segunda-feira, 14 de julho de 2014




O LEGADO DA COPA 2014




Em meio a uma grande insatisfação popular, com manifestações fortemente reprimidas no entorno do Estádio de Itaquera, em 12 de junho iniciou a Copa do Mundo de futebol no Brasil. Show de abertura pífio, vaias à presidente Dilma e a quem mais representasse o governo que está aí e aos gastos desmedidos com o megaevento.

Em meio ao verde e amarelo do público que pagou e caro para assistir aos jogos, um misto de torpor e desejo de que o tempo parasse ali, naquele momento em que o hino era cantado a plenos pulmões e o mundo olhava com encantamento para este país.

O grito de gol, a catarse coletiva tão esperada, o oportunismo sonhado pelos políticos de plantão em ano eleitoral para superar o escândalo dos mensaleiros, a ruína da Petrobrás maior empresa do país e os desmandos com o dinheiro público na construção dos Estádios para a Copa.

De fato, no decorrer destes dias o povo se deixou envolver por uma corrente de alegria e esperança, esqueceu dos problemas do dia-a-dia, do cotidiano miserável a que foi relegado por conta do descaso, da corrupção e impunidade, da carência de lideranças deste país.

“Eu sou brasileiro, com muito orgulho....” cantado aos quatro cantos, de norte a sul. Orgulho esse depositado no desempenho de sua seleção, que desde os primeiros jogos, diante de outras equipes medianas, mostrou não estar à altura de tanta expectativa.

Envaidecidos os jogadores que vivem há anos no exterior entraram em campo com o peito estufado, julgando-se deuses, “os predestinados” para dar “alegria ao povo”, com ares de campeões por estarem vestindo a camisa com cinco estrelas, diga-se, estrelas conquistadas por outras equipes ou por haverem recentemente conquistado a Copa das Confederações... como se isso fosse garantia do hexa ou de um bom time. 

 Sem tardar foi possível ver que essa seria a seleção de egos espalhados pelo Instagram e pouco ataque, das entrevistas ufanistas e pouco treino, dos altos contratos publicitários e poucas finalizações.
 
Quando afinal houve o confronto com uma equipe que se preparou seriamente para ser a campeã, com treinos, disciplina, técnica, dedicação, pouca falação ou vaidades pessoais, a realidade se mostrou: os ídolos eram de barro! Tomaram de 7 x 1, como poderiam ter levado de 10, não fosse o respeito dos adversários que desaceleraram aos vinte e nove minutos de jogo poupando os brasileiros de uma humilhação maior, respeitando uma ética não escrita.

Vexame histórico! O Mineiraço conseguiu superar o Maracanaço de 50. E como se não bastasse, veio o jogo com a Holanda. A laranja mecânica deu de 3 x 0 na seleção do penta, para acabar com aquele lenga-lenga de apagão de seis minutos na vã tentativa de justificar o injustificável. Façaofavor! Seis minutos? Como assim? O jogo teve mais de noventa minutos! É acreditar que o povo é otário mesmo! “Apagão” se dá em breves intervalos, se isso ocorreu durante toda a partida, não foi apagão, foi incompetência mesmo. Simples assim!

Não admitir erros e não reconhecer os méritos do adversário é arrogância! Onde ficam a honra e a humildade? O desempenho desmoralizante da seleção foi o padrão, não há o que contestar.

A seleção brasileira saiu no lucro ao se classificar em quarto lugar. Argélia, Colômbia e Costa Rica que o digam! Só chegou até aí porque enfrentou times fracos nas oitavas e quartas de final, essa é a verdade. E não se iludam os mais otimistas: com ou sem Neymar o desfecho seria o mesmo. Ele deu é sorte por ter ficado de fora desse fiasco.

Segundo os críticos esse time foi o mais medíocre de todas as Copas, formado por jogadores que pretendiam ser campeões sem time, treino ou preparo técnico e psicológico. Que time é esse que chora ao cantar o hino nacional, chora ao ganhar, chora ao perder, chora ao ter que bater pênalti? Afff... Uma seleção anfitriã, que sai de campo dando as costas para a sua torcida, sem se despedir, sem agradecer o apoio de quem esteve com eles até na derrota, deixando as honras e o gramado para o selecionado da Holanda. Que seleção é essa???
 
Se há um time que fez a alegria do povo, foi o alemão. Sem alarde ou estardalhaço cantaram o hino do Bahia, dançaram com os índios pataxós, vestiram a camisa do Flamengo; dispensando a mais rígida segurança confraternizaram com os moradores da vila de pescadores e postaram mensagens de simpatia à equipe do Neymar. Apesar dos 7 x 1, sem chororô ou mimimi, ganharam a simpatia da torcida brasileira. 
 
Moral da história: É preciso reformular o futebol, assim como este país.

Dentro de campo ou fora dele o que se vê no Brasil é o caos, a desordem e o total desgoverno. Na política, um governo tentando governar sem autoridade, ética ou preparo político, administrativo e econômico.

Além de cair na real e parar de se acreditar que “camisa” ganha o jogo, é preciso esquecer o discurso demagógico, ultrapassado, paternalista e populista em torno de bolsas disso ou daquilo, do fantasma de uma luta de classes ou “elite branca” inexistente, que não leva em absoluto a lugar algum e muito menos ao crescimento. Esse é o apagão que o governo quer que se acredite, em detrimento do planejamento e das mudanças políticas e estruturais que se impõem neste momento ao país do futebol.

Veja-se a postura, a elegância, a alegria e a descontração de Ângela Merkel na tribuna de honra do Maracanã e em contrapartida a triste figura de Dilma Rousseff, anfitriã da festa, tentando ficar à sombra para se esconder do público. Aquela uma legítima estadista e representante que vibra e torce com e por seu povo. Exemplo clássico da imagem que fala mais que as palavras.

Temos a chance de enterrar nas próximas eleições, agora em outubro, um dos maiores males que proliferou em nosso país na última década: a corrupção, o superfaturamento de obras inconclusas e imprestáveis, a má-versação do dinheiro público, o descaso com a saúde pública e a educação. É chegada a hora de fazer a correção histórica assim como no futebol.

O Brasil fugiu de sua própria identidade nos últimos anos e chegou à Copa de 2014 completamente distinto de sua natureza, assim como o Brasil do futebol. Um reflexo do outro. A seleção foi transformada numa banca de negócios e mina de contratos publicitários; o técnico nada mais é que uma marionete em meio ao jogo de interesses de cartolas, empresários, patrocinadores e uma rede de televisão. Não se escala o melhor time, mas aquele que poderá ter o passe valorizado para fechar contratos milionários lá na frente, o que será rateado por todos; hoje o que menos conta é o futebol, assim como povo para quem governa este país.

Fala-se em total reformulação no futebol, a começar pela renovação da Comissão Técnica. Pois que essa reformulação aconteça também na política, a começar por vereadores, deputados, governadores e Presidente.

Que a lição dos campos se expanda para a nossa realidade. O triunfo passa obrigatoriamente pelas mudanças. Sem elas os erros se repetem num ciclo vicioso, que engole a todos.

O jogo feio praticado pela seleção brasileira atual é o mesmo jogo feio praticado pela atual política do governo.

Perder um jogo por 7 x 1 ou 3 x 0 não é o fim do mundo. O fim do mundo é pagar altos impostos e não ter acesso a hospitais, postos de saúde, escolas, empregos dignos. O fim do mundo é pagar a conta de arenas superfaturadas como as de Manaus, Brasília e Cuiabá, elefantes brancos cujos campeonatos regionais resumem-se a times de quarta divisão e uma média de público não superior a 1.000 pessoas. O fim do mundo são os legados e as obras de infraestrutura prometidos que não aconteceram ou ruíram como o viaduto em Belo Horizonte, causando mortes. O fim do mundo é levar de goleada aqui fora.

A lição que fica é uma só: um grande país, assim como uma seleção campeã, é feito de trabalho, luta, dedicação, ética, vontade, tenacidade e não de comodismo, oportunismo, ufanismo, pieguismo, discursismo ou malandragem. A Alemanha ganhou o seu tetracampeonato neste domingo, dia 13, com planejamento, maestria e merecimento! Que nos sirva de lição!

O legado desta Copa foi deixado por eles e entregue aos brasileiros de uma vila de pescadores lá em Santa Cruz de Cabrália na Bahia. No adeus doaram aos índios pataxós 10 mil euros para a compra de uma ambulância e remédios ao centro de saúde que construíram em retribuição ao carinho e boas-vindas. Para a vila de pescadores que os acolheu deixaram as benfeitorias que fizeram no terreno como: o campo de treinamento que eles desejam seja transformado num centro educacional e de desenvolvimento para as crianças, a estrada interligando o centro de treinamento ao prédio da concentração também construído por eles, para que se torne um resort, atraindo turistas e riqueza para a população local, antes esquecida no mapa.

Tanto se falou em legado da Copa, em "dar alegria ao povo" e ao final isso foi dado por aqueles em cujo ônibus se lia: Eine Nation, eine zeit, einen traum... One Nation, one time, one dream... De fato eles foram a síntese de uma Nação, de um time, de um sonho.... 

No fundo os alemães foram mais Brasil cuja vitória foi coroada e marcada por um lindo pôr do sol iluminando o Cristo Redentor de braços abertos como que a abençoá-los pelo grande feito dentro e fora de campo. 

 Herzlichen Glückwunsch!





 Shadow/Mariasun



Licença Creative CommonsO LEGADO DA COPA DE 2014 de MARIASUN MONTAÑÉS está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.



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