiu refém de si mesma, desorientada, sem rumo, assim como os sobreviventes do voo 815 Oceanic. Foi
encorajador ver que a cada temporada, os personagens iam encontrando o crescimento e aprendizado, à medida que, apesar dos medos, conflitos interiores, mistérios particulares, fragilidades e limitações pessoais, se davam conta de que não há certezas, que não importa o lugar ou o caminho, só é possível buscar a redenção, a superação, o perdão reavaliando os próprios atos e o seu impacto sobre os outros; ninguém consegue fazer nada sozinho, pois tudo o que fazemos acaba afetando a vida de alguém, para o bem ou para o mal.

Esse o mistério revelado e que tanto fascinou Isabela.

Foram tantas e tão densas informações no decorrer dessas seis temporadas, que ela chegou a criar um blog, o Lost - Uma Epopéia. Este passou a ser mais um fórum de discussão sobre a série abordando diferentes temas como: a razão do existir; destino e livre arbítrio; gnosticismo; responsabilidade e liberdade individual; mitologia grega e egípcia; vida após a morte no budismo e hinduísmo; teoria da relatividade; teoria do caos; o pensamento filosófico de Rousseau, Locke e Hume, que deram nome a três personagens; a Odisséia de Homero retratada na trilha sonora; Shakespeare, fonte inspiradora da cena em que o filho mata a mãe e depois é morto pelo irmão.

Não foi tarefa fácil manter o blog atualizado durante esse período, mas foi inspirador e gratificante estar debatendo com os comentaristas tudo isso. Seus textos normalmente começavam com “Aloha” (saudação usada no Havaí onde a série foi filmada) e seus comentaristas lhe respondiam com “Namastê” (expressão utilizada pelos membros da Iniciativa Dharma). Com certeza, vai sentir falta de tudo isso!


Lost inovou, soube fugir do trivial e do senso comum. Deixou de lado o conhecido, o corriqueiro e arriscou. Esse o maior desafio proposto, discutir temas complexos e profundos com sofisticação em um seriado para a televisão, levando para o público o debate, o conhecimento, o encantamento por meio de um veículo de comunicação tido por muitos como manipulador e alienante. Não há série na tv que tenha utilizado a linguagem e a metalinguagem de maneira tão contundente e arrojada.

Mas, a grande sacada, segundo Isabela, foi jogar os personagens em mundos paralelos, em flash sideways, criando uma história a partir de outra história, que fazia parte de uma história maior.


Como teria sido a vida de cada um deles, caso o acidente não tivesse acontecido?

Não é o que a gente se pergunta muitas vezes? Como teria sido a minha vida, caso a escolha fosse outra? Ah, a esperança de poder fazer diferente!


Lost tornou isso possível ao longo da fascinante e misteriosa jornada de cada personagem, mostrando que sejam lá quais forem os caminhos trilhados, a época, o lugar, a realidade paralela em que se viva, os relacionamentos que vão sendo construídos - superadas as barreiras da língua, cultura, crenças espirituais e posturas políticas - são a chave e o testemunho da nossa redenção e transcendência. Se aprendemos a viver juntos, não morremos sozinhos. As forças que nos separam, afastam, dividem, dilaceram e isolam não são mais poderosas que aquelas que nos aproximam e nos fazem ir ao encontro do outro e da sua luz interior.

Para sobreviver e transcender todos tiveram que se unir e permanecer juntos, algo difícil de se ver no nosso dia-a-dia, onde cada pessoa parece naufragar diante da próprio
individualismo, egoísmo e necessidades. Lost soube abraçar o humano em todos nós, sem pieguice. A história dos náufragos numa Ilha esquecida no Pacífico, que perderam o rumo de suas vidas, revelou que aquele lugar não era o fim, mas o meio para se encontrarem. Bela sabe a importância da lição a ser aprendida. A nossa evolução só acontece a partir da doação, confiança, entrega, fé no próximo, embora muitas sejam as barreiras e as etapas a serem superadas para chegar à luz, o último estágio.

Que coisa maravilhosa o encontro e diálogo de Jack com o pai!


“Esse é um lugar que todos vocês criaram juntos, para que pudessem encontrar uns aos outros. A parte mais importante de sua vida foi o tempo que você passou com essas pessoas. É por isso que todos vocês estão aqui. Ninguém consegue fazê-lo sozinho, Jack. Você precisava de todos eles, e eles todos precisavam de você”. “Para quê?”. “Para se lembrarem… e seguir adiante”. Primoroso!

O coração de Isabela pulsava com a representação daquela cena, momento único e catártico. Quanta simbologia e riqueza na tela nos instantes finais! Mistério, fé, esperança, redenção e eternidade!

Se a maior certeza da vida é a finitude, quando Jack fecha os olhos na última e derradeira cena, Lost revela de modo sensível que a roda que gira é a roda da vida eterna.

Lost, sem dúvida, entrou para a galeria das séries cult.

Bela manterá o blog por mais algum tempo, na verdade a história continua, ainda há muito a comentar e ser dito.


Para preencher o vazio deixado por Lost e por Sawyer, é possível que agora ela comece a enveredar em direção ao futuro, tentando decifrar os mistérios de FlashForward.


E você, o que achou de Lost?


Shadow/Mariasun




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LOST UM ÉPICO DO SÉCULO XXI by MARIASUN MONTAÑES is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.

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