quinta-feira, 10 de outubro de 2019





DA SOLIDÃO À DEPRESSÃO NA TERCEIRA IDADE




Lidar com a passagem do tempo talvez seja o grande desafio do ser humano.

A criança deseja acelerar o relógio para crescer rápido, o jovem deseja pular essa etapa para ser tratado como adulto e o adulto deseja parar o tempo para não envelhecer. Estamos sempre lutando contra o tempo, suas imposições e caprichos.

Tempo... tempo... tempo... de fato és o senhor do destino...

Gostaríamos de ter mais tempo para fazer as coisas que nos dão prazer. Reclamamos porque aquele momento tão esperado tarda a chegar, ou, porque ele passou rápido demais. Adiamos projetos e sonhos à espera do momento ideal... que nunca chega... 

Até que, num certo dia, o tempo decide impor-se sem evasivas ou rodeios...

Os olhos começam a ficar embaçados. As pernas não correm mais como antigamente. A audição diminui. As mãos ficam trêmulas. O passado insiste em voltar na forma de lembranças. A memória recente falha. Os filhos dão adeus aos pais. Os amigos adoecem e se vão. A aposentadoria chega... A nostalgia e o torpor se instalam.

De repente, a epifania e a certeza de que não adianta fugir do tempo. Ele sempre nos alcança e não poupa ninguém da sua passagem, do envelhecimento, das perdas e dos lutos. Talvez a perda mais dolorosa, seja a sensação de estar perdendo o controle do próprio corpo e de si mesmo.

Como lidar com a passagem do tempo?!?, eis a questão.

As limitações físicas, a aposentadoria, a perda de entes queridos, a autonomia dos filhos, as separações, o sentimento de incapacidade, a ausência de perspectivas no presente e do futuro, para alguns, podem se transformar em sofrimento e dor.

De um dia para o outro, ao acordar, a pessoa não se reconhece mais, sente-se estranha em seu corpo, em sua casa e no mundo que a cerca. Começa a perder o ânimo e a alegria de viver. Diante desse limiar de tormento e desorientação, encontra no isolamento e no afastamento social, um refúgio seguro.

Nesse retiro auto-imposto, perde o interesse de encontrar os amigos; coloca o telefone no mute; deixa de se cuidar; abandona as coisas que antes gostava de fazer; não quer sair do quarto, que por sinal está uma bagunça; dorme em demasia ou tem dificuldade para dormir; apresenta distúrbios alimentares; sente imensa tristeza e uma angústia difusa que a sufoca. A vida perde o prazer. Quando isso persiste por meses ou anos, a infelicidade sem fim e a solidão dão lugar à depressão.

Esse transtorno pode atingir as pessoas em qualquer idade, inclusive, as da terceira idade.

No entanto, há de se notar, que as mudanças de comportamento, de humor e isolamento, daquele que já passou dos 60 anos, podem ser vistas e confundidas pelos filhos e os mais próximos, como processos naturais do envelhecimento, retardando a atenção, ajuda e o tratamento que ele necessita.

Essa incompreensão dos outros, diante da dor e do sofrimento que a pessoa sente, apenas contribui para aumentar a sua visão patológica e distorcida do mundo e de si mesma, alimentando e agravando o seu abatimento e tristeza.

Quando alguém nesse estado, diz: “que a sua vida não tem mais sentido”, “que a sua presença é um peso para os filhos”, “que a sua morte seria um alívio para todos”, “que não se sente amado”, é preciso prestar atenção ao que ele está querendo dizer. Muitas vezes, isso é um pedido de ajuda.

A depressão é uma doença da alma, que afeta significativamente a saúde mental e física.

Ela consiste em remoer as dores do passado, remexer em feridas cicatrizadas, paralisar diante do medo da morte e do desconhecido, martirizar-se com uma constante sensação de incapacidade e de abandono, que faz a pessoa ir definhando lentamente a cada dia.

Diante desse estado emocional de desânimo e desesperança, o corpo reage não apenas com alterações do sono, mas, com a queda do sistema imunológico, ficando ela vulnerável aos processos inflamatórios e às doenças, psicossomáticas ou não. O maior fator de risco nesses casos são as cardiopatias e as doenças respiratórias, que podem levar à morte.

Por essa razão, a depressão deve ser tomada a sério. Ela não é algo banal ou uma forma dramática de chamar a atenção dos outros sobre si. Ela é um sofrimento real, dilacerante, que muitas vezes necessita da intervenção de um médico e de tratamento.

O suporte da família e dos amigos, em especial, dos filhos, é fundamental e indispensável nesse momento. É preciso entender que, aquele que sofre e é prisioneiro da depressão, necessita de apoio externo para reencontrar-se e adaptar-se às mudanças que o tempo trouxe e a realidade impõe.

A depressão é tratável. O caminho está em auxiliar a pessoa a sair do estado de torpor, abatimento e solidão em que se encontra, para que ela consiga e se sinta estimulada a tirar da gaveta os sonhos por anos acalentados; encontrar novos hobbies e atividades que lhe tragam prazer; começar novos cursos e aprender coisas novas que a estimulem e motivem; praticar exercícios físicos, dançar ou cantar num coral, ações que a ajudem a recuperar o bem-estar e o equilíbrio emocional... indo ao encontro daquilo que foi adiado por toda uma vida. Esses são os remédios mais eficazes contra os estados depressivos.

Afinal, envelhecer nada mais é que do que aceitar o tempo e vivê-lo em sua plenitude.

Há quem conte o tempo pelos aniversários, calendário, ponteiros do relógio, perdas, lutos, espelho - onde as rugas e os cabelos brancos refletem sua passagem e o passar dos anos. Há, porém, quem o conte por meio das viagens realizadas e as que pretende realizar, número de amigos que tem e os que ainda terá, amores vividos e as diferentes formas de amar, passeios inesquecíveis e os que estão por vir, sonhos concretizados e os que pretende concretizar. Em qualquer caso, o tempo passou, mas - no segundo - de uma maneira mais viva e intensa, menos triste, solitária e sofrida. Cada momento vivido deixa a sua marca não apenas no tempo, mas no corpo e na alma. Afinal... razão tem quem diz que:

“Não é o tempo que passa por nós, somos nós que passamos no tempo...”.




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