sábado, 25 de junho de 2016



BREXIT - A RESPOSTA DA INGLATERRA AO MUNDO GLOBALIZADO




Imagine todas as pessoas, partilhando todo o mundo
Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único
Espero que um dia você se junte a nós, e o mundo viverá como um só.
(John Lennon)

Imagine todas as pessoas partilhando o mundo, um mundo sem países e sem fronteiras.... 

Há 59 anos a Europa, essa "velha senhora", dava um grande passo rumo à globalização. Fincava suas raízes para construir novos alicerces na economia do mundo contemporâneo. Parecia ter pressa para chegar ao século XXI.

Após o fim da “Belle Époque”, de duas Guerras Mundiais, da Guerra Fria, alguns países europeus (Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos) deram os primeiros passos para o início de uma cooperação mútua, estabelecendo as bases do que viria a ser a Comunidade Econômica Europeia ou Mercado Comum Europeu.

Nos anos 60, ao som dos Beatles, época marcada pela revolução cultural e o conflito de gerações, a Comunidade Europeia experimentava um grande crescimento econômico com acordos comerciais e isenção de tarifas entre os países do bloco.

Em 1973, a Dinamarca, Irlanda e a Inglaterra acabaram aderindo ao próspero mercado da União Europeia, aumentando o número de seus Estados-Membros para nove. Enquanto isso, em Portugal o regime de Salazar caía, a Espanha anunciava a morte do Generalíssimo Franco, marcando assim o fim das últimas ditaduras de direita no continente europeu.

Na década de 80 a Europa assumia protagonismo e uma nova fisionomia com a Queda do Muro de Berlim, em 1989; as duas Alemanhas se reunificaram, voltando a ser um único país, enquanto outros países, como Grécia, Portugal e Espanha, passavam a integrar o bloco econômico.

Nos anos 90, com a derrocada do comunismo na Europa Central e Oriental, a "velha senhora" se aproximou ainda mais dos europeus, até que, em 1993, vencendo as barreiras econômicas, concluiu o audacioso projeto do Mercado Único, com a livre circulação de mercadorias, de serviços, de capitais e de pessoas.

Os líderes europeus faziam história ao apostar no sonho de John Lennon, nos fazendo crer que seria possível viver num mundo multicultural e multirracial, sem fronteiras entre os cidadãos e onde até a moeda poderia ser única, símbolo maior da homogeneização do mercado.

No dia primeiro de janeiro de 1999, enquanto a Revolução Digital surgia para encurtar distâncias, o euro tornava-se a nova moeda de muitos europeus.

Foi assim que a Europa conseguiu passar a limpo os valores que haviam sido perdidos na primeira metade do século XX com o nacionalismo e o socialismo, e, que culminaram nas guerras que devastaram todo o continente.

Os olhares perplexos e atentos do mundo se voltaram mais uma vez para o velho continente, que naquele momento abria um novo e importante capítulo na História do homem.

Alguns viam aquilo com admiração, outros, com espanto, e, os demais, com descrença. Como fica a soberania dos Estados? E a moeda de cada país? Questionavam os mais pessimistas.

O tempo mostrou que nesses 59 anos o Bloco Europeu resistiu às crises e às previsões mais catastróficas. A Alemanha e a França surgiram nos últimos tempos como grandes articuladores diante das dificuldades econômicas da Grécia, da integração dos países do leste europeu e da região dos balcãs, do terrorismo islâmico, da crise dos refugiados sírios e da torcida daqueles que sempre torceram "contra". 

Se há algo que é indiscutível é que a Europa de hoje não é a mesma de ontem  e nem a que será amanhã... 

A única certeza é que o continente europeu, como na época dos grandes descobrimentos, continuará mirando para o futuro.

O mundo gira, dá muitas voltas, é incerto e nada perfeito.... A História tem nos mostrado isso: A Guerra Fria que era para fortalecer a URSS, acabou fortalecendo os Estados Unidos; a globalização que criou a união dos países, também fomentou a desunião; o comércio mundial é tangível, um Estado Mundial não.

E, no amanhecer de mais um dia, ontem, 24 de junho de 2016, durante os festejos de São João por aqui, lá na Europa, abriu-se mais um subtítulo no denso capítulo da União Europeia, com a vitória do “Brexit”, selando a saída do Reino Unido da Comunidade, 43 anos após o seu ingresso.

Os ingleses.... aaaahhh... os ingleses.... 

Uma histeria em massa parece ter tomado conta dos especialistas e noticiários pelos quatro cantos do mundo diante do resultado do plebiscito. Os pessimistas de plantão não tardaram a anunciar é o “fim da globalização”, ou pior, “o fim do mundo”, o “apocalypse now”.

Haverá motivo para tanto escarcéu?

Não, claro que não. O mundo não acabou. Fato. Apenas a Grã-Bretanha decidiu seguir em frente sozinha.

A verdade é que a Inglaterra apesar de fazer parte da União Europeia, ela nunca esteve presente em essência, tanto é assim que não adotou o euro como moeda oficial e nem assinou o Acordo de Schengen, permitindo a livre circulação de pessoas através de suas fronteiras. Sempre deixou claro que sua soberania estava acima dos interesses do bloco econômico e que não se submeteria às decisões de Bruxelas.

O resultado de ontem ratificou isso, apesar de revelar ao mundo a existência de “duas Inglaterras”:  a Inglaterra monárquica e a Inglaterra contemporânea; a Inglaterra de uma terra soberana que defende a tradição e sua herança cultural, e, a Inglaterra que olha para o futuro na busca de oportunidades, da permanência e integração com um mundo moderno cada vez mais interdependente.

Para aqueles que votaram “sim”, pela saída, a União Europeia é vista como um entrave à liberdade, um risco à identidade nacional, um aparato para a regulação do mercado e uma ameaça à segurança e ao emprego. O que tem como pano de fundo a imigração e o sentimento dos ingleses de estarem pagando uma conta muito alta por conta dos imigrantes, que ao chegar ao país, passam a viver dos benefícios do governo e lhes tiram ou ameaçam o emprego. 

Para aqueles que votaram “não”, pela permanência, a União Europeia representa o crescimento econômico, o caminho para o fortalecimento da Europa e do Reino Unido, a abertura para o intercâmbio cultural com outros povos e para novos mercados e oportunidades de trabalho.

O que diria o estadista Winston Churchill a esse respeito?

A bem da verdade, em sua época, ele foi o grande fiador da União Europeia. Diante de uma Europa destruída após a Segunda Guerra, quando a França e a Alemanha firmaram o tratado do carvão e do aço, ao qual acabaram aderindo outros países para formar a Comunidade Europeia, Churchill disse acreditar que a Europa somente se reergueria a partir dessa união. Foram suas palavras:

“Existe um remédio que..., em poucos anos, poderia tornar toda a Europa... livre e... feliz. Trata-se de reconstituir a família europeia ou, pelo menos, a parte que nos for possível reconstituir e assegurar-lhe uma estrutura que lhe permita viver em paz, com segurança e liberdade. Devemos criar uma espécie de Estados Unidos da Europa”.

Apesar disso, a Inglaterra só aderiu à União Europeia na década de 70, por absoluta necessidade e interesse econômico.

Ontem, os ingleses – divididos - pediram para sair.

A opção, no entanto, parece ter sido motivada muito mais por uma disputa interna do partido conservador e de uma leitura distorcida da realidade, inclusive, quanto ao retorno econômico que o fluxo migratório traz para o país e de uma teoria conspiratória sobre a criação de um governo mundial sediado em Bruxelas, que colocaria em risco a soberania e as liberdades individuais, o que não passa de um factoide. 

Tanto é assim que os mais jovens e mais liberiais votaram pela permanência (64% dentre 18 e 24 anos e, apenas, 33% na faixa dos 50 a 64 anos), assim como, Londres (60% dos londrinos)cidade cosmopolita e centro de importantes negócios.

Para os jovens britânicos o resultado de ontem foi frustrante e desastroso. Muitos deles responsabilizam os mais velhos de haverem decidido sobre o seu futuro, tirando-lhes o direito de viver e de trabalhar em 27 países. Disse um deles ao Financial Times:

Nós nunca conheceremos a extensão da perda de oportunidades, amizades, casamentos e experiências que serão negadas. A liberdade de movimento nos foi retirada pelos nossos pais, avós e tios em um golpe contra uma geração já afundada nas dívidas da geração anterior. Talvez mais importante, vivemos em uma sociedade pós-factual em que fatos se revelaram inúteis ao se confrontarem com mitos".

O mais curioso é saber que se houvesse um segundo turno... hoje, o resultado poderia ser outro.... ainda mais após a impactante e negativa reação em cadeia dos mercados do mundo.

É possível que, analisando as consequências, alguns dos que votaram pela saída, passadas apenas 24 horas, votassem pela permanência.

O que ganhou a Inglaterra com a sua saída da Comunidade Europeia?  Nada.

Economicamente, Londres corre o risco de deixar de ser o centro financeiro europeu, com investimentos de grandes corporações sendo transferidos para outros centros.  Isso sem se falar no mercado consumidor do Reino Unido, que por ser pequeno, não conseguirá absorver a produção excedente que antes era absorvida pelo mercado europeu, com reflexo e consequências diretas em sua economia interna.

Por sua vez, politicamente, perderam o bom governo do Primeiro Ministro, David Cameron, com sua visão positivista, moderna e inclusiva da Grã-Bretanha. Quem será o seu sucessor? Boris Johnson?!?

Será muito difícil também explicar à Irlanda do Norte porquê a separação da Inglaterra da União Europeia é viável, e, a da Irlanda do Reino Unido não.... ou.... 

conter o ímpeto dos escoceses pela independência, haja vista que no plebiscito de 2014, decidiram pela permanência da Escócia no Reino Unido para terem acesso à União Europeia. E agora? 

Será o fim da União Europeia ou... do Reino Unido?

E quanto às propaladas liberdades individuais, algo irá mudar?

O fato é que a liberdade individual dos britânicos nunca esteve ameaçada. Aliás, a Inglaterra sempre estabeleceu de forma clara e soberana os seus limites à União Europeia, e nunca se sentiu abalada pelos “burocratas de Bruxelas”, como os discursos mais inflamados tentaram fazer crer. Tudo não passou de uma campanha ideológica conduzida pela extrema direita conservadora.  

O certo é que a Inglaterra nos próximos dois anos terá que administrar os problemas que ela mesma criou para si: concretizar e viabilizar a sua saída do bloco econômico, ratear a conta e as perdas entre os cidadãos mais jovens e produtivos e conter os movimentos de independência dos países constituintes do Reino Unido, que optarem por permanecer na União Europeia.

E quanto à União Europeia?

Apesar dos pessimistas, ela continuará preparada para enfrentar e superar suas crises e desafios, como tem feito desde a sua formação, e, quiçá - após a saída da Inglaterra - mais fortalecida para reavaliar seus erros, sem perder a esperança no que está por vir, nas novas oportunidades e investimentos que surgirão, na busca da cooperação, do crescimento e do bem-estar duradouros da família europeia, como diria o notável Sir Winston Churchill.


God Save the Queen!!!







Shadow/Mariasun Montañés



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