sexta-feira, 9 de janeiro de 2015





EM ALGUM LUGAR NA PONTE DO ARCO-ÍRIS



"Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde é voltar ao Éden, onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz." (Milan Kundera)


Para quem não sabe, entre o céu e a terra há uma ponte, a ponte do arco-íris. Nem todos podem vê-la, pois ela aparece quando a luz do sol atravessa uma gota de lágrima, fruto da saudade de uma amizade que fez morada no coração. Parte dessa luz é refratada dentro da lágrima e refletida no seu interior, e é assim que, num breve lampejo, ela surge com seu espectro de cores violeta, anil, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho.

Essa ponte começou a ser construída quando Deus decidiu mostrar ao homem o que é lealdade e amizade, amor e responsabilidade, dando-lhe como companheiro de caminhada, um ser iluminado e desenvolvido espiritualmente, ao qual chamou de cão.

Logo no primeiro encontro, o homem sentiu um imenso prazer ao ver aquele serzinho orelhudo e peludo pulando, correndo e brincando ao seu redor. Era o início de uma incrível e inacreditável história de amor entre o cão e o homem, seu dono e tutor. 

Não há nada que se compare a essa amizade única, indescritível e especial.

Tudo é simples para um cão... 

Não importa quanto tempo seu dono se ausente ou esteja ocupado com outras coisas, ele sempre estará lá, à espera, alegre quando seu dono chegar; feliz ao receber um afago mesmo que rápido; não sentirá mágoa ou rancor por ter levado uma bronca por conta de alguma travessura ou do estresse de seu tutor. Apenas porque ele sabe, como nenhum outro ser, amar incondicionalmente.

Ama o tempo que passam juntos, mesmo que esse tempo seja curto; ama as confidências e sonhos secretos que seu dono/tutor lhe faz à noite, quando está aninhado em seu colo; ama ouvir seus passos, quando este chega em casa; ama andar de carro, ama passear no parque, ama brincar de “pega a bolinha”, ama esconder meias e sapatos em seu esconderijo secreto... ama esperar pacientemente por esses momentos...

Como Deus previra, o homem foi tocado por essa forma de amor tão pura, intensa e sincera, por essa amizade incondicional, por aquele olhar brilhante, lânguido e pidão capaz de derreter o mais frio dos corações; pelo amigo sempre presente, que sabe acarinhar nos momentos de tristeza, aliviar a dor com suas lambidas e demonstrações de afeto; parceiro e companheiro de curtas e longas caminhadas, que demonstra entender o humano mais que qualquer outra pessoa no mundo. “Quando todos se forem eu vou estar lá com você, amigos até depois do fim...”, parece dizer com o seu olhar que fala. 

Até que Deus decidiu que esse amigo, bom e fiel, no processo de evolução da vida, viveria menos que o homem. Dizem que é assim porque ele já nasce sabendo amar, de um jeito, que nós, os seres humanos, levamos uma vida inteira para aprender.
 
Apesar de velho e doente, seu amor por aquele que um dia foi seu tutor continua inabalável. Mesmo sabendo que terá de partir em breve, ainda assim e, com muito esforço, não deixa de acompanhar seu dono por onde quer que ele vá, apesar da respiração estar ficando cada vez mais fraca e ofegante, as patas não conseguirem mais ter forças para passear ou pular na cama e os olhos mal conseguirem enxergar seu dono. Chegado esse momento e, percebendo que ele já cumpriu a sua missão, a de transformar o homem em uma pessoa melhor, Deus decide levá-lo de volta à morada do Pai.

No entanto, todos que ali chegam, continuam à espera, fiéis a seus donos. À noite, alguns acabam até dando uma escapadinha para visitá-los em sonhos, demonstrando guardar a mesma ternura, lealdade e amizade por aqueles que um dia amaram.

O homem, por sua vez, chora em silêncio a perda do amigo fiel, sente a sua presença ao chegar em casa, continua a ouvir suas patinhas travessas correndo pela sala, olha com saudade e com o coração apertado para o esconderijo secreto de meias e sapatos; ao fechar os olhos sonha com ele sentindo a sua presença, relembrando com saudosismo os momentos vividos com companheiro tão especial.

Foi dessa separação, da espera e da saudade, da nobreza desses sentimentos, que a ponte surgiu e foi construída. E como toque final, Deus decidiu dar-lhe o brilho das cores: vermelho, para eternizar o amor entre o cão e o seu dono; laranja, para a saudade que ficou; amarelo, para que o divino sempre esteja presente entre eles; verde, para que a esperança do reencontro nunca se apague; azul, para que a espera seja tranquila e serena; anil, para que o firmamento seja testemunho; e, violeta, para que o espírito astral nunca os abandone.

Desde então, quando um animal que foi especial para alguém (cão, gato, pássaro, coelho, cavalo,...), morre, vai para a ponte do arco-íris.

Lá existem rios, para que eles possam mergulhar e nadar; jardins, para que possam se distrair, correr, rolar e brincar; fartura, para que possam se alimentar; abrigo, para que tenham conforto e um cantinho pra chamar de seu, um lugarzinho para esconder flores, pedrinhas, folhas... 

Ali, os animais velhos, doentes e machucados voltam a ter vigor e saúde, exatamente como nas mais vivas e ternas recordações de seus donos/tutores. 

Tudo seria perfeito e todos seriam totalmente felizes, não fosse por um detalhe: a falta que cada um sente de seu dono.   

Comovido por essa amizade tão bela e especial, Deus, em sua infinita bondade, decidiu que essa separação não seria definitiva.                           

E é assim que chega o dia, onde todos estão correndo e brincando como sempre fazem e,... um deles, de repente, para e olha fixamente na direção do horizonte. Seus olhos atentos, brilham; seu corpo, treme de ansiedade... e, ele então começa a correr se afastando do grupo. Corre por cima da relva, corre por cima do riacho, corre por cima das flores, cada vez mais e mais rápido, ansioso, com a língua de fora, rabinho abanando... É o seu dono. Ele está ali! Finalmente voltam a se reencontrar, a se abraçar, lamber, acariciar, e, aquele corpinho peludo volta a sentir, novamente, o afago daquelas mãos amigas em sua cabeça... 

E a final, os dois, lado a lado, estão prontos para cruzar juntos a ponte do arco-íris...

É um encontro tão comovente, que lágrimas chegam a cair na forma de uma chuva suave, ao mesmo tempo, que o brilho resplandecente desse amor tão terno e profundo, surge no céu, permitindo que ao se olhar para o horizonte, a ponte do arco-íris seja vista. 

Portanto, sempre que você tiver a sorte de ver o arco-íris, agora já sabe, naquele momento, alguém terá reencontrado um amigo muito especial e, ambos, estarão cruzando a ponte do arco-íris.





Um cão tem a capacidade de amar o que somos, amar a nossa alma






Dedicado ao Rintin, meu personal trainer de quatro patas, amoroso, carinhoso, comilão, apreciador de casquinha de pizza, brincalhão, colecionador de meias e sapatos, sabotador de árvores de Natal, curioso e... fiel companheiro por 15 anos, que hoje está na ponte do arco-íris... 




Shadow/Mariasun Montañés 


 
Licença Creative CommonsO trabalho EM ALGUM LUGAR NA PONTE DO ARCO-ÍRIS de MARIASUN MONTAÑÉS está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
 

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