quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016



QUANDO AS REDES SOCIAIS SE TRANSFORMAM EM PALANQUES E TRIBUNAIS DE EXCEÇÃO


“A ignorância não fica tão distante da verdade 
quanto o preconceito”  (Diderot)

O avanço da tecnologia hoje nos permite estar conectados com o mundo e com as pessoas em questão de segundos. Poucos são aqueles que vivem sem o mundo digital, sem um celular com acesso à internet e às redes sociais. Isso nos permite ter a informação em tempo real ao simples toque de uma tecla, não há pergunta que fique sem resposta; estamos cada vez mais próximos daqueles a quem amamos, por mais distante que eles estejam fisicamente e somos capazes de ir além, estabelecendo laços de amizade nessa grande teia com pessoas admiráveis e especiais, que de outra forma não teríamos o prazer de encontrar.

A popularização das redes sociais, num primeiro momento, veio para agregar e somar. Quem não se enterneceu com a foto do menino sírio deitado sem vida em uma praia turca? Quem não se solidarizou com os franceses diante dos atentados em Paris? Quem não lamentou o desastre ambiental em Mariana, a destruição e a morte, inclusive do Rio Doce?

Entretanto, as redes sociais que podem tocar e aquecer o coração, despertar a empatia e a solidariedade, nos entrelaçar e irmanar, nos fazer sentir mais humanos, também podem espalhar a intolerância, a discórdia, a injustiça e o ódio.

Vivemos um período difícil de dúvidas e incertezas; somos representados por um governo que definitivamente não nos representa, pelo contrário, nos faz sangrar na mesma proporção em que aniquila todo um país. Um sentimento de dúvidas e incertezas nos invade quando o japonês da Polícia Federal, responsável por algemar os ladrões que saquearam a Petrobras, se torna a personalidade do ano de 2015; quando a maior rede de televisão do país elege como suas musas e a cara das jovens brasileiras, três integrantes do Movimento Passe Livre (MPL), cuja única proposta é levar o caos, a truculência, a baderna, a selvageria e a depredação por onde passa; quando o fator de união nacional passa a ser o mosquito Aedes aegypti ao invés das ações da Presidente da República.

Pouco a pouco passamos a nos sentir acuados, sem saída e sem perspectivas e essa insatisfação da vida real up grade está indo parar e contaminando as redes sociais na forma da falta de bom senso, ódio destilado, ânimos exaltados, ataques acalorados, comentários preconceituosos, onde qualquer voz dissonante está condenada a queimar no fogo do inferno.

É quando a tela do computador salta para fora produzindo consequências no mundo real, onde qualquer forma de pensamento humanista é deletada e o outro deixa de existir. O que importa são “as minhas convicções”, mesmo que desestruturadas e sem fundamento, sem muitos critérios, embasadas no “fulano disse”, “ouvi dizer”, compartilhadas por outras centenas e centenas de seguidores, como se fosse o bastante para comprovar uma tese científica ou destruir a reputação de pessoas.

Não importa o cenário: política, religião, futebol, novela ou... até mesmo um reality show. Iniciada a discórdia o embate será travado sem freios, alimentado pela cólera, agressões mútuas, discussões intermináveis, sem direito a vencedor, só vencidos.

A polêmica mais recente começou no BBB16. Bastou um participante chamar o outro de “tarado e pedófilo”, para o comentário ganhar as redes sociais e culminar em uma campanha de linchamento do participante, não digo sem precedentes, pois já havia ocorrido com outro participante desse mesmo reality, acusado de estupro sem provas. A pessoa teve sua vida devassada; comentários, posts e curtidas de sua rede social foram pinçados para comprovar os argumentos de juízes implacáveis ávidos por Justiça.

A turba ensandecida revezou-se em mutirões para eliminar aquele “ser repugnante” a quem, em menos de três dias, sumariamente julgaram e condenaram, sem direito a defesa ou presunção de inocência.

É preocupante quando as redes sociais se transformam em Tribunais de Exceção e as pessoas em paladinas da Justiça.

Hoje, diante de uma insatisfação difusa cada vez mais crescente, qualquer um se acha no direito de levantar uma bandeira, muitas vezes de ódio e, sair fazendo justiça com as próprias mãos.

Viver não é fácil, muito menos em sociedade. A todo momento, desde que nascemos, nos deparamos com as frustrações e os limites. Apesar de ninguém gostar dos “nãos” que a vida nos dá, muitas vezes eles são necessários para o nosso crescimento, aprendizado, desenvolvimento e convivência social. Os limites são necessários, sim. Há certas regras que deveriam ser sempre seguidas, como o respeito às pessoas, às normas e às diferenças.

Uma das coisas mais fascinantes da vida é sermos diferentes uns dos outros, cada qual com a sua forma de pensar, de construir o mundo e de relacionar-se com o seu diferente. Houvesse uma única maneira de ser e agir, perderíamos a nossa essência, seríamos pouco mais que autômatos; se pudéssemos fazer o que quiséssemos sem respeitar o espaço do outro, viveríamos em guerra diária uns com os outros.

Um reality show é feito para a diversão e o entretenimento, não para fomentar a intransigência ou estimular a intolerância e o preconceito.

Ao reunir pessoas de quatro gerações, o BBB que está no ar, vai ao encontro disso. Se o banheiro está sujo, ah... só pode ser o  porco e nojento do “velho”. Muito embora todos o usem e sujem. Se o rapaz não quer formar casal com a bela da casa, hummm... “ele é “gay”! Afinal, “um homem que é homem” deve ir pra debaixo do edredom com a bonitinha da vez para provar a sua virilidade. Se a gordinha fora dos padrões estéticos forma casal com um dos bonitões da edição, xiiiii... “ela está sendo trouxa e se iludindo”. Apesar de os casais formados entre duas beldades serem imediatamente chipados, ganharem uma torcida alucinada e os comentários girarem em torno do casamento e dos lindos filhos que terão.

Pedro Bial, em um de seus discursos de eliminação do BBB, disse acertadamente: "É um espetáculo de natureza humana que, ao contrário do que rumina o senso comum, revela muito mais a natureza de quem espia sobre quem é espiado".

Não há nada mais nefasto e discriminatório do que o juízo pré-concebido de uma pessoa tendo como pano de fundo a idade, valores, aparência física ou classe social da outra; o que quando compartilhado por outras tantas centenas de pessoas, ganha dimensões de “verdade absoluta”. Aí já é tarde. O mal está feito e disseminado.


Hoje, nas redes sociais, muitos acreditam que estão defendendo questões sociais, quando estão apenas difundindo e compartilhando a intolerância e o preconceito. É branco ou preto, black or white. Não há outras possibilidades, meio termo, nem outras nuances.

Portanto, creio que é hora de parar e repensar. Se as redes sociais tem o grande potencial de falar por nós e de promover mudanças, que sejam usadas com critério e temperança para multiplicar e construir, não para dividir e destruir; caso contrário não haverá mais espaço para a razão e nem para enxergar a verdadeira causa de nossas insatisfações e descontentamentos.




Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo, que um preconceito. (Albert Einstein).
Hoje ele diria: 
Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo, que uma notícia deturpada nas redes sociais...


Shadow/Mariasun Montañés




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